ENSAIO:
"IRMANDADE ANÔNIMA"
F.F.G., JULHO/2001.
SINOPSE:
Em
Irmandade Anônima, o "leitor-internauta-curioso", ávido pelo conhecimento da estranheza da psique alheia, deparar-se-á com um profundo mergulho na intimidade - não do autor da presente obra - mas sim da personagem
José Pedro, cujos inquietantes pensamentos
digressivo-filosóficos que se verá, tiveram início durante uma festa à fantasia para a qual fora convenientemente convidado.
Tudo em uma analítica, crítica - e muitas vezes poética - conversa consigo mesmo.
O enredo se dá quase que completamente durante a festa: local em que o
narrador-onisciente-em-primeira-pessoa acaba por conhecer e se integrar a uma ordem secreta que busca atingir a perfeição humana.
A profundidade em que o personagem entra nos objetos, nas pessoas, e nos valores da vida, nos mostra o evidente
monólogo interior do presente texto, desnudando desde o lado
“hipócrita, fétido, e podre” da sociedade, às mais
“nobres e pueris essencialidades” da vida entre os homens.
Irmandade Anônima é para ser lido e "apreciado" por aquele indivíduo que já esgotou todos os romances de sua velha estante; pois não é obra indicada por grandes nomes ou "magos" da mídia; não traz consigo citações elogiosas de grandes jornais ou revistas; e já fora recusado por duas editoras, que,
"...apesar de acharem a obra muito interessante, já estavam com suas pautas de pretensões editoriais preenchidas".
Aos fieis admiradores de desconhecidas entrelinhas críticas e irônicas que insistirem em avançar à esta sinopse, adverte-se-lhes, de plano, que, na presente leitura, nada mais encontrarão que a secreta e ininteligível poesia existente dentro do silencioso pensamento humano.
“Sim, eu! O louco!
O tolo!
A cobaia!
Hoje eu sou herói!
Mesmo que morto, mesmo que louco,
mesmo que na mais plena, áurea,
e inabalável doce licantropia do meu ser”.
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SUMÁRIO:
Capítulo 1 - Cobaias Científicas
Capítulo 2 - O Jantar
Capítulo 3 -
As Essencialidades Humanas (Primeira parte)
Capítulo 4 - Baile de Máscaras
Capítulo 5 - Julgamento
Capítulo 6 - Hiperalgia
Capítulo 7 - Homens honestos
Capítulo 8 - A Festa
Capítulo 9 - A Porta e a Infância
Capítulo 10 - A Ordem
Capítulo 11 - A Saga de Astrid
Capítulo 12 - Egocêntricos
Capítulo 13 – A Noite
Capítulo 14 – Médicos de Egos e de Corpos
Capítulo 15 –
As Essencialidades Humanas (Segunda parte)
Capítulo 16 – Lobos da Eternidade
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Capítulo 1 –
COBAIAS CIENTÍFICAS
Ilustre taça de vidro esverdeado.
Champagne. Pequenas folhas de louro saboreadas à luz da sorte. Uma estima por futuros prósperos. Ternos finos. Alvos vestidos com cortes ditados à regra da constante mudança: à regra do consumo (da transferência do negociável poder em suas contas bancárias).
Eu? Quieto, franzino! Penso por um instante: nas garrafas de
champangne, nas pessoas que dançam (algumas belas, outras não). Penso no
blazer que a mim foi emprestado ao entrar nesta festa alegre. Alegre e, no entanto, hipócrita, ao menos em parte:
- Aceita
carpaccio, senhor?
- Mais tarde, obrigado!
É claro! As línguas sempre se misturaram. Constróem nada mais que neologismos, umas para as outras, de modo a servirem de alicerce à constante mudança.
É notório como o novo sacia nossa sede! O "falso novo", ou mesmo o "novo verdadeiramente novo"! Até mesmo o "arcáico" quando, por isso, faz-se diferente do tradicional.
Não aceito o que me oferecem, jantarei mais tarde! Posso ver que o futuro nada mais é do que um simples referencial! Alguns, no mesmo lugar, mesmo dia e hora, vivem séculos de diferença. Povos medievais numa clara coexistência temporal com o presente. Outros tempos, idéias, valores, paixões...
Vejo um grupo conversando. Um homem de cabelos grisalhos lidera o assunto. Tem poder. Vê-se que é alguém importante, vários lhe escutam atentamente. Pede ao garçom que a seus amigos traga de beber e comer. Quer que estejam à vontade:
- Um
drink, senhor?
- Obrigado, mas não quero beber hoje!
Não aceito o que me oferecem (de forma alguma que por causa do remédio que tenho tomado ultimamente, pois estou pouco me importando para estes inúteis medicinais), mas não aceito porque vejo que, desta forma, posso pensar por uns instantes.
Tecnologias futuras, satélites, ondas que nos cruzam o cérebro “sem” nos afetarem de fato. Vírus e bactérias produzidas em laboratório para controlarem massas. Meios de comunicação para nos controlarem as idéias. Cantamos juntos as mesmas canções: as que falam de amor, de tristeza, de alegria, de esperança (...desde que não nos despertem o senso crítico!) Esquecem-se de que esperança não é "aguardar", e sim a capacidade de não cessar à luta por algo desejado.
Satélites, ondas sonoras, gravações.
Quem nos garante a liberdade de expressão?
Quem nos garante um suposto sigilo telefônico?
Quem nos garante que o refrigerante que bebemos também não serve para nos controlar de alguma forma?
Quem garante que nossas digitações não são todas monitoradas na grande rede?
Paranóia?
Não, delírio momentâneo!
Também sou como eles, penso mais do que vivo!
E é por isso que estas pessoas que hoje vejo em minha frente como uma massa controlável; como elementos de uma grande matriz natural; como elementos de um referencial temporal atrasado; como trabalhadores-incondicionais condicionados a uma nobreza temporalmente evoluída; e, por fim, como verdadeiras cobaias científicas, são o espelho no qual vejo a mim mesmo.
Sou parte dessa gente! Queira a minha simples e fútil vontade, ou não.
Máquinas; controle das massas através do então censo-liberal cinema, através do culto ao “mesmismo” e ao falso novo.
Propagandas, incentivos, cores e sons!
Não aceito o
champagne, definitivamente!
Vejo que não bebi nada até agora e que nesta noite posso pensar.
Usar meu senso crítico!
Grito em meu pensamento:
- Nesta noite não lhes deixarei conter minha crítica!! Pois a faço apenas em minha mente!
Deve ter havido algum problema no monitoramento de seus satélites, pois consigo criticar-lhes! Não é estranho? Não posso evitar as ondas sonoras que desenvolveram para nos tranqüilizarem! Mas nego-lhes, pelo menos por hoje, a
coca-cola que nos servem!
Porque quero pensar!
Mal ouço a voz daquele homem de linho listrado, sentado ali adiante. É quieto, não conversa muito. Por incrível que pareça era um dos mais festivos! Conversamos no começo da noite quando fomos apresentados! Noutra roda, resolvi perguntar à sua irmã sobre seu passado, pois tive a impressão de já conhecê-lo de longa data. Era inteligente! Falava outras línguas, tocava violão, jogava futebol, lia, e ajudava muitas pessoas a serem desta forma. Chegou a participar de movimentos estudantis, mas nunca fora pego! Era esperto:
- Ele teve sorte! - dizia a irmã!
Talvez os métodos hoje sejam outros!
Talvez seja por isso que vivemos numa aparente sociedade sem censura e repressão.
Clonagem, bebês de proveta, o ser humano perfeito!
Curas de doenças. Novas doenças!
Imagens momentâneas, retinas lentas!
Persuasão!
Controle das massas!
A sociedade se segmenta, e muito!
Divide-se pelo critério “poder” nesta festa, da mesma forma que o faz no mundo, como um todo.
E esta nobreza líder (sua maioria encontrada numa única potência mundial da América) se mantém com seus antídotos, proteções e privilégios.
Sobrevivendo “antropofagicamente” às nossas custas.
Volto a lhes falar.
Logo terei de comer e beber, senão passo fome! Conseguirão me controlar! Sim, devo admitir! Mas sei que por um pequeno instante, não foram perfeitos! Alguma parede ou coluna protegeu meus ouvidos de suas silenciosas ondas que me mandam calar.
Vou aproveitar a festa, continuarei a trabalhar, consumir seus produtos, idéias e entretenimentos que em minha face são esfregados. Mas saibam que minha tranqüilidade reside no fato de que não sois perfeitos! A seleção natural ou alguma mutação genética - das quais sois grandes especialistas - ainda farão nascer uma nova ordem. Uma ordem que terá em suas mãos as ofertas de substituição de seus cargos, e que simplesmente as negará. Negará pela própria força do novo que sempre se mostrou no ser humano, e que nele sempre se mostrará. Negará pela própria força de espírito que há de fazer nossa glória!
Capítulo 2 – O JANTAR
- Pedro, vem sentar com a gente! O jantar já vai ser servido. De entrada vamos ter salmão com
champignons, e raízes terapêuticas orientais. Uma delícia!
É! Acho que já está na hora de abdicar aos meus delírios momentâneos, senão, como disse, passo fome. E a fome é, instintivamente, a mais física e intransponível ânsia humana pela constante evolução (neste caso, através da evolução física corporal). Uma evolução referencial que, na primavera de nossas vidas se faz através do crescimento; e no inverno, através da luta contra o decrescimento.
Sentamos todos à mesa. Nada me parece tão anormal. Vejo que estão todos muito elegantemente vestidos. Não estão "bem vestidos", estão elegantemente vestidos (o que é demasiado diferente). Porque julgo que estivessem bem vestidos se estivessem confortáveis (mas não sinto por seus olhares que estejam necessariamente "confortáveis").
"Psicologicamente confortáveis", isto sim! E psicologicamente confortáveis sob os aspectos que decidiram julgar como tal.
"Belíssimos brasões" que, trançados sobre suas vestes, tornam tão mais valiosos, os tecidos de linho, e seda, e camurça, e couro, que cobrem os corpos fracos e frágeis, e de pouca cor.
"Casulos paradoxais" que talvez, mesmo que externamente acinzentados, estejam realmente guardando belas e coloridas borboletas.
Mas a recíproca é verdadeira.
"Borboletas"!
Isto me fez lembrar que os machos são mais belos que as fêmeas em todas as espécies!
Pense na juba do leão; na força dos búfalos; nas cores das aves de rapina; na cauda do pavão; na robustez e mistério do lobo em relação à loba; na cor da cauda de alguns alevinos. Pense também na plumagem e na crista do galo (e na incontestável superioridade da beleza de suas canções).
"Borboletas"!
Há, porém, duas exceções que contrariam a regra da guerra da beleza entre os sexos: as fêmeas são mais belas que os machos no caso das borboletas, e no caso do ser humano.
Sim, mais uma vez encontramos uma regra com suas incontestáveis exceções.
Regras! É impressionante o como as mais perfeitas regras são as principais detentoras das mais ocultas exceções. E
"por que"? Esta é a pergunta! Por que Vênus é o único planeta com rotação em sentido horário, contrariando a regra de todos os demais?
Mas basta com roupas, beleza entre os animais, regras e exceções!
Tenho essa mania, às vezes, a mania de entrar a fundo nas coisas, nos objetos, nas pessoas.
Nas imagens, cores e sons!
Tenho um belíssimo prato em minha frente com várias pessoas por perto - até que um tanto quanto simpáticas – a conversarem cordialmente comigo, e fico eu, aqui, divagando no oculto das coisas ao meu redor.
Mas que fazer se eu sou assim?
Faz parte de minha natureza.
Divago mesmo, e já encontrei ao longo de minha vida aqueles que não se identificaram comigo por este motivo, e também os que viam beleza e semelhança nesta característica de buscar sempre o novo, mesmo que em pensamento.
Lembro-me de uma vez, quando criança, que estava a brincar sob um ipê.
Estávamos prestes a construir uma base infanto-militar em baixo de uma bela árvore que, por si só, já nos serviria de abrigo.
Havíamos trabalhado durante toda a tarde na coleta de materiais para a construção.
Ao por do sol, simplesmente trocamos nosso sonho de construção pela fugaz vontade de jogar o velho vídeo-game caseiro, e nem tanto cansativo.
Nunca terminamos aquela base (somente outras, tempos depois) mas aquela – especificamente - fora simplesmente esquecida.
Mas... e daí?
Jogo-lhes esta pergunta.
"E daí"?
Creio que construímos o que precisava ser construído ao seu tempo.
Hoje vejo que esta base não podia, e nem jamais poderá, ser terminada. Pura e simplesmente prque
esta foi a função de sua existência, seu papel na ciência plena de si (e dentro de nós, que a realizamos em sonho).
O jantar começa!
As pessoas todas começam a comer delicadamente, e numa tal formalidade, que expressa a regra de que matemos nossa fome, sem necessariamente mostrarmos que estamos com tanta fome.
Hipocrisia desta vez? Quem sabe, talvez sim, talvez não.
Não podemos sair julgando as pessoas só porque comem fingindo querer não comer; talvez seja algo que as afaste de sua plenitude de espírito, mas não cabe a nós querer ditar as regras alheias. Cada um é o único tutor de suas regras pessoais.
Mas devo admitir que a comida é realmente saborosa. Só não vejo tanta cor ou gosto nestes
nobres alimentícios que as pessoas fazem questão de lembrar seus tão difundidos e caríssimos valores. Creio que meu prato até se assemelhe à carne bovina cotidiana; ao pão francês caseiro; e ao feijão com arroz que como todos os dias:
- Salmão? Vocês têm certeza de que estamos comendo salmão, e não um almoço normal?Pergunto em voz baixa, de modo que tão somente eu próprio possa ter me escutado.
Sim, salmão! Por que não? Se eu quiser, posso fazer com que essa comida seja carne, soja, scargots, minha deliciosa sopa de talharim, ou mesmo o delicioso pescado alaranjado.
Por que não salmão, no dia de hoje?
Sim, é salmão, definitivamente!
Eu quero que seja! E a mim isto basta!
Márcia come tão deliciosamente e com tanta apreciação ao prato de cor forte que até sinto como se cometesse uma agressão à sua felicidade se ousasse não querer que seja salmão:
- Pedro, temos que fazer essas receitas mais vezes, hein?
- Sim, Márcia! Vamos fazer sim. Lembre-me depois que peço à Dona Adelina que nos faça sempre! Você gosta muito, não é?
- Gosto!!
Coitada da Márcia, nunca vi alguém apreciar tanto um prato oriental como minha irmã. Vou mandar fazer sempre para que ela aprecie e para que, desta forma, possa sentir este prazer gustativo que quase me leva a apreciar junto.
Comer faz parte da natureza dela!
Feliz da Márcia que abdica à vaidade da robustez tão fortemente enraizada nas outras moças de vinte anos, em troca do que - para ela - seja a própria razão do existir.
E novamente digo, isto faz parte de sua natureza.
Márcia sempre gostou de comer: apreciar um bom prato; degustar a taça de um bom vinho italiano; provar um suave champanhe francês; uma torta doce alemã; sorvetes e porções em geral. Tal como o Beto, nosso irmão mais velho, que sempre apreciava usar roupas escuras; jaquetas de couro; jeans claro rasgado nas bordas; vez ou outra um lenço branco à cabeça; ouvindo seu Oscar Peterson, Ray Vaughan, Clapton ou Matthew’s Band.
De pensar que muitos olhavam-no como
bravo e
perigoso, vez que, embora rebelde, de perigoso não tinha nada. Sempre fora alegre e brincalhão; em casa ou fora dela.
Mistérios do subconsciente.
Verdades ausentes.
Onipresença do todo, da vida!
E do infinito improvado.
Capítulo 3 –
AS ESSENCIALIDADES HUMANAS
(Primeira Parte)
Eu, José Pedro, particularmente, já vivi alguns anos. Pouco mais de vinte, para ser mais preciso. Já posso dizer que diversas coisas pude presenciar no decorrer de minha vida. Grandes sentimentos, sofrimentos, alegrias, decepções, medo, coragem, surpresa, tédio, raiva, luz, calma, tranqüilidade, inquietude, angústia, proteção, solidão, e a melhor de todas as vivências: a visão do novo!
Devo dizer que são relativos, obviamente, todos esses fatores na vida de qualquer homem. Acredito que uma das mais importantes máximas humanas seja o heroísmo que, por força de nosso instinto, somos impelidos a ter de apresentar aos nossos semelhantes.
Está
genético-moralmente estabelecida em nosso ego, a necessidade de provar aos nossos semelhantes, que muito nos destacamos da mediocridade.
E é exatamente por aqui que pretendo começar minha análise do que seja a vida; do que seja o homem; de quem somos; e, por quê, somos. Pretendo começar pela raiz de nossa existência, mesmo que para isso tenhamos que descer ao fundo do poço; descer ao podre; ao fétido; e ao escárnio da humanidade.
Minha intenção não é dividir o ser humano em diferentes camadas geológicas, ou colocá-lo em túneis subterrâneos distintos (como o fez de forma esplêndida o nobre poeta italiano). Também não pretendo sequer imaginar como deva ser o Paraíso, justamente por me contradizer, se ousar especular tal lugar nos ser visível aos olhos.
Começarei, portanto, pelo primeiro de nossos pecados, e nossa primeira dor: o nascimento!
Por razão que desconhecemos, em um determinado dia somos convocados a chorar e a sentir um mundo novo, repleto de fenômenos desconhecidos. Daí deriva nosso medo inicial: o
medo do desconhecido. Nada conhecemos ou compreendemos. Todo o possível àquele momento é o “sentir” das coisas, nada além.
Nesse
desabrochar das almas é simplesmente o
perceber das coisas ao nosso redor que nos rege toda a razão do nascimento. Daí a grande diferença entre as principais essencialidades humanas do nascimento para a fase adulta: quando crianças, não compreendemos exatamente as coisas, mas podemos sentí-las ao nosso redor. Aí nos é possível a percepção das sensações físicas externas, internas e sensoriais.
Alguns de nós, já nos primeiros suspiros de vida, têm a “má-sorte” de experimentar a dor corpórea de forma avassaladora. Não questionarei aqui por que alguns são escolhidos para determinadas situações do acaso, e outros não; isso geraria anos – em vão - das mais coerentes filosofias humanas. E a idéia desta minha reflexão é justamente mostrar que eu não pretendo mostrar nada. Isso mesmo! Qualquer que seja a mensagem de uma obra ou pensamento alheios, efeito algum terão sobre seus receptores se tal mensagem já não residir, mesmo que de forma oculta e subconsciente, no interior de quem os recebe.
Que tirem, entretanto, desta história, a conclusão que lhes for mais plausível em sua respectiva realidade, seu específico contexto de vida e morte, porque a intenção aqui não é mostrar que algum de nós esteja, ou não, ideologicamente correto.
Queiramos nós ou não, jamais poderemos nos definir como detentores de uma determinada verdade, pois a auto-definição é uma ciência divina e se pertencêssemos ao topo da divindade, estejam certos de que saberíamos disso (...mas não sabemos!).
Não pretendo também criticar idéias sociais, religiosas, políticas ou filosóficas.
A filosofia é falha!
E é falha justamente por ser padronizada como a “ciência conjunta”, a “ciência das ciências”, e pelo fato de sermos seres distintos por natureza.
Portanto lhes digo, mesmo que de forma ousada e pretensiosa, que a "ciência das ciências” simplesmente não existe (não em nosso grau de compreensão).
E sinceramente não sei se algum dia ela nos vai existir.
Um menino de cinco anos tem sua filosofia; o general sanguinário a sua; o monge budista a sua; tal como um suicida; um benfeitor; um assassino; ou um nômade guerreiro em busca de uma glória inexorável.
A beleza jamais poderá ser vista por aqueles que não sentem dor, e que dela não saibam extrair seu sopro de divindade. Um sopro sábio e mudo, que canta em nossos ouvidos numa língua estranha, embora coesa, da qual pouco conhecemos.
Irônico? Sem dúvida!
Mas saibam que a própria ironia tem se mostrado uma ciência de sabedoria divina!
E é por isso tudo que penso em meus irmãos, Beto e Márcia, sem procurar julgá-los; sem criticar-lhes ou repudiar-lhes por qualquer característica psicológica ou cultural que tenham decidido assumir (ou mesmo com as quais já tenham vivido desde a data de seus nascimentos).
Beto é o que é pela sua essência, e não pelo que usa, ou pelo que ouve.
Beto é o que é, pelo que busca em sua vida. Por como enxerga e vive a mesma.
Beto é o que é, pelo que é!
Asfaltos multi-direcionais, caminhos longínquos.Singulares decisões. Pseudos-maniqueísmos que atravancam as visões daqueles que os vêem.Capítulo 4 –
BAILE DE MÁSCARAS
É por este e tantos outros motivos que eu, dentro deste baile de máscaras que resolvi entrar hoje, tenho dançado tão pouco e observado em demasia. Justamente por encontrar muitos Betos; e Márcias; e Pedros; e até mesmo Joãos e Marias, que, com suas singulares distorções, mostram-se como as tantas personalidades deste mundo podre e, ao mesmo tempo, belíssimo. Personalidades implícitas ou explícitas que jazem sobre as camas de nossos egos, no grande aposento de nosso ser. Algumas delas acordadas e efusivamente ativas; outras em sono profundo.
Márcia está vestida de princesa.
Beto, como sempre, de motoqueiro (um heterônimo um tanto quanto conveniente, que mais funciona autonimamente, para a situação).
De que eu estou vestido?
Não aluguei fantasia!
Nunca fui muito criativo para escolher personagens que se encaixassem aos meus dotes físicos ou psicológicos. Mais ou menos como aquelas pessoas de etnias "não-caucasianas",
lato sensu, que acham "estranho" irem vestidas de
Batman em festas à fantasia,
"por não existirem Batman´s não-caucasianos". De igual modo, não admitindo determinados brinquedos, aos seus filhos, com critérios similares.
Estupidez? Quem sabe?
Ainda bem que grande parte não se incomoda com tanta prescindibilidade.
O mais brilhante de toda esta história sangrenta da falta de alteridade mundial é que os verdadeiros heróis sempre foram aqueles que nunca fizeram questão de ser notados. E não as estúpidas figuras alegóricas e “heróicas” do cinema hollywoodiano.
“Entretenimentos que em nossas faces são esfregados”
Nota:
Hoje entendo aquela idéia que me ficou incerta quando a recebi no princípio de minha adolescência: de que o maior poderio bélico norte-americano (“estadunidense”, como corrigiriam os detalhistas) localiza-se não na capital ou nas cidades militares, econômicas ou tecnológicas, mas sim em Hollywood.
Exato: Hollywood.Os verdadeiros heróis são aqueles que buscam aprender com heróis, e que, por mais que se esforcem, não conseguem se sentir como tais. Heróis verdadeiros, como estes, conheço brancos e negros; índios e orientais.
Basta analisarmos que
Batman, por si só, é o próprio heroísmo branco em vestes negras. É o claro se tornando herói no escuro. Tal como em outras situações admiramos Bruce Lee, Machado de Assis, Einstein e algum real Macunaíma.
É aí que compreendemos que é justamente no oposto, seja ele físico, sexual, intelectual ou emocional, que tendemos a destinar nossa admiração e nossa paixão - na sua forma mais sincera, bruta e pueril.
Águas mornas pouco efeito causam sobre a psique e ego humanos, mas o homem tende, involuntariamente, a se transformar em tudo aquilo que ama, e em tudo aquilo odeia; seja de forma direta ou indireta. Mas esta magia, ironicamente, ninguém vê. Ela simplesmente nos é imperceptível aos olhos.
Talvez seja justamente por isso que admiro Beto. Por ser ele basicamente o outro lado de minha personalidade: aquele que estou pouco acostumado a expressar.
Meu irmão Beto: negro; forte; alto; fugaz; seguro; esplendidamente hilário; e notadamente apaixonado pela vida.
Minha irmã Márcia: branca; cabelos castanhos; olhos redondos e arregalados; bochechas grandes e rosadas; e um simpático e permanente sorriso estampado em seu rosto.
Ela de princesa; ele de motoqueiro “rebelde”!
E eu, apenas com uma máscara de lantejoulas pretas e brilhantes; juntamente com aquele
blazer (preto), que a mim foi emprestado ao entrar nesta festa alegre (e, como disse, "no entanto hipócrita" - ao menos em parte).
Sim, em parte.
Capítulo 5 –
JULGAMENTO
Muitas vezes não observamos o quão próximo está, semanticamente, a
morte do
nascimento; e padronizamos o segundo como uma benção, e a primeira como um feito abominável. Julgamos!
Damos-nos ao luxo da criação de regras inflexíveis, entrando num estado de torpor moral e intelectual intensos (até o momento em que nos fique clara a idéia de que nada obedece regra alguma).
Regras são padrões cíclicos observáveis por aqueles que assim denominam tais padrões.
Exemplificarei:
Se cronometramos o sol por doze horas em um dia qualquer, e, se por uma semana, assim repetirmos o experimento diariamente (calculando então a média de todos esses dias), teremos resultados “suficientes” para postularmos a regra de que
"o dia dura doze horas ...e a noite, outras doze". Certo?
Com o tempo vemos que nossa "regra" (errônea) nos manteve numa paralisia intelectual envergonhável - ao descobrimos que, para determinadas épocas do ano, as durações do dia e da noite não são as mesmas.
Criamos, então, uma "nova regra" para cálculos diferentes em períodos diferentes. E? Envergonhamo-nos novamente ao vermos que, de forma estúpida, nos esquecemos dos importantíssimos fatores
latitude e
longitude.
A vida é assim. Cheia de regras!
Cheia de regras que nos atravancam; que nos engolem como areia movediça!
Evoluímos quando as quebramos!
Quando as destruímos, nossa visão, conhecimento e poder, aumentam de forma assustadora! Portanto, não utilizemos a ferro e fogo a inflexível regra do "julgamento humano".
Desenrosquemo-nos deste instinto do pré-julgamento que tanto nos cresce ao corpo, como a hera ao muro.
Não classifiquemos distintamente: o menino de cinco anos; o general sanguinário; o monge budista; o suicida; o benfeitor; o assassino; ou o nômade guerreiro.
Quando por questões cíveis ou sociais formos obrigados a "julgar" um homem, que não o façamos pelos seus atos, mas por suas razões. E que, assim sendo, tentemos adentrar à sua
realidade, para chegarmos "mais perto" dos sentimentos que teve, ao realizar a
julgada ação.
Nenhum homem é inteiramente
bom e nenhum homem é inteiramente
mau.
Já vos disseram isto, não é mesmo? Pois aqui vos repito.
A
bondade e a
maldade são conceitos vinculados às realidades daqueles que precisam destes conceitos para transmitir suas ideologias.
Como diria o filósofo hindu, Kautilya, no século 3 a.C.:
“Não se deve ser direto demais.
Veja a floresta.
As árvores retas são cortadas,
as retorcidas permanecem de pé”.
Todos temos imperfeições; todos temos alguns galhos retorcidos.
“Singulares Torções”.
Isto molda nossa singularidade.
Aqueles que disserem que não têm imperfeições, eis, agora mesmo, duas delas:
A cegueira, e a falsa auto-definição!
E quem aqui pode nos dizer quem é
bom ou
mau?
Santo Agostinho diria que a maldade nada mais é que a ausência da bondade.
E o que concluímos quanto a isto?
Não sei. Cada um conclua o que
julgar melhor concluir.
Acredito que talvez esta regra desenvolva lógica similar à teoria da relatividade do físico alemão. Mas isso dependerá muito de quem a interpreta.
Capítulo 6 –
HIPERALGIA
Sinto uma pequena indisposição. Já deve estar na hora de eu tomar o meu calmante. Tomo-o!
Tomo obrigado, mas tomo-o, porque sei que alivia a dor que sinto em minha carne.
Sim, é hilário, mas eles fazem questão de me dizer que estou doente. Estou perfeitamente saudável! Faço atividades físicas, leio, minha vista está ótima, meu coração forte como o de um búfalo, e minha disposição renovada como nunca.
Pois que falem! Percam seus tempos!
Médicos estúpidos! Acham que sabem mais que o próprio paciente. Poucos são aqueles médicos que nos ouvem mais do que a si próprios; e se me ouvissem saberiam que minha doença é apenas não conseguir transformar o mundo pela utopia de meus sonhos.
Devo admitir que esta festa não é tão hipócrita como outrora eu a tivesse criticado.
As pessoas sim - talvez até sejam hipócritas - mas a festa como um todo se mostra como o laboratório adulto das essencialidades gerais humanas.
Estamos nesta festa justamente para cumprirmos a missão que se inicia com a percepção de que alguma missão existe. E o que seria esta falsa devoção nas pessoas senão a vista pelos meus próprios olhos?
Hipócrita?
Sim! Inclusive eu!
Talvez eu seja até o mais hipócrita de todos (porque os julgo, jantando em suas mesas e usando suas fantasias).
Hipócrita sou eu, que me escondo atrás desta estúpida e sacra máscara de lantejoulas misteriosas, mas que dia e noite divago invadindo, com minha mente, cada objeto, situação, pessoa ou sentimento.
Hipócrita sou eu, que venho com máximas e prudências e teóricas lições de vida, mas que deixei meus pensamentos escaparem para a mente estúpida de algum falso escritor que me rouba as idéias e suga meu íntimo (somente por passar algumas noites em claro e não ter encontrado mais nada o que fazer).
Muito conveniente este escape!
Falo de
heróis e de que os
verdadeiros nunca são notados, mas estou aqui, nesta festa estúpida, tentando de alguma forma ser notado. Mesmo que na loucura de conversar comigo mesmo. Mesmo que na loucura de ser notado pelo silêncio sábio e mudo que julgo - erroneamente - serem estas, características um tanto quanto nobres:
"- Louco!"Foi o que Marcelo, meu colega de quarto, falou quando tentei me expressar quebrando a vidraça com os pés de uma cadeira de inox, daquelas dobráveis.
Sim, desequilibrado no momento, mas
louco?
Creio que não.
As pessoas não sabem admirar ou compreender uma expressão humana se esta não lhes proporcionar algum tipo de prazer. E assistir a uma vidraça sendo quebrada não trazia prazer a Marcelo, que era pacífico.
O Caveira sim, este caiu na gargalhada, e tiveram que segurá-lo para que não gostasse da idéia a ponto de me ajudar a quebrar outras janelas.
Pudera que eu tivesse quebrado aquele vidro, e quebraria-o novamente se estivesse outra vez naquela situação.
Como querer que um homem seja pacífico ao ver seu cão sendo propositalmente atropelado?
(Atropelado - diga-se - em cima da calçada...)
Querer ditar como devem fluir os sentimentos alheios em condições adversas é simplesmente querer se compreender mais que o impossível.
E é justamente nessas horas que temos que deixar fluir em nosso sangue o sopro do instinto humano que sempre nos vai pertencer: o instinto humano de sermos animais!
Portanto, não me julguem por assassinato se eu tivesse matado aquele motorista.
Vingança?
Auto-defesa?
Orgulho?
Paixão?
Instinto?
Chamem do que quiserem!
Mas era o que teria acontecido se eu tivesse colocado as mãos naquele canalha, porque tenho o lobo em meu coração; que acorda facilmente quando assim me encontro em situações deste tipo.
Porém, devemos buscar o equilíbrio e não deixar que o desequilíbrio afete nossa razão.
Pense com a cabeça e com o coração ao mesmo tempo, porque a morte evolutiva se encontra justamente na superioridade de um destes itens em relação ao outro.
E jamais se esqueçam que, embora detentores da razão, seremos eternamente
animais.
Não és, e nem serás, somente humano; e não és e nem serás somente animal. Mas os dois, numa existência mútua e magnífica em busca da imortalidade.
A diferença do animal para o homem está justamente no fato de que o último tem a indestrutível necessidade de se expressar como ser único e individual, e o animal - embora viva - não é artístico.
Capítulo 7 –
HOMENS HONESTOS
Certa vez disse o Conde Victor Lustig (1890-1947):
“Tudo perde a graça se não tenho um otário em perspectiva. A vida parece vazia e deprimente. Não consigo compreender os homens honestos. Vivem sem esperanças, cheios de tédio.”Interessante, não? E não é que o Conde tinha certa razão em alguns pontos do que dizia?
Homens honestos são como as folhas que caem com o vento na transição do outono para o inverno. Manter a integridade é uma das mais difíceis lições que um homem pode ousar assumir. Poucos chegam ao final.
A neve é branca, porém árdua; e queima impiedosamente as nervuras das folhas finas e frágeis.
As folhas morrem! E os galhos ficam vazios; e ao fundo se vê as belas montanhas cobertas de neve. Porém, mais frágeis que as folhas finas, e que o vento também levou para longe, são as flores, que ainda em fase embrionária, hospedam-se numa camada segura do solo; aguardando que os astros se alinhem novamente a um momento propício do florescer.
Capítulo 8 – A FESTA
Levanto-me. Findo o jantar, todos se colocam a dançar alegremente. Música, festa, e muita fartura. Creio que mais de cem garçons tenham sido contratados para a prestação de serviços nesta festa de hoje (sem considerar os empregados regulares da mansão).
Todos sempre servindo, aos convidados: champanhe; vinho;
whiskies doze anos artesanais; coquetéis azuis; verdes;
carpaccio; o sashimi da Márcia; salgados de massas refinadas; doces exóticos; tortas geladas cobertas com calda de chocolate; fios de ovos; queijos finos;
Camembert;
Cotê de Nuits;
Porto;
Tokaji; presunto cru tipo parma; manjares; dentre centenas de outras pequenas regalias do assim chamado
primeiro mundo.
Os mais de dez salões do térreo: perfeitamente decorados com cortinas de veludo vermelho.
Muito cristal e muita prata!
Em todos os salões, dançavam estáticas muitas obras de arte.
No salão em que eu me encontrava acabaram chamando minha atenção: um
Monet pregado à meia altura na parede, e duas estátuas de
Dali (uma em cada lado da tela, simetricamente).
A primeira estátua era uma figura bípede com algumas pequenas gavetas que lhe saiam do corpo; a outra feita de material metálico (lembrava muito
Don Quixote parado em seu cavalo).
Um velho grisalho se aproxima e intencionalmente se esbarra, bem de leve, em meu ombro, de modo a chamar minha atenção para o comentário que iria fazer quanto às obras que eu estava admirando:
- Não vai me dizer que você vê beleza nisso aí, rapaz?
- Sim, estou tentando...
- Tentando coisa alguma. Você tenta é buscar significados aonde eles não existem.
- Sim, mas isso não se chama “arte”?
- Nas situações medíocres, sim, de fato.
- E quais são as
situações medíocres?
- Fazer o que você está fazendo.
- Estou sendo medíocre? Tentando entender
arte? Isso é uma situação
medíocre?
- Mais do que você imagina.
- E por que?
- Por que você acha que buscar genialidade em tolos é algo acima do medíocre?
- E o senhor acha que Dali, e Monet, e, por exemplo, Da Vinci, são todos tolos?
- Não tenho a menor dúvida quanto a isto!
- Não entendo o senhor.
- Eu sei.
- Se sabe, por que ainda busca a obscuridade?
- Boa pergunta. Talvez eu não enxergue o quanto você não enxerga das coisas que penso, e acabo não moldando minha linguagem para se adequar à sua.
- Certo, e por que o senhor acha os gênios tolos?
- Porque são iguais a nós, e somos todos tolos. O problema é que eles não sabem que são iguais a nós, não acreditam nisso. Em seus mundos, apenas desenvolveram, na intelectualidade, o que muitos de nós desenvolvemos no orgulho, na vaidade, bondade, sensibilidade, frieza, talento, força, agilidade, amor, paranormalidade, devoção, fé, perseverança,... só que o
quantum de poder, entretanto, é o mesmo para todas as almas, que somente se expressam e evoluem de formas distintas.
- É, parece coerente. Mas isso tudo é ...“tolice”?
- Sim!
- E o que não é tolice?
- Nossas verdades. As que construímos para nós mesmos.
- E por que?
- Porque por mais que elas sejam falhas, sempre aprendemos com elas. Veja você, meu rapaz, eu sou um velho de noventa e nove anos de idade, fumo um cigarro todas as manhãs quando acordo; como três fatias de bacon no café da manhã. Às dez da manhã volto a comer, sabe o que? Bacon! No almoço? Como bacon com a comida que minha mulher me prepara. E à noite ainda tomo vinho. E simplesmente não dou a mínima pro que os especialistas dizem.
- O senhor é saudável.
- Pois é! Sou mesmo. E a cada ano vejo os especialistas morrerem levando consigo suas idéias.
- Certo, mas qual é a moral desta história?
-
Moral? Como assim?
- Qual a razão de o senhor estar me contando esta história?
- Nenhuma, oras. Estou contando simplesmente porque eu gosto dela. Oras...
- Só porque
gosta?
- É. Conto as histórias quando gosto de lembrá-las; só.
Parecia-me um senhor realmente saudável, que inclusive aparentava não mais que setenta anos de idade. Tinha sempre
todas as respostas
- quaisquer que fossem -
durante os vinte e tantos minutos que ficamos conversando. De fato, tinha
todas as respostas; fossem suas respostas diretas ou subjetivas; fossem elas
coerentes ou
estúpidas, ao meu julgamento.
Ao menos eu podia ver que aquele velho me vencia em
segurança e
certeza.
Por mais que fosse
incerto e
subjetivo nas proposições da vida, ele tinha
certeza das coisas de que falava. Diferentemente de mim, ele tinha certeza absoluta quanto às suas verdades e convicções. E isto lhe garantia tamanho poder interior que me fazia, de alguma forma, admirar-lhe. Cheguei a pensar que com toda aquela cultura e inteligência ele até teria todo o
direito de ser intransigente e egoísta (ao menos pelos princípios mundanos). Mas como que por um delgado liame emocional, cheguei também a pensar que talvez ele não chegasse a ser
egoísta, tampouco
intransigente. Tive a impressão de que também sabia ouvir minhas idéias, e de que vez ou outra até chegava a concordar comigo:
- Pai, quem é o homem com quem o senhor está conversando, não vai nos apresentar?Interrompia-nos, elegantemente, uma belíssima mulher, segurando uma máscara de lantejoulas azuis, similar à minha (tinha aproximadamente uns vinte anos de idade).
Ruiva, cabelos escuros, fortes e curtos.
Olhos levemente puxados e extremamente azuis; olhar penetrante como se precisasse olhar pouco para ver muito (olhos notadamente herdados do pai).
Corpo magro e pele branca como as nuvens. Lábios tímidos, apesar de carnudos e docemente avermelhados (confesso que extremamente sedutores...)
- Seu nome é Pedro,
Astrid! E é extremamente simpático e prudente. Pode levá-lo!
A moça me concedeu um sorriso notável que demonstrou grande simpatia através das pequenas curvas do cantos dos olhos. Parecia-me interessante como o pai.
"Astrid"?
Um nome alemão!?
Inacreditável! O
Conde de Braunau!
Estou há meia hora conversando com o ilustre Conde de Braunau (o dono desta mansão), e agora que me dera conta disso. Discutira esportivamente com o homem, argumentara sobre as essencialidades da vida com o inteligentíssimo diplomata, e havia tratado-o como um idoso respeitável,
porém comum! Astrid tomou-me em seus braços, como uma dama a conduzir formalmente um convidado num baile de gala.
“Pode levá-lo”?
Como assim?
O que ele quis dizer com “pode levá-lo”?
Para onde estaria sendo levado por aquela bela moça?
Para fora? No mínimo! Depois de ter argumentado contra a inteligência daquele homem era só a porta da rua que me podia estar esperando mesmo:
- Relaxe, Pedro. Meu pai gostou de você.
- Gostou? Que bom, ...Astrid. Também gostei de seu pai. Pareceu-me muito inteligente e seguro.
- Pedro, o que vou te mostrar agora só você pode saber. Não conte nem mesmo à família, esposa, ou futuros filhos. Vem...
Astrid e eu seguimos em direção às gigantescas escadarias centrais, por onde começamos a subir sem sermos incomodados pelos seguranças que vigiavam o local.
Sobre cada degrau da escadaria, descansava um enorme tapete vermelho, bordado por duas linhas de minúsculos hexágonos dourados; linhas paralelas, e cuidadosamente bordadas nas extremidades.
Quando Astrid me flagrava fitando-a, devolvia-me um doce e tímido sorriso, como que em resposta imprudente à minha gentileza involuntária.
Já no segundo e último andar dobramos a esquerda e passamos por dezesseis portas antes de entrarmos num mini-escritório rústico e antigo.
Tratava-se de um lugar sombrio: uma lareira próxima à janela; uma pequena escrivaninha de mogno, e uma toalha preta pendurada por um gancho de aço na parede de pedra.
Astrid entrou; me puxou pela mão; trancou a porta; e me surpreendeu com o melhor e mais longo beijo que já recebi em toda minha vida. Atônito e extasiado, evidentemente que beijei-a também. Vagarosamente fomos nos abraçando; depois de uns cinco minutos de intimidade, senti um leve e superficial corte feito por ela em meu tríceps, com um finíssimo punhal que saía de uma caneta.
Assustei-me e, por um instante, pensei em me defender; mas, ao perceber minha surpresa, ela me tomou em seus braços e disse:
- Não se preocupe, Pedro. Sei exatamente o que estou fazendo. Você é privilegiado de estar aqui, e agradeça isso a meu pai.
Astrid coletou em um tubo metálico uma porção do sangue que fluía quente e úmido através do corte feito em meu braço. Eu, inconscientemente, senti-me seguro como se confiasse no conhecimento de um médico antes de uma cirurgia. Nada fiz; deixei-a fazer seu trabalho.
Enquanto o sangue doce e triste saía de meu braço, ela me fitava com um olhar que jamais conseguirei descrever. Não conseguirei jamais retratar aquele olhar! Mesmo que com palavras, fotos, ou qualquer outro tipo de linguagem humana. Parecia estar me sugando mais com os olhos que com o suave corte que havia feito em minha carne.
Astrid era simplesmente o modelo de mulher que qualquer homem sempre sonhou. Encantadora com a voz e com as poucas, delicadas, e prudentes palavras que pronunciava por seus lábios invisíveis.
Ao encher o tubo, Astrid suavemente conteve o sangramento com seus lábios doces, de onde tirou mais uma pequena parte de minha rubra essência corporal para si.
Achei estranho mas novamente não disse nada, pois me sentia seguro com alguém que parecia conhecer mais meu corpo do que eu mesmo o conhecia.
Astrid fez um fino curativo com a toalha que estava pendurada na parede. Vestiu de volta meu braço com a manga da camisa, e, novamente com seu sorriso indescritível, disse mais com os olhos que com a palavra:
- "Vamos!"
Eu, então, imediatamente a interrompi:
- Astrid!
- O que foi?
- Seu pai pede que você faça isso com todos aqueles que julga serem
interessantes?
- Sim, devo fazer a coleta do sangue para meu pai.
- Refiro-me a tudo.
Astrid sorriu, e puxou-me pela mão em direção a uma enorme porta preta que dormia ereta e estática no fim do longo corredor.
Capítulo 9 –
A PORTA E A INFÂNCIA
Conforme nos aproximávamos, aquela porta preta me fazia lembrar da indústria de processamento de azeite na qual trabalhava meu pai (a porta era parecida com a porta de seu chefe). Enorme porta escura que eu, quando pequeno, tinha medo de chegar perto, por ouvir rumores de que o chefe era bravo.
Meu pai era gerente de produção, e tinha uma saleta particular na qual eu ficava quieto brincando de desenhar, e de digitar textos em sua velha máquina de escrever.
Em determinada ocasião, perguntei-lhe quantas estrelas havia no céu.
Ele me disse que era um número tão grande, que não podíamos - com a nossa matemática - colocar no papel. Mas disse que, a olho nu - ou seja - aquelas que podíamos enxergar daqui da terra, estavam aproximadamente na faixa de seis a sete mil estrelas.
Fiquei intrigado!
Como podia ele saber esse número?
Havia tirado uma noite para, “a olho nu”, contá-las pessoalmente?
Como podia ter tanta certeza daquele número estimado?
Meu pai era um homem extremamente culto. Lembro-me que todas as vezes que eu não conseguia dormir, e ia ao seu quarto buscar histórias, lá estava ele lendo algum livro e trocando idéias do mesmo com minha mãe. Ele lia umas duas horas por noite, e sempre me contava dos livros que tinha gostado.
- Filho, papai terminou de ler um livro muito bom ontem, que você vai ler quando crescer. Falava um pouco dos mistérios do coração do ser humano. Foi escrito por uma escritora brasileira, quando tinha apenas dezessete anos.E pronto! Eu ficava extasiado com o que poderia conter aquele livro a ponto de ter feito meu pai comentá-lo. Meu pai lia muitos livros, mas poucos eram aqueles que faziam-no vir e comentar comigo algo sobre.
Lembro-me também que outra vez perguntei à mamãe por que Jesus Cristo havia sido morto, uma vez que era bom! E ela me respondeu que havia morrido por nós.
Eu de forma alguma compreendi esta razão. Perguntei a ela de que adiantava sermos bons se, com isso, acabávamos morrendo no final!? Ela me disse que cada um poderia com certeza se responder esta pergunta em algum momento de nossas vidas; seja em seu começo, meio ou fim.
Recordo-me que em seguida, por uns três dias, tive a brilhante idéia de ser mau.
Claro! Haveria idéia melhor?
Eu poderia ser mau e, desta forma, ser aquele que mata e não o que morre. Aquele que fere, sem ser ferido. Aquele que enxerga as lágrimas nos olhos alheios, sentindo a dor lhes fazer sucumbir lentamente. Desta forma, eu, sendo mau em aparência, apunhalaria os maus pelas costas, e salvaria Jesus e todos os bons.
Sim, a idéia era brilhante! Mas não muito promissora. Era difícil
"ser mau",
"não sendo mau". E logo abandonei a idéia, falhando desde a fase de seu planejamento.
Achei que era difícil ser tão mau o quanto eu precisaria ser, para assumir tão pretensiosa missão entre os maus. E eu não era tão mau assim. Só um pouco.
Entendem?
Meu pai também me disse uma vez:
- Filhão, sabia que na Índia as pessoas consideram as vacas tão importantes quanto um ser humano?- Nossa pai, tanto assim?- Isso mesmo! Lá, a vaca é religiosamente respeitada como nós humanos.- Mas e se eu matar uma vaca na Índia?- Nem pense nisso. Porque neste caso você seria abominado em todos os lugares por lá.- O que é “abominado”, pai?- É quando não somos queridos. Quando as pessoas não suportam nossa presença.- E como é que eles fazem churrasco por lá, pai? Carne é tão bom.- Fazem com outros animais, menos com a vaca!- E por que tudo isso, o que é que a vaca tem de especial?- Na Índia, a vaca é considerada uma encarnação do espírito do homem. Portanto, judiar de uma vaca por lá, é como judiar de um ser humano.- Nossa pai, que estranho!
- Pois é, filho. Estranho para nós que não vivemos naquela região. Mas comum para eles e para a sua cultura. Tal como os judeus não comem carne de porco, lembra?- Lembro sim.
Capítulo 10 –
A ORDEM
Balancei a cabeça para fugir de minhas recordações e retornar à realidade. Conforme eu e Astrid chegávamos à grande porta preta, voltei a ansiar pela misteriosa situação, que se aproximava tensa e vagarosamente.
Entramos num salão enorme! Ligeiramente escuro.
Era iluminado por velas brancas e muitas lamparinas velhas e fracas. Também lá, muitos tecidos de veludo vermelho nas paredes largas e escuras. Alguns brasões e flâmulas de pano trançado pendurados em colunas cilíndricas por cordões dourados. Vários símbolos em dialetos, que a mim eram irreconhecíveis.
Também este salão estava cheio de gente. Obviamente que bem menos cheio, se comparado à festa que acontecia simultaneamente no térreo.
Lá, as pessoas não pareciam estar exatamente festejando; mais pareciam estar numa plena quarta-feira de trabalho. Cerca de metade deste pessoal estranho estava sentada em várias mesas redondas; a outra metade em pé (conversando ou trabalhando). Algumas trabalhavam em bancadas com muitos livros e computadores ligados em rede; outras andavam e levavam caixas metálicas de um lado para outro.
Em verdade, aquele salão me parecia uma grande biblioteca inglesa: com muita madeira escura envernizada, muitas persianas fechadas; e várias fileiras de estantes repletas de livros grandes (novos ou velhos).
No ar? Um certo odor de mofo e um perfume de madeira velha e molhada. Também um cheiro sinistro (e bom, por que não?) de eucalipto envelhecido.
Algumas moças (lindas; diga-se) andavam nuas por dentre as pessoas que lá trabalhavam, e com tamanha naturalidade. Os homens, entretanto, todos vestidos.
O salão era repleto de sub-salas, que mais pareciam mini-laboratórios. Todas trancadas com portas similares àquelas portas grossas e pesadas de frigoríficos.
Astrid me havia mandado tirar a máscara assim que chegamos à porta pelo lado de fora - quando também tirara a sua.
Naquele local, as pessoas davam a impressão de serem impiedosamente inteligentes; organizadamente responsáveis; e disciplinadamente viciadas naquele trabalho estranho.
Era como que um grupo extremamente organizado. Como que um grande escritório-empresa. Uma empresa que, entretanto, tinha alguns símbolos de devoção e idolatria destoantes.
Entretanto, algumas várias estátuas distribuídas ao longo do salão, descaracterizavam um pouco o fator - a princípio - exclusivamente profissional.
Seria uma seita?
Uma sociedade secreta?
Uma religião?
Uma ordem?
Impossível saber! Eu havia acabado de chegar ao local e tudo ainda me parecia vago, estranho e misterioso. A “ordem” toda parecia usar terno preto e gravata. Algumas pessoas, entretanto, usavam roupas brancas.
Beldades masculinas e femininas, com corpos esculturais (talvez até de inteligências variáveis), submetendo-se a múltiplos testes físicos, intelectuais e emocionais. Pareciam extremamente entusiasmados com suas avaliações e resultados; avaliações estas que estavam sendo realizadas diretamente nas mesas e bancadas de madeira escura. Astrid parara para conversar com um homem baixo e gordo, que, conforme a regra, usava terno preto.
Enquanto isso, caminhando pelo salão (que - fui percebendo aos poucos - tinha o formato de uma letra “H”), pude ver algumas divisórias de pano vermelho; como aqueles provadores de roupas, fecháveis com cortinas. Pelos sons humanos que ouvia, tive a ligeira impressão de que lá estariam se entretendo diversos casais em momentos íntimos.
Parei impressionado com o que estava vendo e ouvindo.
Não podia acreditar naquilo tudo!
Festa hipócrita?
Agora com certeza eu poderia dizer que sim! Desde o princípio eu havia percebido que algo não me garantira sinceridade por parte da maioria das pessoas que cantavam e dançavam “tão alegremente”.
Bando de abutres antropófagos!
Escória da humanidade!
Droga! Estou julgando novamente!!
Quem sou eu?
Mas será que realmente sou igual a todos estes vermes? Não sei se chego a ser desta forma!
Às vezes sequer sei se é tão errado, assim, julgar os outros. Afinal, por que abdicar ao pecado do julgamento se, por si só, o ser humano é a própria encarnação do pecado?
Ainda não sei realmente o que acontece, e estou proferindo tudo o que se passa em minha mente. Talvez a visão do novo, sob a forma do medo do desconhecido, também nos faça julgar tão cegamente, como estou fazendo agora.
Mas eu sabia perfeitamente disfarçar que não estava impressionado. Fingia ser forte “o bastante”, e já ter visto coisas muito piores (e, ao fingir tão completamente este “fingimento da dor que deveras sinto”, também é parte de minha natureza).
Repentinamente, o pé descalçado de uma moça de cabelos curtos e loiros, puxou a cortina que fechava seu aposento, o que me permitiu flagrá-la junto ao homem que a acompanhava.
Estavam nus, imagine-se o que a fazer.
Pude claramente ver que havia dois cortes nos bíceps daquele homem, e que a moça se alimentava de seu sangue quente e forte. Alimentava-se daquele ser humano meio que em voluntário torpor de prazer e sabedoria. Aquele homem tinha seus olhos vendados. Era forte, e parecia ser um sangue grosso e nutritivo (que por certo não lhe faria falta alguma; devido à sua força e robustez).
No fundo do mini-dormitório pude ver roupas brancas penduradas em amarras, também de pano.
Interessantíssimo!
Eles não eram da ordem.
Pertenciam ao grupo que usava branco!
Repentinamente, um dos homens de terno preto entrou em minha frente e perguntou secamente como eu havia chegado até lá.
Astrid veio correndo em nossa direção e lhe avisou que estava comigo, tal como a aprovação do conde para com minha pessoa.
O homem se desculpou com Astrid, cumprimentou-me e voltou à mesa na qual estava sentado sozinho a ler um gigantesco livro azul escuro.
Tudo me parecia incerto.
Primeiramente um beijo inesquecível! Em seguida, um corte em meu braço, feito por uma mulher simplesmente irresistível. Depois, a coleta de meu sangue num tubo metálico. Eu? No andar de cima de uma mansão em plena festa cujas escadas eram acirradamente vigiadas por seguranças.
Símbolos e brasões ilegíveis!
Pessoas vestidas de preto, vestidas de branco.
Divisórias, casais nus. Momentos íntimos.
Fêmeas hematófagas.
Um integrante da ordem, ao me ver, incomodado, sentindo seu ambiente aparentemente invadido por desconhecidos (eu, no caso).
Tudo muito obscuro, sem respostas.
Astrid me pediu que ficasse calmo, que tudo aquilo me poderia ser novo e estranho, mas que seria tudo para o bem de nossa história, e para o bem da humanidade.
Pegou em minha mão, chamou-me para sentar num sofá de couro, cor vinho, para que conversássemos seriamente sobre o que se passava.
Não conseguindo contestá-la, fui. E assim que sentamos, antes dela, educadamente exigi – eu mesmo - explicações praquilo tudo.
O que significava aquele salão?
Aquelas pessoas?
Por que tantos livros, e mesas, e “portas de frigoríficos”?
Por que dois uniformes: um preto e um branco?
Por que tantos brasões, e o que significavam?
Por que o coito semi-público?
E ainda por cima regado a sangue?
Seria aquilo nada mais que a podridão em sua plenitude de promiscuidade e luxúria, ou teria algum fundo - de fato – justificadamente nobre?
Outrora meu colega Marcelo ainda dizia que eu é que era o louco por quebrar uma vidraça!
“Louco!”
A ironia é realmente uma ciência divina!
E quem não é louco neste mundo?
Digam-me!
- Pedro, a vida nos parece complexa demais quando temos de enfrentar situações novas e inesperadas. – disse Astrid, interrompendo meus pensamentos.
- “Espera aí!”- pensei – “esta idéia era minha”!
A “visão do novo”!
E Astrid tinha realmente razão. Eu estava pessoalmente comprovando minha própria teoria ao ver que era realmente difícil encarar toda aquela situação com naturalidade.
- Pedro, você tem vinte e cinco anos de idade. Está longe de ser um gênio cerebral (embora tenha sua ilustre genialidade). Está longe de ser um deus grego, mas tem o sorriso mais lindo que eu já vi em toda minha vida. Mas tem uma coisa que buscamos desesperadamente em nossos candidatos aqui!
- O que? Meus pensamentos tolos que divagam incoerentes de um lado para outro?
- Não, bobinho! Não dá mesmo pra ficar séria com você, Pedro. Esqueci também de citar seu senso de humor dentre seus atributos! Mas o que me refiro que você tenha, e que é dificílimo de encontrarmos na maioria das pessoas, é o seu instinto. Todas as pessoas têm, mas poucas sabem usá-lo com prudência. E meu pai detectou uma probabilidade enorme de você desenvolver seu instinto, que, no caso, não chega a estar em seu auge, mas que não está adormecido como nas outras pessoas.
- Eu tenho instinto para quê, para me incorporar a esta seita secreta de vocês? E como uma moça de vinte anos como você sabe tanto de mim, de minha idade e do genérico instinto inerente ao ser humano, nos sendo tal conceito tão obscuro e instável?
- Bom, Pedro, respondendo à sua pergunta, realmente não somos públicos, mas estamos longe de sermos uma seita. Outra coisa: não é nos livros que você vai aprender sobre instinto; sobre a vida; e sobre o comportamento humano. Certa vez em minha infância aprendi com um índio do Xingu, amigo de meu pai, que todas as respostas para as nossas perguntas podiam ser encontradas na natureza. E que, muitas vezes, o homem não encontra suas repostas, porque acredita que elas estejam dentro de si. As respostas estão, de fato, dentro de nós mesmos; mas é quase impossível auto-enxergar-se; é quase impossível a auto-análise bem sucedida. Podemos aprender muito, sobre nós mesmos, ao observarmos nosso amor, nosso ódio, e nossas indiferenças, dentro das outras pessoas; dentro da natureza como um todo. Procure se ver nos outros, e verás toda a verdade!
- Gostei do que disse. Sinto-me até um tanto tolo por parte de minhas convicções.
- Todos somos tolos, não é mesmo? E para sua informação, sou mais velha que você; já passei dos vinte faz tempo.
Esta mulher é mesmo incrível! O pai também aparentava muito menos idade do que tinha. Que família diferente! Que festa em que eu fui me meter! Astrid segurava meus braços com suas mãos brancas e leves. Passava levemente seus dedos como se conversassem com minha pele bruta e cansada. Tudo me parecia mais tranqüilo. Só que as dúvidas ainda me intrigavam. Perguntei:
- Astrid, quem são essas pessoas?
- São especialistas.
- Especialistas? Como assim? Especialistas em quê?
- Buscam as características perfeitas nos seres humanos, e meu pai - além de patrocinar a filial brasileira aqui na cidade de São Paulo - participa da comissão de seleção dos prováveis candidatos. Foi por isso que ele te escolheu, Pedro.
- Então eu sou um “provável candidato”?
- Você está praticamente aprovado, acredite. Meu pai não erra há mais de dez anos.
- Eu tenho o que vocês chamam de “instinto”, é isso?
- Sim, e como!
- E que outras pessoas vocês já encontraram?
- Este projeto já tem dois anos de idade. Nossas duas últimas descobertas foram: em Santiago, o maior talento musical vivo da face da terra (sabe o que fazia o cidadão? Era frentista; quanto desperdício, não é mesmo?); e encontramos, também, na Rússia, uma mulher com as menores probabilidades de desenvolvimento de câncer que jamais encontraram em toda a história da medicina mundial. Seu gene é raríssimo. Nestes últimos doze candidatos, dentre eles este chileno e esta russa que te contei, estamos experimentando uma nova droga que promete um avanço espetacular em nosso projeto!
- Interessante!
- Veja. O “bom humor em pessoa” está logo ali no box número 7; muito bem acompanhado por uma belíssima mulher que descobrimos na Áustria. Uma garota milhares de vezes mais bela e formosa que estas atuais modelos de passarelas.
- E por que ela está com vocês, e não nas passarelas?
- Isso você vai compreender mais pra frente.
- E você, Astrid?
- Eu, o quê?
- É alguma das “perfeições do mundo”?
- Ahahaha, para o meu pai? Várias! Mas qual pai não idolatra seus filhos? Não, Pedro, definitivamente não! Nem cientificamente, nem psicologicamente. Sou uma mulher comum; diferentemente de você, está vendo só? Sou comum, e você não!
- Eu não te acho comum! Jamais encontrei uma mulher que me tivesse tratado da forma com que você me tratou. Sua simpatia é radiante. Você sabe lidar com o ser humano Está longe de ser comum para mim, Astrid.
- É gentileza sua, Pedro, mas obrigada! Agora venha cá que quero te apresentar ao Felix.
Astrid me apresentaria ao diretor do local, Felix Roriz, que me pareceu um tanto entusiasmado com minha presença. Pude notar, contudo, uma discreta preocupação em seu rosto. Felix chamou Astrid, e foram conversar num canto. Pareciam trocar informações consideravelmente importantes. E notei um olhar preocupado em Astrid ao se virar para mim e me fitar cuidadosamente do canto onde estavam.
Próxima a mim, percebi uma jaula pequena com um lobo grande e bravo de pêlo acinzentado. Alguns homens lhe encostavam bastões que davam choque por suas pontas. O lobo sangrava pelos dentes de tanto tentar abocanhar os bastões de aço que lhe tocavam a pele. Nunca vi uma cena tão deplorável como aquela! Subiu-me uma fúria gigantesca que quase me levou a esmurrar o queixo daqueles canalhas. Cada vez mais o lobo sangrava e se debatia de dentro da jaula apertada. Creio que se o soltassem naquele momento, sua fúria seria suficiente para matar todos os homens da sala. Inclusive eu, que nada tinha com a situação. Bom, ainda assim eu não o culparia. Os homens regulavam a voltagem de seus bastões; e cada vez mais as pontas soltavam raios azuis, mais e mais cintilantes. O lobo parecia não agüentar mais tamanha tortura. Não me contive, e dirigi-me ao local:
- Por que vocês não tentam fazer isso comigo, seus covardes?
Um silêncio adentrou o salão por cerca de dez segundos. As pessoas pararam suas leituras e o que mais estivessem fazendo para assistir ao que aconteceria. Felix e Astrid pararam a conversa e ficaram me olhando, impressionados, como se esperassem por alguma reação deste tipo (e de minha parte). Um dos homens que feria o lobo era bem maior do que eu, e muito mais forte. Os outros, do meu tamanho. Isto me colocava notavelmente em desvantagem. Mas... o que fazer?
Nesta situação eu era o lobo; e ele era a mim! Tenho certeza de que se nossas almas estivessem em situações inversas, aquele lobo não hesitaria em me defender. Instintivamente, ele seria a mim. Um dos homens de minha altura quebrou o silêncio com voz agressivamente alta:
- Com quem você pensa que está falando?
Sem hesitar, respondi como que num tiro:
- Com certeza, com alguém não merecedor de estar num grupo onde as pessoas tentam trabalhar com a perfeição!
O homem se surpreendeu; e, atônito, retrucou:
- E o que você sabe de perfeição, ou do que fazemos?
- Sei muito pouco! Mas acredito em minhas regras, e em minhas verdades. E elas dizem que o justo seria soltar o cão e colocá-lo numa arena, juntamente com cada um de vocês. E sem bastões!
É claro, teria argumento melhor do que citar as próprias máximas do Conde de Braunau? Minhas regras! Se optasse por defender a verdade genérica, argumentaríamos por anos. Mas as minhas regras são minhas, e ninguém – senão eu mesmo – poderia contestá-las. O homem parecia saber dos princípios do Conde, e não ousou tornar a me desafiar (claro, muito mais pelas máximas do Conde, do que por minha pessoa fútil, em sua frente):
- E o que você sugere que façamos?
- Quero que não façam mais isso com o animal, se possível. Não mando, apenas peço. Pode ser?
Eu também haveria de ser um pouco cordial, afinal estava me metendo no espaço alheio, e já havia incomodado demais. Astrid me olhava imóvel e angustiada. Como se estivesse torcendo para que eu me saísse bem daquela situação em que me metera:
- Rapaz, chegue perto do cão, por favor!
- Por que?
- Apenas chegue. Não o toque em hipótese alguma, mas chegue perto da grade.
Cheguei perto da jaula e o cão vociferou para mim com tanto ódio, que me fez sentir como um verdadeiro verme humano. Senti-me enojado de pertencer à mesma espécie daqueles homens. O cão chorava e molhava o chão de saliva e sangue, de tanto morder a jaula, na tentativa de me alcançar para me rasgar o corpo com toda sua força. Tudo o que ele queria, era me matar! Tive pena do animal, e nojo de mim. Nojo de nós, humanos. Nojo de existir. Senti vertigem e senti meu sangue doce, apodrecido.
Cheguei ao fétido!
Somos nosso próprio escárnio em determinadas situações! Fiz sons suaves como aqueles que fazemos em forma de assobio para despertar alguma simpatia nos cães, e então ele parou de latir. Cheguei ainda mais perto da grade, e o cão não tentou mais me morder. Fitei-o e senti que ele fazia o mesmo, com seu olhar cansado de tanta dor. O cão não tentou mais me morder (mas não ousei colocar a mão para dentro da jaula e lhe agradar a cabeça). Dirigi-me ao homem com o qual estava discutindo e acusei-os todos de doentes mentais, mostrando como haviam transtornado irremediavelmente aquele cão. Aquele primeiro homem do livro azul - que me cumprimentou no começo - respondeu-me, lá de sua mesa, e com voz branda, que o cão sempre fora assim, desde filhote. Era um cão paranóico (que inclusive matara seis dos oito filhotes referentes à única cria de sua mãe). Desta vez fui eu é que fiquei surpreso e mudo, por falta de palavras e argumentos. Astrid intercedeu em meu lugar. Segurou-me pelo braço e aliviou minha situação me apresentando a todos, falando de minha iniciação na ordem (feita por seu pai). Aproveitou e colocou em minhas mãos um saco plástico que embalava uma calça e camiseta brancas. Não me surpreendi tanto. Um especialista eu sabia que não era. Que mais então eu poderia ser, naquele lugar?
- Não critiques o que não conheces, rapaz. Mas não vou te culpar. Infelizmente as pessoas não gostam do que não entendem. E isto é verdade filosófica incontestável, ainda que tendo em vista sua iniciação feita diretamente pelo Conde. Tudo o que este cão quer é fugir e viver livremente em sua liberdade homicida. E tudo o que nossos experimentos tentam, é compreendê-lo. Mas, no sentido genérico das situações, fica claro que basta alguém se sentir preso para querer fugir. Basta alguém se sentir aleijado para querer andar, basta alguém se sentir morto, para querer viver. Porque isto pertence não só ao animal, como, principalmente, ao homem, ao gênero humano!
- E por que me ensina tantas coisas assim?
- Por que não tenho nada a esconder de ninguém! E tenho muito a ensinar! Li mais de seis destas estantes de livros atrás de você, e conheço as entrelinhas da história mundial mais do que você conhece seu próprio nome!
- É mesmo? Parabéns por sua cultura. Disse-me que não tem nada a me esconder e muito a ensinar? Então me diga, por exemplo, o porquê de os mortos serem idolatrados. E qual a razão de não serem reconhecidos quando ainda estão vivos? Sempre quis me responder esta pergunta.
- São idolatrados porque as pessoas precisam se sentir, de alguma forma, superiores àqueles que estão elogiando. E com a morte, está fixa esta superioridade. A superioridade da vida em relação à morte.
- É! Parece-me bem coerente, o senhor tem mesmo grande lógica!
- E ...vejamos...qual é a capital da Islândia?
- Reykjavik!
- O que fazia Einstein antes de fazer sucesso?
- Trabalhava num laboratório de uma empresa de patentes em Berna, na Suíça. Era um físico de terceira categoria antes de sua primeira publicação sobre as leis que revolucionariam toda a física mundial.
- E perché adesso non mi parla qualcosa di quando Lei era solo un piccolo fanciullo?
- Quando bambino ero molto agitato e mi piaceva molto sciare nei fine-settimana!
- Incrível! Que línguas mais o senhor fala?
- Aprendi alemão, francês, inglês, espanhol e árabe, além do português e do italiano. Até que nem tantas se comparado ao Conde. Ele fala, fluentemente, quinze.
Era incrível o conhecimento daquele homem. E pelo visto o Conde deveria ser um homem de conhecimento ainda maior. Nem quero me lembrar que tão pouco aprendi com toda sua cultura; desperdiçando nosso tempo com minhas tolas argumentações:
- Tenho mais uma pergunta para o senhor!
- Pois que a faça, rapaz. Responderei com prazer.
- Será que me darás mesmo a resposta?
- Pode acreditar!
- Tudo bem, então me diga: onde está enterrada a cabeça de Tiradentes?
Astrid nos interrompeu e me puxou pelo braço, de forma delicada, porém firme:
- Venha Pedro, vou te mostrar como está nosso projeto, você vai se impressionar com nossas conquistas!
As pessoas voltaram aos seus postos. Eu e Astrid fomos diretamente para um pequeno escritório que não estava sendo utilizado. Nele havia um daqueles divãs de psiquiatria. Deitamo-nos juntos em direção à janela e começamos a conversar.
Capítulo 11 –
A SAGA DE ASTRID
Nas névoas das tardes longínquas, e frias, e secas, e tardes.
As cascas das flores que jazem caídas, na areia molhada.
Das praias sofridas, das noites sonhadas.
Garotas correndo, agitadas.
Brincando de casa, brincando de gente, de mundo verdade.
Um dia nublado, as gotas que caem.
Garotos rebeldes, suados, corridos.
Carrinhos caídos, joelhos batidos, brinquedos quebrados.
- Que história é essa, Astrid?
- A minha.
- E por que me conta por poesia?
- Gosta?
- Sim.
- E o que seria nossa vida sem a poesia? De que valem os fatos sem a beleza das criações? De que valem as pessoas pelo seu corpo? De que vale a alma sem a tradução?
- Continue, por favor.
Parques distantes, nus de pecado.
Limpos nas flores, nas dores.
Pássaro alado.
Menina discreta, alegre.
Meninos ousados.
Pureza em essência, corpo intocado.
Convites e cartas, bilhetes em cores, amores.
Perfumes singelos, garotos tão belos, princesa da era.
Convites sinceros, recusas delgadas.
Pureza em essência; pecado distante.
Princípios paternos, maternos, constantes.
Essência na vida; vivida; contemplo este instante.
Não vejo o passado!
Tempos que mudam; nuanças.
O novo no corpo, tão torto; cabelos cortados.
Lembranças crescidas, mudanças nas tranças.
Já não mais criança; cobranças, arbítrio.
Beleza inovada, os lábios mudados, rosados, crescidos.
Um belo garoto, de olhos profundos.
Atroz atitude, sensível.
Discreto sorriso, bem tímido.
Ilustre carinho; princesa tocada; feitiço lançado.
Menino sozinho, cruel bel carinho. Menina sozinha.
Pureza no encontro, amor tão bem pronto; a luz esperada.
Destinos distantes; aguarde este instante, e flui o pecado. Destinos tão prontos; vá ti ao encontro.
Não deixas jamais a luz caminhar, pro céu tão nublado.
Orgulho e vaidade.
Plen’eternidade; amor machucado.
Em tempos perdidos; anos tão sofridos.
Vontades contidas e tão camufladas.
Menino perfeito, já tão rarefeito.
Por obra do acaso...
Jaz puro e molhado, no fundo do lago.
Não deixas de lado, o tão procurado
Por fútil orgulho, por mera vaidade.
E o beijo que deres que sejas naqueles que a luz há tocado.
E o beijo que deres que sejas na hora, no ato, no fogo, no novo;
e nunca na lua, e não no passado.
- Astrid, não sabia que você gostava de poesia! Como consegue? Quem te deu a poesia?
- Conseguir?
- Sim, você recitou isto de cor ou criou agora?
- Pensei nos fatos passados, e criei as formas agora. Ninguém me deu a poesia, Pedro, ela não é “transmissível”. Nem tampouco “manutenível”, se as formas não forem criadas pela vontade.
- Então tudo isso é moldado pela vontade e o esforço?
- Sim, e a vontade é eterna, é básica, é a raiz da árvore da atitude. E na árvore da atitude nascem os galhos da disciplina, perseverança, fé e conhecimento. E isto que eu te falo não é filosofia. É tudo conhecimento que aprendi com meu pai.
- E esta árvore cantada, tem frutos?
- Depende, Pedro. A menos que queiras que a sua seja estéril, e seca, e desacreditada...
- Não, eu quero que ela germine a evolução, obviamente.
- E estás disposto a correr este risco?
- Não sei, Astrid!? Sinceramente não sei! Se for para minha semente dar vida a cães transtornados como aquele que sobrevive no inferno – seja por “culpa” própria, ou não - talvez o mais interessante seja não passar para frente o legado da miséria humana.
- E será que vale à pena não correr este risco, Pedro? O risco de parir anjos ou demônios na busca do desconhecido? Ou a inerte beleza da dinâmica das coisas não lhe desperta mais vontade?
- Difícil saber. Talvez você esteja mesmo certa, talvez não.
- Exato: nada sabemos! E o risco, e a vontade e a atitude são individuais.
- Qual seria sua escolha, Astrid?
- Minha escolha?
- É! O que faria se parisse um demônio? Cortaria-lhe a garganta? Limparia o globo por seleção artificial até que do ventre lhe surgisse o anjo esperado?
- Eis a questão, Pedro. O que seria eu, Astrid, se me viesse um demônio?
- Entendo.
- E o que seria se me viesse um anjo? Deus? Mas de nós mulheres nascem, ano após ano, demônios e anjos que matam e curam; por mal necessário. Nem que eu escreva a Minha Luta às pessoas e teorize sobre as mais eficientes técnicas de evolução da espécie, ainda assim, eu não teria esta resposta, Pedro.
- Astrid, com todo o respeito - e tendo em vista a profunda admiração que já tenho por você e seu pai – mas devo lhes dizer que, vocês dois, juntamente com toda esta ordem em que trabalham, chegam a ser incoerentes no âmago da coisa.
- Por que, Pedro?
- Eu é que pergunto o porquê. Por que o maniqueísmo teológico lhes é perfeitamente aceitável, e não o corporal e o bioquímico? Por que anjos e demônios psíquicos lhes podem sair pelos ventres, e o talento musical vivo da terra é abominado por “desperdício”, pelo mero acaso de ser frentista?
- Continue, Pedro.
- Não culpo vocês, sabe. Mas fiquei intrigado com isso. Talvez a “Sua Luta” não seja, de fato, psíquica, mas é a utopia plena da ordem em que você trabalha, percebe?
- Entendo.
- E fiquei intrigado justamente com o “até onde” vai esse nosso poder. Percebe que ousamos corajosamente lidar com o manutenível, com o real, com o químico, mas tememos negar o “maniqueísmo das almas”? E isto porque, enquanto humanos, nosso cérebro se esqueceu momentaneamente de como pensam as almas.
- É, Pedro! Sua linha de raciocínio até faz sentido.
- Mas fique tranqüila, porque estou até começando a admirar o trabalho de vocês. Estou começando a lhes admirar porque vocês nada mais fazem que buscar o desconhecido com as ferramentas que lhes foram dadas. E absolutamente todos nós abriríamos a caixa de Pandora; e absolutamente todos nós comeríamos maçãs que fossem vermelhas em demasia; mesmo estando sem fome.
Capítulo 12 –
EGOCÊNTRICOS
Duas horas se passaram. Meu relógio de bolso já marca vinte para as duas da manhã. Onde será que estão Beto e Márcia? Desde o jantar que não vejo meus irmãos. Será que estão bem? Ao menos esta noite me está sendo produtiva. Não estou apenas
"andando por entre as pessoas que dançam", como faço em outras festas habituais.
Festas com poucas luzes, feixes de laser vermelho, e verde, e azul;
cortando as pessoas, e as paredes; no brilho e no encanto.
Músicas eletrônicas extremamente simétricas, e de pouca letra, e de poucas idéias.
Filas para comprar cerveja, álcool.
Roupas passadas e sendo estreadas.
Uma dama a me encarar com curiosidade e ardor.
Na quebra de olhares: dispenso-na.
Cruel! Frieza impensada.
Metros adiante? Beldade! Beleza rara. Nobre e escassa!
Olhos de Astrides, corpos de estátuas.
Fito-a, penetro-a em psíquico.
Leio sua mente, seu corpo, seus gostos.
Ouço suas músicas; filmes preferidos.
Sorriso discreto, contente de ser admirada.
Minutos, momentos, tão longos, hesito.
Já não sei o que penso. Descubro seu disco!
E leio seu livro, já tenho as palavras!!
Hesito, preparo...
Já não mais sozinha.
Já tem namorado.
Não, não! Esta não era uma festa como aquelas outras que habitualmente fico a divagar sozinho tentando compreender as pessoas a fundo. Aprendi hoje essencialidades jamais obtidas em festas hipócritas como tantas outras. Nesta sim, eu via, de fato, o que muitos não enxergam, por pura vaidade. Colunas protegeram as ondas que me mandam calar? Será mesmo?
Impressão tenho, às vezes, de que fui completamente bombardeado por idéias alheias; atingido por ondas que inclusive em mim despertaram idéias adormecidas e estáticas.
Estou aqui, com Astrid, deitados os dois no divã de um mini-escritório, a contemplar
sete mil estrelas pela janela. Aqui estamos, falando no podre, no nobre, em anjos-demônios, trocando lembranças, abraços, idéias, teóricas verdades.
Quem é o detentor da verdade?
Não sabemos! Mas pouco me importa. Tenho em meu lado o espelho que amo. Sim, ela me faz sentir bem (como nenhuma outra me fez). E deixo de lado o espelho que odeio, porque embora sempre vá possuí-lo, posso quebrá-lo e moldá-lo. Quem sabe com arte eu não o transforme em algo belo! Quem sabe?
- Astrid!
- O que foi, Pedro?
- Posso lhe perguntar uma coisa?
- Claro, conte-me o que lhe está afligindo.
- Sabia que toda e qualquer ação, desde as mais simplórias atitudes humanas, são todas regidas pelo egoísmo?
-
"Toda"? Ah, Pedro, aí já é demais!
- E por que você acha isso?
- Quer dizer que se eu me
sentar, estou sendo egoísta?
- Sim, sentando você atinge um estado físico de maior conforto. O que mostra notório
ego-ísmo.
- E quer dizer que se eu der um simples pulo para cima, estarei sendo egoísta?
- Sim, você está realizando uma vontade que teve.
- E se eu quebrar aquele lápis ali da mesa, não por vontade minha, mas só pra te contrariar? Vai me dizer que fui egoísta?
- Mais egoísta ainda. Quebrando, você quis me contrariar e triunfar sua opinião nessa nossa argumentação. Está vendo só?
- Então você está sendo egoísta, igualzinho a mim!
- Exatamente, e não estou negando isto! É justamente minha teoria.
- Mas Pedro, ainda não justifica.
- Por que?
- Porque não, oras. E se eu der um prato de comida a uma criança pobre?
- Você – admitindo ou não - estará fazendo uma "boa ação" que fará, no mínimo e inevitavelmente, com que as pessoas lhe vejam como "caridosa". Você, além de estar alimentando a criança, estará alimentando sua auto-imagem e boa reputação.
- É! Isto seria hipocrisia mesmo, concordo neste ponto! Mas e se eu alimentar a criança, e sem que ninguém veja ou fique sabendo?
- A criança estará sabendo! E você alimentou sua auto-imagem com pelo menos uma pessoa.
- E se eu fizer uma doação anônima a um orfanato? Absolutamente ninguém ficará sabendo, exceto eu mesma, é lógico!! Pronto, não fui egoísta!
- Desculpe, mas...exceto
quem, você disse?
- Exceto
eu mesma!
- E tem alguém mais importante para saber dos seus atos, bons ou maus, do que você mesma? Você vai atingir o pleno conforto espiritual interior de ter ajudado alguém. Vai se "sentir bem" por ter "feito o bem". E quem disse que tomar medidas que resultem em se "sentir bem" também não seja uma forma de
egoísmo?
- Você venceu, Pedro. Senão não acabaremos nossas filosofias hoje.
- Hehehe, eu sei, Astrid! Fizeram-me esta pergunta na adolescência, e eu resisti ainda mais do que você para atacar a onipresença do egoísmo. Cheguei até a teorizar sobre a auto-flagelação com a pessoa que me questionou. E esta pessoa me tinha uma resposta para todas as minhas indagações. Hoje eu ainda não ponho minha mão no fogo para atestar a onipresença do egoísmo, isto é, não ouso desconsiderar a hipótese de ela algum dia ser quebrada, mas aprendi a respeitar uma teoria que - a princípio - me pareceu ridícula. Flexibilizei-me. Não no mesmo dia, não na mesma semana, mas refleti, tempos depois, sobre a essência daquela conversa. Paradoxalmente, não sou, até hoje, um seguidor assíduo de tal teoria (parece-me fatalista demais, sei lá), mas aprendi a enxergar que as teorias alheias podem ter sua lógica.
- Você é demais, Pedro!
- Olha só, Astrid. Quantas estrelas cadentes!
...nossa, Astrid!
Que está acontecendo comigo?
Que sono que me deu!
Eu não bebi!
Justo hoje que não bebi estou me sentindo tonto!
Eu não bebi, Astrid, juro!
O que tá acontecendo comigo?
Capítulo 13 –
A NOITE
Quando fluem, plenas e eternas, as nuvens que pairam sobre as noites frias e ternas. Quando a brisa toca, espessa, o espelho d’água morna, e fria, e quente, que corre, tenra e lentamente, em direção às quedas doces e brutas das cascatas. E nas pedras pára, o lobo, que, com seu uivar, seduz o adorno do néctar das flores. É aí, então, que, nas noites claras, os polens voam e polinizam. O pêlo branco e cinza delgado cobre o corpo sábio do instinto que dorme nos seres dos prantos e êxtases.
“Das profundezas clamo por ti, ó Senhor!”
É o que cantam as almas tardias, que esmurram, na fúria, as lâminas frias, e que enchem de ouro as bainhas furadas e sempre vazias.
Não, não! Nem que a mim venha o pólen doce ou a brisa salgada. Nem que os
“fantasmas noctívagos da cova” me clamem com suas sedutoras propostas, que eu conseguirei me afastar desta doce licantropia do meu ser.
Capítulo 14 –
MÉDICOS DE EGOS E DE CORPOS
- Mas, Astrid, o que exatamente vocês planejam fazer comigo?
- Vamos te analisar para mapear tuas características físicas e psicológicas; tudo para que – reversamente – possamos procurar por mais pessoas com tais características. Assim, encontraremos mais “instintos” como você.
- E o que é ser “instinto”, Astrid?
- Seria como ter a aptidão nata de agir conforme os princípios do subconsciente. Mas isso, em algum grau, todos os animais mais evoluídos têm. Em outras palavras, “instinto” é como um impulso biológico espontâneo e aparentemente irracional que tem por objetivo a busca pela imortalidade. Entende, Pedro?
- Sim, mais ou menos.
- Como exemplo, é o caso de certas aves que migram “inteligentemente” numa determinada época do ano para que o inverno não as atinja. Mesmo sem terem real conhecimento geográfico ou meteorológico de seu habitat, elas simplesmente se vão. Ou, como outro exemplo, o instinto de sucção dos mamíferos: algo que, embora ninguém tendo lhes ensinado, simplesmente “sabem”como fazer.
- Entendo.
- E você tem uma capacidade para adentrar a fundo em seu subconsciente milhares de vezes superior à da maioria das pessoas. Com você, buscaremos compreender melhor o instinto humano!
- E como você sabe disso?
- Temos diversos indicativos sanguíneos e psicológicos que apontam tal potencial, Pedro. E algumas experiências com seu corpo podem revolucionar a humanidade.
- Como sabe tanta coisa? Você é médica, Astrid?
- Sou.
- E por que não me disse antes?
- Oras, e você me perguntou?
- Nem precisava.
- Por que?
- Ah, não sei! Bom, mas isso não importa agora.
- Fale, Pedro. Não hesite.
- É que eu não entendo os médicos, Astrid.
- E por que, Pedro?
- Por exemplo, me diga por que é que eu tenho que tomar diariamente um remédio vermelho depois do jantar? Eu não sei para que ele serve; minha saúde é ótima.
- Oras, Pedro, para alguma coisa deve servir, não é? Senão o doutor não o teria receitado, não é mesmo?
- Aí! Está vendo? Todos sempre têm respostas que nunca me respondem o que quero realmente saber. E assim continuo na mesma dúvida e incompreensão de sempre.
- Você toma o remédio porque ele vai lhe fazer bem, Pedro. A qual dos remédios você se refere?
- Não sei, eles não me falam.
- E não tem nada impresso no comprimido?
- Você sabe que eu nunca reparei, Astrid?
- Está vendo só, Pedro? Nem deve ser tão ruim assim tomar seu remédio. Senão você com certeza já teria ao menos tentado reparar nestes detalhes.
- Bom, talvez. Mas e minha irmã, Astrid? Por que ela tem aquela compulsão desenfreada por comida? Que às vezes chega a ser bela e um tanto quanto poética?
- Porque ela gosta de comer, oras, qual o pecado nisso?
- Mas isso rege a vida dela, Astrid. Não me lembro de minha irmã falando sobre filmes, ou livros, ou namorados comigo. Só me vêm à memória comentários culinários, elogios a doces, lembranças de sopas diferentes que ela já tomou. Não me recordo, Astrid, de nenhuma música que ela tenha me dito que gosta ou gostou.
- Entendo.
- E o Beto, então? Com aquele lenço branco à cabeça, pulando e gritando? ...meu irmão é feliz, Astrid! Pode ter certeza disto! Aquele lá está rindo o tempo todo! Sempre ouvindo suas músicas altas. Chega até a ficar surdo. Às vezes até gritamos com ele, porque aos poucos ele ensurdeceu de tanto ficar feliz. E acho que inclusive meu irmão deva ser culto. Isso mesmo, “culto”! Ele me fala sempre de músicas e músicos diferentes. Só não conheço nenhuma música de um tal de
Munière que ele cita freqüentemente. Mas paciência, Astrid! Ele entende de músicas mais do que eu. Também não vou querer a pretensão de abraçar o mundo da sabedoria.
- Pelo visto você adora seus irmãos, não é, Pedro?
- Claro! São tudo o que tenho. Além de você - que estou tendo agora, é claro - é com eles que converso mais. Mas também tenho meus grandes amigos Marcelo e Caveira (embora não cheguem a ser como Beto e Márcia).
- Onde você morava, Pedro?
- Eu?
- Na melhor casa do mundo! Simples, porém bela. Bela porque tinha uma vista incrível! Você já está convidada a tomar café da manhã na sacada lá de casa. Garanto que não vai esquecer.
- Obrigada, Pedro! Muita gentileza, a sua. Irei sim, com certeza!
- Adoro nosso jardim também! Assim que acordo vou sempre tomar uma brisa por lá para ler o jornal.
- Nossa, Pedro! Vejo que temos várias coisas em comum, hein? Também leio o jornal no jardim de casa.
- Pois é, Astrid! Saiba você que fazemos a melhor coisa! A natureza é plena! Tenho percebido isto!
- Com certeza!
- Astrid!
- O que?
- Está vendo aquela fonte lá fora?
- Estou, que tem?
- Sabe o que ela me lembrou agora?
- O que?
- A minha essência, a essência definitiva do homem!
Capítulo 15 –
AS ESSENCIALIDADES
HUMANAS
(Segunda Parte)
- Como assim, Pedro?
- Eu te conto! Certa vez, por volta dos meus dez anos de idade, estava eu a andar com minha família por uma praia deserta e cheia de pedras. Sozinho, resolvi cavar um buraco enorme na areia; o maior que conseguisse. A princípio, a areia branca era fina e solta como talco. Cavouquei, tirando várias mãos de areia, jogando-nas para traz de meu corpo. Em seguida, encontrei uma camada de areia mais dura e espessa que a primeira. Vi que abaixo daquela “areia-taco” se encontrava uma areia muito mais densa; com os grãos extremamente unidos entre si. Chegavam-me inclusive a ferir as pontas dos dedos se tentasse separá-los sem algum descanso. Só me foi possível prosseguir a tarefa com o auxílio de um palito de sorvetes que, com sua fina superfície de madeira, rasgava, com facilidade, o segundo lençol rijo e grosso de uma já
“areia-pedra”. Cavouquei, cavouquei, e cavouquei! Depois de uns dez minutos de engenharia em minha obra, pude, outra vez, trabalhar em condições mais viáveis e tranqüilas. Novamente, a areia tendia a ser mais solta e úmida. O “pequeno abismo” invariavelmente ficava mais fundo e com a borda mais larga (conforme a fronteira entre a superfície e o penhasco ia, inevitavelmente, desmoronando). Um pouco de água brotava ao fundo. Continuei com minha obra. Quando cheguei em determinada profundidade, percebi que quanto mais eu queria que o abismo fosse fundo, mais ele se alargava e acabava por jogar areia onde, o que eu queria, era tirá-la. Novamente: cavouquei, cavouquei e cavouquei. Eu queria um abismo fundo, e não largo! (Eu queria!) Depois de certo ponto não havia mais o que fazer, porque eu simplesmente já estava dentro de meu próprio buraco.
- E você lembrou disso por causa da fonte, Pedro?
- Sim, por causa da água da fonte! É como se eu pudesse enxergar agora a água que brotava no buraco de areia; bem como toda a luta que tive pra construir um lago na horizontal, querendo um rio na vertical.
Capítulo 16 –
LOBOS DA ETERNIDADE
- Astrid! Mas me fala uma coisa: esta fonte não estava ali ontem, estava?
- Não, Pedro. Mandamos colocá-la hoje!
- Ficou bonita.
- Você achou?
- Sim, ficou bonita mesmo. Vou poder ler o jornal enquanto ouço o barulho d´água batendo nas pedras.
- Que bom, não é, Pedro?
- Astrid!
- Fala, Pedro. Sou toda ouvidos.
- Sabe o que eu penso às vezes?
- O que?
- Penso se minha experiência não teria dado errado!?
“Falhado” realmente!? E sabe por que? Porque já faz mais de três meses que estamos aqui fazendo várias e várias experiências com meu corpo, e nunca vejo você me trazendo notícias boas ou promissoras. No dia da primeira festa eu via as pessoas de branco, nas bancadas de madeira envernizada, bem entusiasmadas com seus exames, lembra? E até agora você não me trouxe nenhuma “boa notícia”.
...Astrid? Por que você não diz nada?
Estou certo, não estou?
E outra coisa: quando conversamos sobre meu remédio, como você podia ter certeza de que era um
“comprimido”? Fiquei pensando nisto, nestes últimos dias. Seu pai errou depois de dez anos, não é mesmo?
...não fique triste, Astrid. Eu gosto de você, e sei que vocês não tiveram culpa. Ninguém é perfeito, não é? Talvez meu corpo não tenha sido exatamente o esperado pelos especialistas...
Perdoe-me por eu ter pensado mal de sua ordem. Eu sou idêntico a vocês! Com meu voluntariado, também contribuí para tentarmos abrir a "caixa preta dos segredos do homem". Infelizmente, porém, vejo que não foi desta vez...
Sabe Astrid, desculpe se às vezes eu me confundo nas idéias e nas palavras. Desculpe se divago nos assuntos e nas coisas, mas isso faz parte de minha natureza... Às vezes eu misturo as teorias, perco-me na cronologia dos fatos, ou conto as coisas todas na ordem contrária.
Mas no fundo, tudo isso é divertido!
Você está quieta por que, Astrid? Olhe para mim, por favor...
Ainda está triste porque quebrei aquela vidraça? Eu já prometi não fazer mais, e convenci o Caveira a não ser assim também. Você pensa que eu não percebo as coisas, mas eu percebo sim! Percebi rapidinho que não foi uma boa eu ter feito aquilo! Imagine só! Quebrar uma janela pela lembrança do meu cãozinho que morreu atropelado há mais de vinte anos. Eu realmente fui infantil em fazer aquilo, me desculpe.
- Pedro, você sabe que eu te amo, não sabe?
- Eu sei Astrid, mas não chore... Eu também gosto de você! Tem coisas que eu entendo que não cabem à nossa compreensão. No fundo me sinto bem com isso, porque assim nos livramos da culpa, não é mesmo?
O mundo é tão lindo, Astrid!
Eu era feliz e não sabia!
Feliz de entrar nas coisas, nas pessoas.
Nas
“imagens, cores e sons”.
“Louco!!”Hahahahaha, o Marcelo tinha mesmo razão!
Só que louco por uma boa causa, não é mesmo, Astrid?
Eu só não sei por que demorei mais de três meses pra perceber que tenho falado desenfreadamente tudo o que se passa em meus pensamentos. Já não sinto mais vergonha, orgulho, vaidade ou preconceito. Só não compreendo por que demorei tanto tempo para perceber o quão bom é viver num hospício como este (que sequer me parece um hospício de verdade). E sabe por que me é tão
“confortável” este hospício, Astrid? É tão confortável porque ele é especial!
Porque aqui eu aprendi a abdicar ao meu
orgulho!
Porque neste hospício eu tenho
amigos.
Porque neste hospício fiz dois
irmãos.
Um irmão negro, alegre, e ótimo frentista no passado!
E uma adorável irmã gordinha de São Petersburgo!
É tão bom viver aqui porque aqui eu abandonei o pedaço podre do meu coração, e hoje respiro o nobre perfume que brota das coisas mais simples e puras.
Porque neste jardim, aprendi a ver o sol, as nuvens, a grama, e a inerte beleza da dinâmica das coisas.
Porque neste castelo eu conheci você!
Eu inclusive entendo que não possamos nos relacionar.
Pelo fato de você ser médica, e eu paciente.
Portanto, deixo nossos beijos para os pensamentos.
(Você acha que eu não percebi as câmeras?)
É evidente o fato de nossos uniformes serem de cores opostas, mas eu não me importo.
Novamente minha teoria se confirma: de que nossa admiração inconscientemente se orienta aos opostos: seja de forma direta, ou indireta.
Negros com brancos.
Médicos e pacientes.
Tolos ecléticos.
Guerreiros sacerdotes!
Doce pecado!
Loucos e sãos.
E isto é a poesia pura, e nobre, e bela, e eterna, que tenho aprendido justamente com você, nestes últimos meses.
Mas não se preocupe, Astrid, o amor vai muito além disso tudo.
Ó vaidade das vaidades!
Como é bom enxergar pela quarta dimensão, Astrid.
Você deveria experimentar!
Ah, eu quase ia me esquecendo de te contar...
Vou mudar o cardápio destas festas hipócritas que meus colegas têm dado diariamente lá no refeitório. Chega de salmão! Agora vou passar a comer carne de borboletas.
Claro que sim!
Você nunca provou?
Nem comece a me olhar desse jeito!
Deveria experimentar, antes de
julgar com essa cara de nojo banhado a lágrimas.
É uma delícia!
...eu adoro este seu
sorriso, Astrid!
Você deveria sorrir assim mais vezes (é desta maneira que nos aproximamos da quarta dimensão).
Ah, e antes que eu também me esqueça:
Meu coração está fraco, posso sentí-lo cansado e já na luta contra o decrescimento. E assim também posso sentí-lo por perceber que suas visitas têm sido mais constantes e mais longas.
Portanto, se algo me acontecer algum dia destes, não deixe que tirem o rádio do Beto; e me prometa que sempre servirão salmão à Márcia.
- Prometo, Pedro!
- Ela adora! Nem que seja somente umas duas vezes por semana (eu sei que vocês têm dinheiro de sobra para isto). E se ela vez ou outra não acreditar, sirvam-na qualquer coisa; e digam que é salmão das costas chilenas. Assim ela come, e gosta, para não desagradar ao Beto.
- Claro, Pedro!
- Minha Astrid, minha doce Astrid. Muitos são os versos e as histórias que eu poderia ficar por horas e horas cantando a você, e tudo através das mais belíssimas melodias do homem. Mas lembre que ninguém pode viver só das histórias alheias. É importante que você faça sua própria história; toque sua própria música; escreva seu próprio livro; viva seus verdadeiros amores; pinte seus quadros (somos homens, somos artísticos); é importante que crie seus próprios filhos; sinta suas dores com sabedoria e acima de tudo, encontre sua singular essência do existir.
Das minhas, você pode até se esquecer, mas não se esqueça jamais, Astrid, das suas próprias palavras; e das suas próprias regras! Porque elas é que são a mais clara essência do seu ser.
Seja fiel a si própria, e a mais ninguém!
“E o beijo que deres, que sejas naqueles que a luz há tocado. E o beijo que deres que sejas na hora, no ato, no fogo, no novo, e nunca na lua, e não no passado”.Vejo as estrelas! Sete milhares de sóis vivos ou mortos (e elas também me observam estáticas, como no divã da primeira festa, lembra-te?).
- Eu nunca vou me esquecer, Pedro!!
- E sabe qual é a essência disto tudo? A visão do
novo! Porque hoje eu vejo que te amo!
- Eu também te amo, Pedro... me perdoe por tudo, por favor, eu poderia ter evitado tudo isto!!!
- Astrid, minha doce menina dos olhos celestes...
Não chores desta forma.
Choras por quem?
O amor transcende a toda esta loucura!
Não vês que hoje sou eu quem ri com a divina ironia dos maniqueísmos da vida?
Não enxergas que hoje sou eu, o “Príncipe dos Poetas”, a dançar Vivaldi no teatro dos vampiros?
E a recitar Shakespeare de cor?
Você ouve?
Consegue escutar?
Ouve a música que ouço?
Bem ao longe...São violinos!
Consegue ouví-los, Astrid?
Posso sentí-los, de longe,
a chorarem o sereno “Tango Apasionato” astoriano.
Não ouve, não é mesmo?É, eu já esperava por isto também!Mas não se preocupe, Astrid.
No fundo é até bom ser o único
a enxergar o que Dali guarda em suas gavetas!
Sim, eu! O louco!
O tolo!
A cobaia!
Hoje eu sou herói!
Mesmo que morto, mesmo que louco,
mesmo que na mais plena, áurea, e inabalável
doce licantropia do meu ser.
* FIM.