Domingo, Novembro 16, 2008

ÍNDICE DE TEXTOS:


27."O TRONO E O RECALCADO" (Pecado Capital)
26."O AMARELINHO"
25."O SOFÁ"
24."QUANDO FOR"
23."O CÍRCULO MENOR"
22."O NETO DA PUTA" (Pecado Capital)

21."ARANÓIA"
20."NEGRO"
19."JOSÉ E O AMULETO"
18."VERDE PÁTRIA MINHA"
17."TEORIA DA BOLHA" (Pecado Capital)
16."ÁGAPE"
15."ÁGUA"
14."QUATRO-E-NOVE" (Pecado Capital)
13."MEU PAI É..."
12."CONTRAPONTO"
11."O PACTO DO SEU JOSÉ, LÁ DA RUA COSTA RICA"
10."SANATORIUM"
9."O PRINCÍPIO DA SOCIALIDADE"
8."CONSTRUÇÃO"
7."SENHORITA NATIVIDADE" (Pecado Capital)
6."POR QUE ESCOLHI O OSMARZINHO?"
5."E ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE..."
4."PENAS FLUTUANTES"
3."TOLAS PAIXÕES"
2."LÍVIA"
1."ENSAIO: IRMANDADE ANÔNIMA""

"O TRONO E O RECALCADO"

Ali, sentado, no topo do mundo,
Pés no mármore, mãos nos papéis imperiais,
Pensa, administra, decide se aumenta os impostos.
Ali, solene, Êle: o tirano, o escravo e o homem.
(Presos, os três, em um só corpo).
Ali, sedento, Êle, o sem sede,
Hoje, inevitavelmente apaixonado pela própria imagem,
Refletida na água da fonte da juventude:
De cerâmica, elíptica, sob si.
Ali, o então Marechal, sentado e soldado no trono,
Do alto da Babel mais alta,
De dentro de sua Tróia inexpugnável.
Êle, o monarca único, um semi-deus.
Êle, o sem Deus.
Contemplando, em silêncio, a putrefação
De sua obra disforme.
Contemplação do hoje,
Do outrora, e do outrora.
Fósseis de Sísifo.
(Solenidade diária).
Duas batidas na porta.
'- Tem gente!' - responde.
Num suspiro, e sob pressão,
Emite moeda. Regula o mercado.
Elimina a mazelas sociais.
Exporta os passivos ambientais.
Purifica os rios, o território e a nação.
Carimba os papéis imperiais em cerimônia real.
Levanta-se do trono.
Dá descarga.
E sai, solene, sem lavar a mão.



Fernando Furlanetto Galuppo, 15/11/2008.


"[...]
Mais alto o coqueiro,
Maior é o tombo do côco afinal
Todo mundo é igual
Quando a vida termina
Com terra por cima
E na horizontal"
BILLY BLANCO

Quarta-feira, Junho 11, 2008

"O AMARELINHO"

[removido p/ machadiação..]

Quinta-feira, Março 20, 2008

"O SOFÁ"


Era um sofá velho, morto, como um divã em couro cru.
Um sofá quase que “imbecil” - pode-se dizer - adquirido num leilão em hasta pública pela Barbearia Nóbrega, dos douridos anos quarenta, da Avenida Francisco Glicério, em Campinas, São Paulo.

Trocou-se-lhe, segundo a herdeira e atual proprietária, pela quitação de uma dívida de pouca monta, vindo assim ali parar: na sala de espera do local onde a alta sociedade campinense costumava aparar seus bigodes e costeletas sob as lâminas precisas de Seu Estevão.

Ficava lá, no canto, pacato, seja em silêncio ou no ranger de molas, recebendo em sua imbecil insignificância e invisibilidade as mais diversas bundas da cidade de Carlos Gomes.

E como não havia outro ofício àquele sofá senão “especializar-se no espírito das pessoas através de suas nádegas”, é que os anos e décadas foram dando, aos poucos, àquela mobília pacata, a sensibilidade do tato de que goza um cego, passando a ver, aos poucos, a aspereza de seu couro velho e duro psicologicamente transmutada na velutina da pele de um pêssego maduro.

Nunca em território nacional alguém apalpou com tanto deleite (ou pavor, conforme o caso) tantas bundas como aquele sofá!

Apalpou-as, seja como mãos aos seios de "moça namorada", ou seja de punhos cerrados: das bundas mais protuberantemente esculturais, às mais levianas em favor da gravidade!

Das mais masculinas, às mais femininas (ou híbridas). Das mais vaidosas, às mais inexistentes. Das mais dinâmicas e sensuais, às mais recatadas e beatas. Das chilenas, às russas. Das cariocas, às gaúchas. Das monets, às caravaggios.

O que mais dava serenidade e prazer àquele sofá, no entanto, era menos o sabor diário de conjugar em si as carnes das formas mais divinas criadas por Deus (apesar do sacrifício newtoniano das recíprocas) que pincelar em seu próprio imaginário a persona oculta daquelas pessoas que sobre seu ventre de couro cru ingenuamente se sentavam.

É que diferentemente das palavras, dos rostos, e das mãos, as bundas não mentem. E isso, com o tempo, acabou precisamente se tornando a maior especialidade daquele objeto inanimado: secundarizar a lascívia diária de sua juventude inicial para ler corações e mentes àqueles que lhes davam as nádegas.

E assim se viu.

Quando ali se sentava uma mesma moça sempre de vestido "largo-e-longo" e nádegas inexistentes (sendo verossímil esta última característica não necessariamente ser conhecida pelas pessoas do mundo real), o sofá logo se apercebia da tendência de alguns seres humanos de cobrir com roupas suas vergonhas. E isto inobstante o pudor da insegurança se tratar de dissabor oponível a todos: dos feios aos belos; dos magros aos gordos; dos abundados aos "sem-bunda", e inobstante, tampouco, não se tratar de qualquer “novidade” à espécie humana: de Adão e Eva, a John Merrick (o “homem elefante”).

Também lia, lascivo e radiante, a auto-confiança de muitos que, com nádegas existentes e auto-conscientes, quase que não usavam roupas, ou, quando as usavam, eram aquelas tão justas e de tecidos tão finos que não prejudicavam em nada a bela vista de geometria anatômica de quem ao longe as contemplasse.

Já um terceiro tipo de bunda que ali também freqüentava, apesar de muito mais raro, eram os casos de nádegas deliciosamente existentes, apesar de curiosamente cobertas por vestidos e roupas não tão justos, isto é, que só se sabiam “deliciosamente existentes” na visão sensitiva e meta-ocular daquele móvel (desconhecidas, pois, pelas pessoas do mundo real).

Intrigado com tais espécimes de apurada extinção, nestes casos a mobília aguçava o ouvido e procurava prestar atenção às conversas (algo que em regra não fazia com as pessoas comuns) de modo a tentar descobrir se se tratava de nádega ainda não “auto-consciente”, ou, por outro lado, se se tratava de dogma cultural, estético, teológico, “cônjuge ciumento” ou, ainda, e por que não, “admirável pura discrição”!?

Mas, como se disse, com o passar dos anos aquele móvel “imbecil” foi - através da prática, claro, analfabeto que era - principiando-se por ler Freud, Jung, Reich, e aprimorando, sem pressa, através das ciências estatísticas, os critérios de conclusões concupiscentemente primários e superficiais de sua juventude.

Transcendeu ao deleite exclusivamente geométrico!

Passou a ler em braile a sensualidade do 'sentar-se', enquanto verbo.

Passou a sentir o calor das pessoas em sua febre, paixão, prosa ou poesia.

Passou a ler os modos e gestos das pessoas: suas irriquietações, faniquitos e desassossegos.

Pôs-se a estudar o “cruzar de pernas”, e chegou também a reconhecer nas pessoas, com aprumado diagnóstico, até mesmo problemas fisioterápicos pelas das posturas e pela utilização errônea dos encostos.

Como diria Graciliano, o diabo é sábio porque é velho, e não "porque é sábio", e tendo envelhecido aquele sofá, por décadas e décadas, apalpando as nádegas de inúmeras famílias paulistas, inevitável que o tempo tenha também lhe aguçado a sensibilidade de reconhecimento preciso de perfumes e cheiros.
Assim sendo, aguçou-se-lhe o olfato de tal sorte que, daqueles dois amigos sentados que tratavam de se aplicar pilhérias públicas de mau gosto, o sofá acabava sendo o único no local a saber precisamente qual dos dois era o que havia peidado.

Sendo, então, mais que verdade que as bundas não mentem – e que quando hão de falar, falam mesmo - é que aquela mobília foi naturalmente aos poucos perdendo a imbecilidade inicial dos objetos inanimados, e caminhando, com a prática, na direção daquele humanismo quase machadiano, flambado à alegorias de Nelson Rodrigues.

Sobre cada um que lhe sentasse, se porventura àquele móvel também fosse dado “falar”, diz-se, no mundo imaginário dos móveis, que se escandalizaria com a profundidade do que seria possível ouvir de uma simples mobília sobre seu próprio íntimo.

Não haveria, assim, em toda cidade - do Castelo ao Taquaral, do Guanabara ao Cambuí - um só especialista que enxergasse metade do que poderia enxergar aquele assento de couro; e isto porque os especialistas convencionais, todos eles, estudam seus pacientes pelos rostos, pelas palavras ou pelas mãos (mas nunca pelas bundas).

E como se viu, as bundas não mentem.

E “não mentem”, no simbolismo erótico quase antártico deste conto semi-nu, não porque “não mintam”, pois, no mais das vezes, estes belíssimos ornamentos naturais são precisamente a maior teatralidade de um corpo humano, mas porque, na perspectiva de um sofá, são tudo o que, sentadas e confortáveis, ainda assim, as pessoas não mostram.


Fernando Furlanetto Galuppo, 19/03/2008.




"A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalha e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas.
Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta as pessoas e as coisas que não têm voz."
(Ferreira Gullar)

Terça-feira, Janeiro 29, 2008

"QUANDO FOR" (3’52’’)

Fernando Furlanetto Galuppo, Jan/2001.
http://youtube.com/watch?v=-HUo6IIZXjw


C(11-) C9 C(11-) C9 Em9+ Em9 Em Am Am7 D4 D(i2)
Pelos versos que deixei de no Brasil cantar minhas verdades, eis aqui minha ilusão
C(11-) C9 C(11-) C9 Am7
Pelos dias de sol que ainda não sei se voltarão? Saudade! E o melhor ainda?
Bm7 C Em7(i2) Am7
São os que virão me fazer lembrar que a vida é mais que o meu viver
Bm7 C D D4 D(i2)
Sinto a sua voz levar multidões a gritar pelo
G C9 Am7 Bm7 Am7
Amor que existe no cair da lágrima de dor
Em Am7 C D(i2)
De um país que é triste, e que resiste a tudo com humor!
G C9 Am7 Bm7 Am7
Quando for se lembra de cantar que daqui sua alma herdou
Em Am7 C D(i2)
A tal força de sorrir quando tem que enfrentar a dor

C(11-) C9 C(11-) C9 Em9+ Em9 Em Am Am7 D4 D(i2)
Pelos grandes homens que na vida quase nunca são notados, onde está nossa gratidão?
C(11-) C9 C(11-) C9 Am7
Pelas noites sem dormir que estive a sonhar ao céu nublado, a esperança
Bm7 C Em7(i2) Am7
É a solução que me faz sonhar que o mundo vai sobreviver
Bm7 C D D4 D(i2)
Sinto a sua voz nas transformações a cantar
G C9 Am7 Bm7 Am7 Em
Quando for esteja certo que sua lágrima de dor também pertence a
Am7 C D(i2)
Um povo que do frio faz o calor
G C9 Am7 Bm7 Am7
Quando for se lembra de cantar que daqui sua alma herdou
C Am7 Bm7 C7 Cm7 G C9
A tal força de sorrir quando tem que enfrentar a dor


OBS: (i2) = Inversão 2

Domingo, Dezembro 02, 2007


"O CÍRCULO MENOR"

F.F.G., 01/12/2007.

Desde muitos séculos atrás, os italianos costumam dizer que o mundo é tão duro, tão árduo, tão complexo, que todas as pessoas certamente precisarão de algo mais do que os próprios pais para lhes garantir a proteção, o afeto, e os aconselhamentos minimamente necessários à superação dos obstáculos que a vida nos proporciona.

Assim é que os “grávidos”, naquela cultura peninsular, têm vivido até hoje a tradição de se escolher padrinhos para seus filhos. A tradição de se escolher padrinhos se possível antes mesmo do parto (se possível, antes mesmo do nome).

E padrinhos que, mais do que meros dirigentes espirituais (conforme prevê a tradição eclesiástica), exercerão, também, a função de segunda paternidade; ou, paternidade subsidiária (substituta); ou, ainda melhor dizendo, paternidade complementar (se se entender, com este termo, que - além de substituta - haja aí uma paternidade também cotidiana e simultânea à paternidade principal; só que com o segundo pater preferencialmente na condução de tutelas e conselhos diversos dos já exercidos pelos genitores).

Em outras palavras, se um dado genitor dispuser, por exemplo, de “amplo berço espiritual e filosófico”, mas viver “vida modesta e de muito suor e trabalho”, é comum que lhe surja à idéia a viabilidade de se escolher, para padrinho do filho, algum compadre com maior habilidade nos negócios, no comércio, e na economia; e isto para que, no futuro - sem perder os valores familiares - o filho venha gozar vida menos sacrificada e financeiramente mais confortável.

Se por outro lado o genitor felizmente já gozar “vida próspera”, faltando-lhe, entretanto, “cultura filosófica e valores espirituais e artísticos”, é que se diz, com a tradição, não ser raro enxergar a conveniência de se escolher um padrinho literato, e se possível sábio, ao filho que nasce. Assim, quem sabe o filho venha aprender a dar maior importância às coisas simples da vida!?

Isto é, com a tradição do apadrinhamento aqui mencionada, o afilhado dispõe a favor de si de mais um mentor em regime de sagrada lealdade e devoção paternais. Usufrui, portanto, desde o nascimento, do melhor seguro que a vida em sociedade possa lhe proporcionar: um amigo incondicional complementar; elementar altruísta esta, a da incondicionalidade, a qual em verdade - não fosse a utilidade da tradição ora comentada - cada ser humano talvez só pudesse encontrar em no máximo dois outros seres humanos: a própria mãe, e o próprio pai.

Feliz daquele, pois, que além de um pai e mãe, dispõe também de um bom padrinho!

É que a sociedade, esta “grande irmã” do Estado e dos homens, lá, desde os primórdios da tradição italiana do apadrinhamento, pôs-se inevitavelmente a enxergar, com seus olhos furtivos e esguios, não só o surgimento, mas principalmente a evolução do raciocínio aqui apresentado.

Foi, aos poucos, essa tal societas, enxergando a viabilidade do apadrinhamento de duplas, trios, pequenos grupos, pequenos clãs, e, tal como o Estado, na criação de órgãos e estruturas internas de auto-preservação, pôs-se, também ela, de modo informal e discreto, a conectar seres humanos através de barbantes invisivelmente invisíveis.

Assim, com um barbante invisivelmente invisível, Francesca, aos dois de febbraio de 1217, em Pietrasanta, casou-se com Carlo (porque os pais de ambos eram amigos).

Assim, com um barbante invisivelmente invisível, Gianlucca, aos vinte e dois anos de idade, e aos quatorze de luglio de 1513, em Bologna, tomou posse como pretor-magistrado daquela pretoria (e não da de Savona: mais distante de onde habitava seu próprio pai, um pretor-magistrado romano).

Assim, com um barbante invisivelmente invisível, Enrico, que se lograria membro de um círculo político-filantrópico reservado, no outono de 1695, em Torino, teve seu destino guinado a pintor e pensador errante, por ter visto seu irmão gêmeo, poucos anos antes, iniciar-se sacerdote.

Assim, com um barbante invisivelmente invisível, é que surgia a cosa nostra, “a máfia” (do árabe ´mahefil´ - refúgio, abrigo) na sua concepção mais filosófica e legítima do apadrinhamento de grupos em prol da autodefesa contra um ranço de Império Romano absolutamente autoritário e totalmente desprovido dos princípios básicos do devido processo e inquérito legais (posteriormente introduzidos no Direito Penal Global pelo Marquês de Beccaria).

“Máfia” esta que, com o passar dos tempos, da ótica de seu contrapeso, principiou também por macular a integridade de seu próprio princípio autodefensivo, ao vir aos poucos se confundindo com os desígnios individuais de muitos de seus "padrinhos", caporegimes e respectivos barbantes invisíveis individuais. Que o diga, com propriedade, a respeito, embora não mais dirá: Giovanni Falcone.

Assim, com um barbante fabularmente invisível, séculos depois, isto é, já nos tempos de hoje, um ator medíocre conseguiu seu papel num filme de ponta, e um cavalo perdeu sua cabeça.

Pouco a pouco, de século em século, é que se tem visto que aquela sociedade de que falávamos (“a grande irmã” do Estado) continuou a enxergar a viabilidade da invisibilidade dos novelos de lã.

Com isso, também aos poucos, em comunhão com o Estado (seu “grande irmão”), viu nascer gradual e espontaneamente do livre-arbítrio-inventivo dos homens: a concepção lógico-semântica da conveniência de se dividir os bairros em clubes; as cidades em bairros; os estados em cidades; o país em estados; e os italianos (onde quer que estivessem) em nação.

Assim também nasceram as academias de estudo e ciência; as facções político-partidárias; os sindicatos; e assim evoluíram, evidentemente, muitos outros círculos maiores, como os círculos -triangulares das maçonarias; os círculos religiosos em suas múltiplas denominações; os círculos profissionais e entidades de classes; os círculos recreativos e habitacionais (inclusive, na atualidade, o homem subcirculando até mesmo seus bairros em condomínios, e seus condomínios em setores).

Sim, desde muitos séculos atrás, os italianos costumam dizer que o mundo é tão duro, tão árduo, tão complexo, que todas as pessoas certamente precisarão de algo mais do que os próprios pais para lhes garantir a proteção, o afeto, e os aconselhamentos minimamente necessários à superação dos obstáculos que a vida nos proporciona.

E com o passar dos séculos, o homem, quase que seduzido pela magnífica cor da invisibilidade das cordas, não conseguiu deixar de enxergar a conveniência de não só apadrinhar seus rebentos, como também a conveniência de se auto-apadrinharem entre si em inúmeros círculos sociais maiores; círculos estes que hoje a complexidade de nossa “grande irmã” sociedade tanto nos oferta.

Hoje, sobrevivida por milênios, a tradição continua a fazer o filho dentista de Antonio trabalhar com Giacomo, dentista. E o filho advogado de Giacomo trabalhar com Antonio, advogado.

Rende culto, esta nossa humanidade, ao poder da invisibilidade.

Rende culto às linhas simétricas da teia de uma viúva-negra; ou à simbiose da ave que gentilmente visita as costas de um búfalo a lhe remover seus carrapatos.

E, em geral, ao contrário do que possa concluir a pueril análise filosófica do neo-ermitão-urbano-pensante, é, sim, produtiva e benéfica, a grande porcentagem das circunstâncias da opção político-social de se filiar a círculos maiores, pois é na união e na congregação dos homens que, de uma forma ou de outra, a humanidade se administra a si mesma, e, principalmente, é a maneira pela qual o conhecimento humano se alastra, no território e no tempo (o que não se daria através do isolamento contínuo).

O homem é o lobo do homem; o homem é o lobo do lobo; e o lobo e o homem são a coruja do homem.

O homem é um animal social (e o homem é um social zoológico).

Unidos, pois, sempre, para a grande festa!

O único paradoxo da comunhão de muitos destes círculos maiores, entretanto, no que toca à elementar da incondicionalidade, mostra-se quando o pai de Francesca, de Pietrasanta, vê a si mesmo diante das visitas domésticas, por vezes simultâneas, de três de seus maiores compadres (cada qual oriundo de um círculo maior distinto) para lhe proporem núpcias entre os filhos; ou quando Giacomo, o dentista, se vê diante de dois amigos com filhos graduados em ciências odontológicas.

Triste de Giacomo, ou deste pai de Francesca, que em qualquer escolha hão mais de perder do que ganhar. E, assim, como num quatrilho, a construção circular começa a se abalar com a primavera de uns se tornando o outono de outros.

Ora, a política humana de se querer abraçar a muitos tendo só dois braços é como que tocar a ponta do indicador na superfície estática e espelhada de um lago em descanso, e, após alguns segundos, em ponto diverso, tocá-la novamente, e novamente, e novamente; produzindo, assim, inúmeros círculos (maiores e menores) sobre a superfície pacífica e sonâmbula de um espelho d´água, que se põe a dançar um belo tango nas margens do Prata.

O ponto exato e a intensidade do toque, por maior que seja o esforço do artista, jamais serão os mesmos; e, sempre, as ondas dos círculos se encontrarão e se auto-desmancharão (ainda que “lá adiante”, no “meio do lago”, “longe do olhar humano”, mas perto do olhar da Física).

É aí que, após toda uma vida, pouco antes de perder a lucidez-racional e começar a entrar no estado alfa do espírito daquele que espera a passagem, um homem de respeito se vê sentado à varanda, contemplando sereno e em silêncio instrospecto a brincadeira doce e infantil de seus netos, e começando a se lembrar, lá do recôndito de suas memórias, que tantas vezes fora convidado a freqüentar (e freqüentou) inúmeros círculos sociais maiores dos mais respeitáveis na sociedade em que viveu.

Vem à memória deste homem de respeito: os colégios em que estudou e os poucos amigos que de lá colheu. Vêm à memória deste homem de respeito: a academia na qual aprendeu sua profissão (e os poucos amigos que de lá colheu). Vêm à memória deste homem de respeito: os sete ou oito círculos profissionais nos quais trabalhou (e os poucos amigos que de lá colheu). Vêm-lhe à memória, também, os três ou quatro corpos docentes onde lecionou (e os poucos amigos que de lá também colheu). E lhe vêm, também, por fim: os tantos, e tantos, círculos sociais político-filantrópicos, recreativos e habitacionais nos quais, de uma forma ou de outra, se inseriu, seja por pouco ou muito (e os poucos amigos que de lá colheu).

E destes poucos, e poucos, e poucos, e poucos, compadres que de cada círculo extraiu, é que este homem de respeito começa a enxergar, por incrível que possa parecer, alguns cordões também eivados de alguma certa invisibilidade.

Fica certa, pois, a conclusão de que, àquela altura da vida, foi em 'pouquíssimos dos poucos', que conseguiu notar indícios quase invisíveis de intrínseca e verdadeiramente pura incondicionalidade. E que “visível” mesmo, aquele homem de respeito só teria a lembrança de haver encontrado tal elementar, conforme se disse no início: em sua própria mãe e em seu próprio pai!

Perceptível, aí, neste instante da vida, a conclusão de algo que os homens vêm percebendo gradualmente em momentos-chave do decorrer de suas existências: a percepção de que toda esta merda deste “utilitarismo pragmático” de per si dos círculos maiores (no qual acabam inevitavelmente se inserindo os homens de respeito), só lhes proporcionaram circunstâncias findáveis e inquestionavelmente volúveis.

Fotografias alegres e perdidas de personagens inexplicáveis!

Ora, um amigo nos testemunha a infância! Outro, a adolescência! Ainda outro, a formatura! Outros tantos acabam por nos testemunhar momentos, quando muito, “delimitados”, de nossas vidas (tenham sido estes momentos bons ou maus).

Aí vem a percepção de que cada amigo (e cada círculo maior) nos conheceu apenas num certo microcosmo, e nunca em nossa abrangência humana maior.

Irônico, pois, que o melhor dos círculos, isto é, o mais próximo da elementar da incondicionalidade, dentre todos os círculos da superfície de um lago tocado por um indicador, venha a ser justamente o menor!

“Círculo menor”: aquele grupo de humanos, em volta de uma mesa retangular, de rostos para nós tão conhecidos e tão envelhecidos pela constante presença diante de nossos olhos.

Aquele pequeno grupo de humanos socialmente “desimportantes”, que não são padrinhos de massas, nem ocupam qualquer podium de grande monta nacional; mas que almoçam conosco todo domingo, seja sorrindo, em piada ou silêncio (mas conosco) da longa tragicomédia monocromática da vida.

Sagrado círculo menor da famiglia!

Aquele grupo de humanos que nunca apareceram na mídia, mas que entrariam de voadora nas costas de qualquer um que pudesse nos fazer mal. Grupo de humanos que por vezes não nos embriagam de orgulho com algumas particularidades de seus erros humanos, humanos que são, humanos que somos, mas que nos despertam o mais profundo e genuíno orgulho da incondicionalidade que - de tão rara, e de tão nobre afeto - simplesmente não tem preço.

E se engana, ao enxergar equívoco na mera opção literária exclusivamente italiana do presente conto, aquele leitor que, do início, já sentiu discreta ponta de carente abandono por aqui se discorrer acerca da tradição do apadrinhamento na bota mediterrânea, e não na tradição do apadrinhamento sino-nipônico, ibérico, anglo-saxão, ou o afro-oceânico.

A merda do “utilitarismo pragmático de per si” de que se falou, não é, nem nunca foi, privilégio inventivo de determinada nação; mas corre nas veias do humano onde quer que ele se encontre.

Assim, também, a sacralidade do circulo menor da família, único ente despersonalizado da criação do gênio social humano que, mesmo se transmutando com o tempo, testemunha a maior parte de nossas vidas, e compreende a maior parte de cada qual de nossos olhares; de cada qual de nossas cicatrizes e de nossos troféus.

Desde muitos séculos atrás, os italianos costumam dizer que o mundo é tão duro, tão árduo, tão complexo, que todas as pessoas certamente precisarão de algo mais do que os próprios pais para lhes garantir a proteção, o afeto, e os aconselhamentos minimamente necessários à superação dos obstáculos que a vida nos proporciona.

E o maior de todos os padrinhos, apesar da importância de todos os demais, é talvez o de menor estatura. Fica, aqui, por fim, a mera intuição fabularmente invisível de que, já no próximo domingo, cada personagem deste conto (inclusive o contra-regra) passará a tocar o espelho d´água do Prata com maior freqüência, e num magnífico tango de uma nota só.

Terça-feira, Novembro 20, 2007

"O NETO DA PUTA"

F.F.G., 20/11/2007

Muito se dizia entre um determinado grupo de animais que, apesar de suas taciturnidades, um certo flamingo da Mata Atlântica, embora pouco trabalhador, havia ao menos aprendido o cório de uma certa mercancia com a qual trabalhara, na mesma floresta, seu velho pai, um flamingo-mercador.

É que, como das guianas francesas, aqui, logo abaixo, das capitanias coloniais positivistas de Aragão e Castela, também já se fez, além de pomar e outras coisas mais, o escoadouro de inviabilidades jurídicas diversas.

Da avó formosa que dentro de um ovo chegou; do filho flamingo que também aqui nasceu e aprendeu; e do neto flamingo que um tanto de lá e de cá herdou, aqui, nestes rios brasileiros onde os girinos nadam esbeltos e itinerantes, é que se tem praticado, há três vezes três gerações, a mercancia dos flamingos, e dos esquilos, e dos porcos, e dos lobos.

“ - Por que ris, papai?”
– perguntou um filho-esquilo a seu pai, que era joalheiro.
“- Nada não, filho! Bobagens...” - respondeu-lhe surpreso e ainda inevitando o sorriso, o velho artesão-roedor.

É que aquele flamingo da Mata Atlântica (o taciturno anfitrião deste conto) encomendara, com o esquilo-joalheiro, uma abotoadeira em ouro e madrepérola, por conta da ocasião de seu casamento.

Dada a encomenda, o velho esquilo lha aprontou com dedicação e primor, enviando-lha, com presteza, em seis dias, juntamente com a conta (previamente acordada na importância de dois mil e quinhentos reais).

Porém, dois dias após, recebera de volta, o joalheiro-roedor, encomenda, em mãos, do velho conhecido flamingo, abraçada a um bilhete manuscrito por este:

“Belíssima abotoadeira,

estimado esquilo artesão,
mas não me agradou o preço!
Se lhe for justa a quantia
de mil e oitocentos reais
deste envelope, favor
ficar com a mesma, e
retornar o pacote
sem romper o lacre”.

Irritado, o esquilo-artífice-de-pedras não aceitou o valor, pegou de volta seu pacote recusando o envelope, dispensou o mensageiro e, já dentro de casa, ao abrir o pacote lacrado, é que se pôs a rir à presença do filho pequeno, ao nele encontrar não o objeto esculpido com tanto trabalho com suas próprias presas, mas um cheque de dois mil e quinhentos reais, assinado pelo flamingo.

Quem sabe um dia, quando as proles lograrem idade menos taciturna à compreensão da itinerância dos anfíbios e suas gerações, não venha, em algum lugar desta grande floresta, um pai lembrar ao filho que não se esqueça de dedicar ao neto uma porção de suas noites à breve leitura das velhas fábulas de Tolstoi, Esopo ou Jean de La Fountaine.

Sorrisos à parte, o esquilo-pai se pôs então a guardar o pacote com o valor encontrado, colocar seu monóculo de lado, e se dirigir à lareira da toca para, após um longo dia de trabalho, se aquecer um pouco junto de sua família.


Quarta-feira, Outubro 31, 2007

"ARANÓIA"

F.F.G. 31/10/2007.


Enquanto seu filho não saía do computador, “geração-conexão”, um grande tecelão de redes costurava alavras e caracteres em diplomas, ergaminhos, astas, bandeiras e brasões.

Certa vez, no início de sua vida rofissional, teceu para si uma grande rede.

“A grande rede”, conforme a chamava!

Conectou-a a dois ontos estratégicos de sua área de trabalho: uma bela varanda. E nela se deitou ara tecer mais e mais redes, e assim nela começar a construir sua rofissão.

Ocorria que, or vezes, errava, sim, o ofício, na erfuração dos couros e tiras (o que inutilizava suas eças). Tendo, ois, obviamente, de reiniciar a tecelagem em eças novas.

As velhas eças inutilizáveis (semi-grafadas) iam, de certo, ara a lixeira da área de trabalho; e, da lixeira, as semi-inscrições (em couro ou linho) eram, or óbvio, simplesmente "deletadas" (destinadas ao oculto destino de caminhões metálicos incertos que assavam por ali).

E como que aquele tecelão fizesse muitos serviços ara altas famílias da capital aulista, era questão de tempo que tivesse sua lixeira eriodicamente desapropriada na calada das madrugadas or algum liberal terceirizado.

Or fim, dadas as tais investigações à lixeira da área de trabalho daquele dedicado artífice, diga-se (somente cá entre este que vos escreve e o leitor), que se descobriu, dentre muitas outras coisas: uma futura candidatura (com estratégico adiantamento); um caso amoroso que escandalizaria os mais céticos realistas; uma fraude contra credores milionária de essoa ublicamente bem quista; e indícios, que levaram a rovas, sobre inúmeros jovens que se queriam eritos, magistrados, romotores e rocuradores das mais diversas ordens (mas que devido a sabores desconhecidos das bancas, receberam elogiosas recomendações ao segundo setor).

Eis que quando alguns dos relatos acima vieram à gazeta, o velho tecelão, deitado na grande rede de sua área de trabalho, róximo à sua lixeira, com a sábia filosofia de quem já viu de tudo (sentindo ainda não ter visto quase nada), se ôs a olhar intrigado ara o filho conectado, e em seguida ara as róprias tranças em linho. Ara o filho, conectado, e ara as róprias tranças em linho. Ara o filho (conectado), e ara as róprias tranças em linho...


Paranóia – Aquilo que se vê sem se ver;
Que se induz sem se saber.


- Aquilo que ele pinta sem pensar,
Mas que, pensando,
Sem pintar,
você vê.



Sábado, Setembro 29, 2007

"NEGRO"

"NEGRO"
F.F.G., 29/09/2007.

Num espelho que me olha
Vejo ou sinto
Os belos traços de um olhar:
Meus olhos míopes
Meus olhos negros

Meus olhos míopes estão negros
Meus olhos negros estão míopes
Meus olhos míopes estão míopes
São míopes, vão míopes
Mas apesar de míopes, hoje,
Meus olhos negros estão negros

Negros como o petróleo
Negros como o cheiro do gelo
E negros como o acorde menor
Com quinta diminuta, sétima e nona,
Da sinfonia do pecado e do silêncio

Meus olhos estão negros
Negros como o gosto do vento,
Como a curva de um triângulo,
Como o canto da serpente morta
E negros como o canto de um círculo
De vidro, e sem cor

No ontem do amanhã,
Sinto meus olhos tão negros como nunca
Negros como a ônix bruta e morta
Que o meu tato degusta
Na espeleologia
De uma caverna escura

Tão negros como o aqui e o agora,
Hoje, aos meus setecentos e negros anos,
Meus olhos estão negros,
Ainda mais negros
Do que desde sempre foram
E menos - ou mais -
Do que um dia ainda serão

Minhas mãos, em mim,
Estão umedecidas,
Molhadas, talvez,
Com minha própria vaidade,
Com meu próprio sangue sem cor
Molhadas com música dissonante
E, com ela, os pássaros brancos,
Cantando, mansos, o sabor do fel

Também os girassóis
Exalam um dourado-mouro,
Torpe e fedro,
Que me penetra os ouvidos
A alimentar meu respiro,
Minha força,
Meu sexo,
E demais instintos grises

Hoje, estou míope
Hoje, estou cego
Mais que meu próprio ego
Mais que Miguilim,
Bocelli,
E eu

E tudo o que vejo
São formas
E cheiros
E sons

Pedaços de um quebra-cabeças particular
Que hoje minha nuca enxerga
Já que agora caminho de costas,
Com a flexibilidade manca
De minha própria alma

Amargo é o gosto de minhas próprias íris
Quando as mastigo com meus tímpanos vis

Aonde estão meus olhos?
Caídos, talvez,
Na escuridão do Hades
Dormindo, pueris,
À servidão de Tanatos

Aonde estão meus olhos,
Senão engolidos por mim mesmo,
Com as narinas
De minha língua esquerda?

E lá colocados com a ambidestria
De minhas próprias palmas?
Calejadas pela miopia de minha derme!?
Calejadas pela miopia de meu tempo!?

Aqui, no banho quente
De uma banheira circular de mármore,
No sabor indescritível de um negro e doce café azul,
Ouvindo a Requiem de Wolfgang,
Na quiromania dos bonobos,
É que enxergo, pela primeira vez,
Setenta e sete arco-íris invisíveis

Eu,
Eu cego,
Eu, animal de mim
Nesta verborralgia lírica,
Braile, e literata,
Que me sobra

Eu, poeta de mim
Canibal de minhas íris
Escultor e maestro de mim mesmo

Doce miopia que me embaça aos poucos
Que me embaça aos poucos, desde que nasci
Doce miopia que me entrega ao míope
Doce miopia que me entrega ao negro
Necessitas carit legem
E que muda minha linguagem

Em algum amanhã do ontem, não a Medusa,
Mas meu próprio espelho virou pedra
E os pássaros cantam o sabor do mel,
Porque eu,
Homem e animal de mim,
Com meus olhos míopes e míopes,
E negros e negros,
Deixei de ver o espelho que me olha
Mas deixei de ver a mim mesmo,
Embriaguei-me com o vento
E comecei a enxergar

Segunda-feira, Agosto 27, 2007

"JOSÉ E O AMULETO"

"JOSÉ E O AMULETO"
F.F.G. 27/08/2007.

“Não há nada que melhor defina
uma pessoa do que aquilo que ela faz
quando tem toda liberdade de escolha”
Do que o amuleto
A impressão
O olhar
A compreensão
O toque
Ou aquilo que motiva os homens quando, lassos,
Retrocedem ao esplendor
Azul e branco de um abismo nobre.

Não há nada que melhor defina o menino
Do que o sonhar pelo limite superado
O ápice de uma roda gigante
O vôo de um herói sem capa
O peixe grande de uma vara simples
A vitória de uma guerra
De uma guerra de botões
Ou de homens
Ou de almas

(E não há nada que
Melhor defina um homem do que
O não deixar morrer este menino).

Não há nada em um homem
Como o olhar de descoberta
Ou o como saber lidar
Com as paixões findáveis
Que tanto o assolam
E o instigam à prova
De não saber lidar consigo mesmo.

Não há nada como o choro simples
De um violinista no telhado
Que vê o desvanecer das boas tradições
Assim como a chuva
Que desmancha o castelo de areia
Daquele menino da roda gigante
Ou do amuleto
Ou do jovem
Que se define por suas escolhas
Abdicando à sedução do abismo.

Assim, o homem
O homem sem nome
Assim, a pedra no meio do caminho
No meio do caminho, assim a pedra
Assim, Drummond, José, e eu.
E agora, José?
(E agora, você?)
Assim, a teogonia
E os amuletos perdidos
Sortidos
Torpes de consciência
E cônscios desta vã ignorância
Que nos consome
Que nos consome enquanto homens
Nas margens plácidas
E nas margens estúpidas
Das águas claras,
De um rio sem fim

E o amuleto de infância
Num súbito
Mergulha pro fundo
(...profundo)

E agora?
E aonde?
E o mundo?
...e agora, José?

Quinta-feira, Julho 26, 2007

"VERDE PÁTRIA MINHA"

"VERDE PÁTRIA MINHA"
F.F.G., 26/07/2007.

Verde é o ósculo de folhas de louro
Que abraça a frente, a gente,
O tempo e o ouro,
De minha pátria

Verde é o broto, a mata,
O mar de algumas praias
E o fruto, ainda novo,
Do sal de minha terra,
Que, do alto, afoito, ainda cresce
Mas que num tempo,
Curto ou longo, amadurece,
A beijar o brasil-solo,
Que aqui de baixo lhe idolatra

Verde é o líquor-néctar verde-água,
Que das veias de minha pátria se deságua
Que caminha através de cada planta
Que caminha através de cada grito,
Canto, campo, reza ou mantra
Que caminha através de cada tronco,
Ramo, folha, verso ou lágrima

Verde é a esmeralda, ou soldo, que procura
O pai, cujo filho ao longe cresce
Verde, também, o chimarrão do boiadeiro,
Cuja vida não amanhã, mas hoje, tece
Verde, o canto do boêmio, que num verso,
Ou bossa, ou fossa, tudo veste
E verde, assim, também, o papagaio,
Que, poeta, d´outro canto,
Tudo ouve e só repete

Aqui, verde é o bem-te-vi,
Que, humilde, canta a traviatta
E verde, aqui, assim, também
A cauda do pavão,
Que de tão bela, e grande, encanta
A fantasia da rainha de outro samba,
Que, verdejante,
Hoje dança a minha pátria

Verde, a oliveira bragantina
Que inspirou nossa bandeira cristalina
Verde, o riso e a fita da baiana, africana
E verdes, os olhos doces italianos da loirinha

Verde-claro, claro, dentre outros: o abacate
De que não se sabe salgado ou doce
De que não se sabe se nosso ou d´outros
E de que se espera que algum dia
O sal do mar não o fira ou mate

Verde, enfim, é a cinza-rima
Que se quebra ao palco
E assim a grama do campo
Do menino negro e branco
Já descalço

“Verde as matas no olhar”
– brada o verso
Mais verde!
Verde mais!
Ver demais!

Ver de pé
Ver de quatro
Ver de cima
Ver de baixo

Ver decoro
Ver decreto
Ver de novo
Ver decrépito

Ver de volta
Ver de dia
Ver de noite
Ver devia

Ver de longe
Ver de perto
...descalço
....decote
....de cujus
....defeito
....despir

Ver de cor...
Verde cor!

Verde, a Caipora
De tantas histórias
De nosso folclore
De tantas memórias

Verde, o semáforo que permite
Verde, a jogada do malandro
Verde, a carta do palpite
Verde, um jovem se hidratando

E verde, assim, também,
A Caixa de Pandora,
Da esperança, do mito perdido,
D´alhures, d´outrora

Sempre verde, a minha pátria
Esta minha pátria nada provinciana
Verde, amarela, azul e branca
Pátria minha viniciana

“Tão íntima”
“Tão pobrinha”
Tão íntima
Tão verdinha

Verde-escarlate, assim, também,
Ao daltonismo puro e simples dos que lêem
E verde mesmo ao cego,
Que respira as notas-cores,
De sua madeira flauta doce,
Desta fronteira agridoce,
Ou de um lugar muito além

É verde, pois,
O sorriso, e a dor
Antes e depois,
Da minha pátria sem cor

Da minha pátria que chora
Da minha pátria que canta
Da minha pátria “ide embora”
Da minha pátria “de infância”

Sem nome, e tão íntima,
Esta pátria sem cor
Mas da lágrima autêntica,
De sonho, e de amor

Pátria Minha,
Verde Pátria Minha

Já não sei se por ti choro,
Ou se já estou te amando
Mas em tua memória já moro,
Teu filho, sem cor, Fernando.


Segunda-feira, Junho 25, 2007

"TEORIA DA BOLHA"

"TEORIA DA BOLHA"
F.F.G., 23/06/2007.

Como se não bastasse a brevidade dos tempos de farta irrigação e pluviosidade a um coração ou terra, o Complexo de Sísifo torna a reiniciar a estiagem, e a apertar, como um alicate, o lóbulo da orelha direita daquele jovem escritor-fabiano, que subitamente desviou seu olhar da pena, para o canto da sereia; do pergaminho, para o aroma do pólen que lhe penetrou as narinas a alimentar seu canto.

E agora, como um filho que se vê de orelhas puxadas por seu próprio pai em direção à escrivaninha, o desorientado e pueril digitador-fabiano é inevitavelmente retrazido à tinta das pseudonimias mais sarcásticas e menos parnasianas, que simplesmente não conseguem deixar de tentar enxergar o significado ontológico da existência das fechaduras nas portas.

Despenca, portanto, em teclas, aqui, como um trovão, não a
literalidade, mas ao menos a base da essência do que ensinava um velho mendigo das urbanidades interiores paulistas: a Teoria da Bolha.

A teoria em si é simples, saudoso leitor.
Segundo a fábula daquele mendigo (quem não se sabe "louco" ou "sábio"), as bolhas de sabão, invisivelmente rosadas, estaticamente esféricas (ou elasticamente elípticas), e em cuja película ínfima de um produto perfumado qualquer correm, incertos, múltiplos arco-íris invisíveis, seriam os objetos matemáticos mais perfeitos e sublimes que o universo já conheceu.

Exatamente: bolhas de sabão!
Daquelas das crianças mesmo.
Simples bolhas de sabão!
Tão perfeitas, e tão rarefeitas.
Tão inexistentes, e tão sensíveis.
Tão ignóbeis, e tão sublimes.

Sim, o objeto mais sensível e mais perfeito do universo é uma simples bolha de sabão, caro leitor! Daquelas que voam serenas por alguns poucos suspiros antes de "se suicidarem" e sublimarem da dimensão do aqui e do agora.

E o que diz a fábula do mendigo (sem maiores explicações daquele autor, senão uma mera mitologia subliminar quase espartana), é que as bolhas de sabão seriam tão perfeitas e sensíveis, que o que as estoura em verdade não é
"o vento" ou uma suposta "morte natural", mas a inveja dos homens.

Irônico ou insano, de fato! Mas quem, com provas, diria o contrário?
É que mesmo aos homens menos
auto-centrados, mesmo aos mais serenos e mais desgarrados dos pecados capitais (ou das desvirtudes cardeais aristotélicas), seria impossível vencer o desafio final de não invejar o extremismo da perfeição aritimética natural contido numa bolha de sabão.

É a inveja do olhar humano, portanto, quem estoura as bolhas de sabão infantis - acredite o leitor, ou não! E sempre, inevitavelmente.

Ao que parece, pelo que se deduz da fábula, se as bolhas de sabão fossem produzidas por um "cientista-filófoso" dentro de um invólucro hermeticamente fechado (inacessíveis, portanto, aos ventos e aos olhares humanos), ainda assim, elas estourariam!
E estourariam porque a
"inveja humana" (assim conhecida), ao menos neste caso da "bolha e sua perfeição" (dito por aí que também para outras circunstâncias mais), é capaz de penetrar até mesmo o vidro ou a madeira; a distância ou o concreto; o tempo ou o chumbo, a atingir suavemente qualquer bolha, onde quer que ela se encontre.

É que a imperfeição da bolha é tão inversamente proporcional ao opróbrio humano (e portanto, tão catalizadora do mesmo), que basta a um homem o conhecimento da existência de uma
específica bolha de sabão, para que esta passe a ter seus suspiros contados.

Assim, consequentemente, não deixa de ser verossímel a pressuposição de que se houvesse um método de produção de bolhas de sabão que fosse absolutamente
natural e totalmente desprovido de qualquer intenção ou estratégia humana, ao menos em tese, estas bolhas, "invisíveis ao radar humano", não estourariam e sairiam voando ad eternum ao infinito.

A respeito, já não se encontra mais viva uma certa senhora, Dona Glorinha, que fora a primeira funcionária a entrar numa manhã de segunda-feira na fábrica de sabonetes em que trabalhara. Local onde acontecera um acidente numa caldeira de sabão, durante a madrugada do respectivo fim de semana anterior.

Constatou-se, em perícia, pela quebra do relógio de uma máquina, que o acidente ocorrera logo na sexta-feira à noite, após a saída do último funcionário da fábrica, e que, portanto, o enorme volume de bolhas de sabão agarradas ao teto da sala, já "sobrevivia" há mais de quarenta e oito horas.

Assim que Dona Glorinha (pessoa de coração bastante puro, diga-se de passagem) adentrou o local na manhã daquela segunda-feira, principiando por contemplar o esplêndido e perfumado acidente, em questão de uns cinco minutos (pelo que testemunhou, maravilhada, ela própria), as "lindíssimas" bolhas de sabão começaram, pouco a pouco, a estourar (uma a uma).
Dali uma hora, todas as milhares de bolhas do acidente haviam sublimado, restando à Dona Glorinha tão só a limpeza do líquido colorido, que jazia no chão do ambiente.

Mas o presente conto, em si, caro leitor, não pretende furtar propriedade intelectual àquele engenhoso "filósofo-mendigo", pelo que traz, em complemento à fábula, a verdadeira pretensão do presente texto; e, desta vez, de autoria própria: a descrição sucinta dos três prefeitos de uma pequenina cidade do interior brasileiro.

Vamos, pois, rapidamente, à descrição daqueles três.

Eram eles conhecidos por: "Dr. Carlos", "Mirandinha", e "Robertão".

O primeiro: sisudo e arrogante (quando não
"carismático por hipocrisia"). Enfim, "cheio de si". Dizia-se que ostentava seus títulos no cartão de visitas, e que fazia - com isso - questão de dizer que era engenheiro formado pela melhor universidade do país. Muito embora aparentemente honesto (sem ter enriquecido ao passar pela Prefeitura), fazia questão de exibir sua belíssima esposa no clube da cidade!

Já o segundo: carismático, alegre, despertava a confiança e a esperança da população, mas era impossível não reconhecer em si uma perceptível vaidade e discreto abuso daquele poder interior. Degustava uma contida auto-confiança quase arrogante e auto-suficiente. "Mirandinha", apesar de também "aparentemente sério" (o que o levou à vitória nas urnas), com seu nascituro-brilho-natural, conquistava também seus desafetos.

Por fim, o terceiro: Robertão!
Alegre, carismático, também engenheiro, também aparentemente sério (mas com o detalhe de que "absolutamente amado pelas massas"). Em síntese: quase que "sem desafetos" em toda a cidade. Pessoa simples (casa modesta, carro modesto), mas de sorriso franco, simpático, agradável. De fato, com tal histórico, "Robertão" sempre fora um "papel de parede" que não se destacava extremamente em nenhum aspecto específico.
Mas apesar de toda esta "escala cinza", era "boa pessoa", por que não? (Ao menos, ninguém conseguia encontrar vontade para buscar razão para qualquer sustentação em sentido contrário.)
Enfim, "Robertão" era um
"ícone subsidiário" ideal para receber votos, se porventura os outros poderosos se esfaqueacem na luta pelo poder. E assim se deu, quando, circunstancialmente, sem qualquer esforço ou política, Robertão também venceu uma eleição.

Fato é, caro leitor (e não se espante com o que aqui estarás a descobrir), que assim como toda aquela população (e assim como este escritor-fabiano em seus surtos literários insones), o leitor também acaba de estourar algumas bolhas de sabão, se porventura acometido de maior simpatia por este último prefeito em detrimento dos outros dois.

E o assassínio de alguns
objetos matemáticos perfeitos ter-se-ia dado por parte do leitor-homicida-não-doloso precisamente porque "Robertão", "Mirandinha" e "Dr.Carlos", nada mais eram que a mesma pessoa: "Dr. Carlos Roberto Miranda Leite de Araujo", um dos ex-prefeitos daquela pequenina cidade do interior brasileiro.

Tudo se explica na medida em que era conhecido desde a juventude por "Robertão"; em tempos mais recentes (e candidatáveis) por "Mirandinha"; e, após a posse, tão só por "Dr.Carlos".
Nada complexo!

Sim. Alegre, carismático,
engenheiro, "aparentemente sério" (realmente não enriquecera depois da Prefeitura). De fato, não há porque o espanto do leitor! Três em um! Basicamente a mesma pessoa (mas visto pelos mesmos olhos humanos: antes, em vias, e depois do "sucesso").

É
ignóbil - concordamos - mas natural e indesprezível, como se vê, que cresça a um olho humano a antipatia por quem consiga um novo emprego, ou uma linda namorada, ou uma linda casa, ou um lindo filho, ou verdadeiros amigos, ou por quem ganhe na loteria (ou ganhe qualquer coisa; um "presentinho embrulhado", que seja).

Já de há muito se brinca, nos ditos populares, que uma mulher possa ser
gorda, que suas amigas lhe hão de perdoar. Que possa ser feia, que farão o mesmo. Que possa até mesmo ser burra, que terá sempre a solidariedade de suas consortes. Mas que experimente ela ser "linda", para o que desejará este escritor-fabiano entrevistá-la "depois da beleza" sobre sua opinião acerca da "insanidade" ou "sabedoria" daquele mendigo-das-bolhas.

Em suma, com quais das três visões
fabianas (tem se perguntado este ignóbil digitador genocida), é que nossos olhares têm ou não atravessado o vidro, ou a madeira, ou o aço, ou o chumbo, ou a distância, ou o tempo, quando brincamos de "ser crianças" com nossas bolhas de sabão?

Essas bolhas cretinas, caro leitor...
Tão perfeitas, e tão rarefeitas.
Tão inexistentes, e tão sensíveis.
Tão ignóbeis, e tão sublimes.
Todas cheias de si.
Todas tão
carismáticas.
Verdadeiros "brinquedos dos homens".
Tão ínfimas, tão
auto-suficientes.
Que voam, brincam, riem.

E que ainda se vêem na pretensão gloriosa de se suicidarem, magníficas,
ad eternum, ao infinito...



Sexta-feira, Junho 15, 2007

"ÁGAPE"

"ÁGAPE"
F.F.G., 15/06/2007.

Eu quero uma amiga que não seja nada parecida com a que a grande maioria das pessoas acha que tem que ser.
Que aprecie a boa música (sem rótulos), mas que desconheça os rankings das dez mais ouvidas nas rádios; e que nunca tenha ouvido falar que Ricky Martin nasceu no ano de 1971.

Essa mulher deve ser tão mal informada que simplesmente desconheça que ultimamente as pessoas têm conseguido pagar, por um corte de cabelo, mais do que outras pessoas conseguem ganhar durante um mês.

Na sala de estar dessa amiga deve existir um sofá modesto e de poucos lugares (mas de estofado muito confortável); de onde ela estaria acostumada a assistir aos melhores clássicos do cinema mundial (porque ela gosta de cinema; porque gosta de histórias).

Mil e uma noites de clássicos que fez:
da sonhadora, a Sultana;
da história, um hábito;
do hábito, o sentimento;
do sentimento, o Ágape.

Na sala de jantar dessa mulher deve haver também uma bela mesa de mogno envelhecido (e sempre tratada, desde a avó, ao mais puro óleo de peroba). Mesa provavelmente herdada da família dela (e local aonde se estaria acostumado a acolher, com alegria, a mesma família alegre, e os poucos - mas incondicionais - amigos, que lá celebram vários Natais e Páscoas por ano).

Lá também deverá haver ao menos uma planta e um quadro qualquer (um quadro adquirido por ela em feira livre não pelo artista em si - desconhecido - mas por ser um quadro que ela simplesmente viu e na hora o achou misteriosamente belo).

No lar dessa minha amiga também deverá haver um piano com um lápis e algumas bossas-novas rabiscadas sobre si. Não que ela tenha na música sua profissão ou talento-maior, é apenas a vontade rotineira de extrair alguns sons simples - mas conjugadamente perfeitos - pra regarem os ouvidos da casa pequena (que sorri, do alto, em silêncio).

Ela nunca terá ouvido falar de nenhuma grife, ou marca de perfume, ou trufas, ou foie gras; mas conhece o aroma das flores, sabe quando falta sal, açúcar, ou canela, a algum prato especial; sabe o que uma criança está sentindo (ou quando é hora de dar ou receber carinho).

Eu quero uma amiga com defeitos - pra que seja real - mas que, apesar de seus defeitos, tenha essa "identidade-criança"; uma amiga que veja cavalos-marinhos nas nuvens; e que - embora leia bastante, e por prazer - também não tenha ainda devorado todos os tomos de todas as doutrinas de alguma específica área técnica.
Uma menina que ache graça das coisas bobas, que tenha no sorriso um hábito, e que exploda um riso espontâneo com uma piada simples (porque quase sempre se esquece que, embora menina, o tempo não deixou de lhe fazer mulher).

Quero essa amiga "que goste de flores", e de música, e de histórias, e dos bichos; que ame a própria profissão e que ache bonito homem "tocar violão", ou "homem de óculos" (ou mesmo sem óculos, mas desde que sorrindo); e que dê valor à infância, à família, e à lealdade.

Uma amiga capaz de ficar muito tempo comigo na varanda, conversando por horas; ou em silêncio, quando for o caso deste valer mais que uma conversa.

Uma amiga cuja presença trouxesse calma e harmonia, e na presença de quem se sentiria protegido pela própria mãe ou irmã (mas paradoxalmente com alguma Afrodite em si).

Eu quero ter uma amiga, uma só, que teria um olhar encantador, e muito doce, e muito bom. Daqueles cuja imagem diz mais que mil palavras; daqueles cuja imagem diz quase tudo: o dito e o não dito. Daqueles que não se precisa pedir. Que simplesmente vêm. Não toda hora, mas geralmente uma vez ao dia (em momentos especialíssimos).

Essa mulher teria uma casa pequena e meio antiga, mas com um belo quintal, cheio de árvores. Teria poucas jóias, e roupas, e sapatos; e teria poucas amigas, mas amigas que fossem quase que irmãs para ela.

Ela entenderia de sorrisos sem nunca ter feito teatro; da falibilidade humana sem nunca ter lido Shakespeare. Entenderia do perdão, da determinação, da fé, e do sonho. Entenderia do Eros, do Ágape, da natureza, e do infinito - mas mais por achar esses assuntos muito interessantes, que pelo que as literaturas humanas tiveram até hoje a oferecer sobre os mesmos (embora tenham oferecido muito).

Eu quero uma amiga capaz de me lembrar que estou vivo, e que, apesar dos sabores inevitavelmente insipiados pelos anos, do magma dos vulcões, e do enferrujamento das gangorras, fato é que os balões continuam a subir, e continuam a ser lindos precisamente porque excentricamente idiotas.

E eu quero uma amiga que, ainda mais que todas essas coisas, tenha sonhos, paixão, atitude e espontaneidade, e que seja capaz de me mostrar que sim, que no mundo há fome; capaz de me mostrar que Machado tinha razão (antes e depois); capaz de me mostrar que o futuro não deixa de repetir o passado; mas que - mesmo assim - sinta e me mostre que as fábulas de Sherazade continuam a ser eternamente novas; que o riso do palhaço continua a ser belo; e que não há quase que absolutamente nada melhor do que um "sorriso resgatado por uma memória", "tomar água de cachoeira", "sentir uma bossa-nova ao piano", e "assistir a mais um filme qualquer", seja ele bom ou não.

Como eu queria ter uma amiga assim: uma amiga de Chico, de Neruda, de Vinícius, de Balzac.
Todas em uma, ou simplemente nenhuma em alguém (mas única), pois que se eu a percebesse por perto, no que dependesse de mim, já seria - há tempos - muito mais que uma simples amiga.






[1] Texto inspirado no texto “Um Amigo”, Danuza Leão.



Domingo, Maio 13, 2007

"ÁGUA"

"ÁGUA"[1]
F.F.G., MAIO/2007.


Sai de ti mesmo.
Perde a forma.
Perde o tato.
Perde o corpo.
Como a água.
A água é o rio,
é o mar,
é a chuva,
é a nuvem,
é o orvalho,
é o mel,
é a lágrima,
é o leite,
é o corpo,
é a criança,
é a mulher,
é o homem.
A água não tem cheiro,
Não tem gosto,
Não tem forma,
Não tem cor,
Não tem dor.
A água voa,
Arrebenta,
Apaga o fogo,
Quebra a rocha,
Fertiliza o grão.
Água.
Só água.
Perde-te logo de ti mesmo.
Sai na chuva,
Sai descalço.

Sê água,
Só água.

Desce a cachoeira.
Corre invisível
Em nossas mãos secas.

Entra no teu corpo.
No meu corpo.
No do teu amigo.
(E no do teu inimigo também).
Perde o vácuo.
Perde a forma.
Perde a fórmula.
Rega a pétala.
O caule.
A raiz.
Depois chove à flor.
Embebece a abelha.
Prepara o café bom.
Lava o menino,
Enquanto a mãe vai cosendo.
(Alegra Drummond).
Quebra o rochedo.
Liberta-te.
Sobe, voa, volta.
E, enquanto é tempo,
Foge, definitivamente,
Ao cerrado de ti mesmo.

E quando acontecer: ama.
E vê se não morre novamente nunca mais.



[1] Inspiração de uma filosofia oriental chinesa advinda de Bruce Lee (sobre a água); conjugada a Carlos Drummond de Andrade.


http://www.youtube.com/watch?v=KRWVLxSxifY

KEY WORDS: [BRUCE LEE WATER]


Terça-feira, Abril 24, 2007

"QUATRO-E-NOVE"

"QUATRO-E-NOVE"
F.F.G., Abril/2007.


Constantino deu um murro.
Com força.
Na própria coxa esquerda.
Algo lhe picara doído.
Puxou a bermuda.
Estava sozinho.
(Morava sozinho).
Coçava-lhe o edema.
Fora uma pulga.
Apesar do murro, viva.
Provavelmente do cão.
Lazarento!
Só consumia.
Nem o jornal trazia mais.
Ou advinda do assoalho.
Velho.
Imundo.
Horrível.
Como o apartamento alugado.
Ou o carro quebrado.
Era o que saldo permitia.
Reclamações inúteis.
Ano após ano.
Tudo piorava.
Constantino, gordo!
Sozinho.
Chato.
Ébrio.
(E a jactância lhe comia).
[...]
A pulga andava rápido.
Da coxa ao joelho.
Do joelho à canela.
Picara-lhe novamente.
Outro murro.
(Outro edema).
Sempre a mesma pulga.
Lazarenta!
Só consumia.
Nem morrer morria mais.
Advinda do caos.
Dos livros.
Do Samsa herdado,
Que calçava a mesa.
Do saldo.
Das reclamações.
Dos anos.
Do apartamento imundo.
Dos murros!
(Dois murros!)
[...]
Coceiras.
Ágil pulga.
Apesar dos murros, viva.
"Viva"!
Constantino ao sofá,
Onde pernoitara.
E consigo um copo
Whisky ressecado.
Meio dia!
O despertador que toca.
E a pulga pulando.
Da canela ao pé.
Do pé à sola.
Constantino a pega.
Enfim, “presa”.
Ao seu lado, o copo.
Uma idéia.
Um motivo.
Uma emoção.
O caos.
Põe a pulga ao copo
Copo ressecado.
Sobre o copo, de improviso, a tampa:
Seu chinelo esquerdo!
E lá dentro: a pulga:
Presa!
Lazarenta!
(Já não consumia mais).
[...]
Na prisão, um salto.
No chinelo, o golpe.
E a pulga pulando:
Cabeçadas mil.
[...]
“Trinta e três centímetros”
.
(É o que as pulgas pulam).
E a pulga pulando:
Cabeçadas mil!
[...]
"Cinco" é seu limite.
"Cinco" tem o copo.
Lazarento!
Quem?
O limite!
O chinelo!
O copo!
O caos!
E Constantino perto.
Plena diversão.
[...]
Sendo tantos pulos,
A pulga foi cedendo.
Foi pulando menos,
Até equilibrar.
Trinta e três.
Vinte oito.
Vinte e cinco.
Dezenove.
Onze.
Seis.
Cinco e meio.
Cinco e dois.
Cinco e um.
Cinco.
Quatro e oito.
Cinco.
Quatro e nove.
Quatro e nove.
Quatro e nove!
E ali parou.
[...]
Cada salto:
"Quatro-e-nove"!
Serena.
Sábia.
Beijava o chinelo.
(Sem tocá-lo).
Resvalava um "quase".
Sempre um quase.
Quase um quase.
E ali parou.
Muitos quatro-e-nove.
Até o retorno seguinte.
Quando, como sempre,
Constantino voltou.
[...]
Apanhou o chinelo.
No chão fazia frio.
Apanhou o copo.
Pra regar com whisky.
Quando viu a pulga,
E, quando se lembrou.
Viu ali a dita,
Que há tanto saltava.
E ali notou,
Mesmo sem chinelo,
Que jazia presa.
Eternamente presa.
"Livre do chinelo".
(Mas douta no padrão).
[...]
Constantino olhava.
A pulga em saltos mil.
Sempre "quatro-e-nove",
Presa sem sair.
(E douta no padrão).
[...]
Eram tantos pulos,
Que a pulga já dera,
Que dos “trinta e três”,
Em quatro-e-nove morreu.
[...]
Morreu!
Morreu morrendo.
Morreu no caos.
No próprio buraco invisível.
Morreu gorda.
Chata.
Ébria.
Lazarenta.
Velha.
Imunda.
Sem os livros.
Sem o saldo.
Sem Constantino.
Sem o cão.
Sem as reclamações.
Sem os anos.
Ali, sozinha.
No caos.
Na própria jactância.
À margem de si mesma.

Terça-feira, Abril 17, 2007

"MEU PAI É..."

"MEU PAI É..."
F.F.G., 10.08.2006.

Meu pai é picanha (picanha mal passada).
“Picanha Boi berrando”, como ele dizia.
Meu pai é também alcatra, maminha, fraldinha...
É costela bovina amarrada no espeto e fincada sobre uma fogueira
...é o matambre da costela.
(Deliciosíssima fina camada de pura carne,
próxima ao chamado “papel”, nas costelas bovinas).

Meu pai é bigode preto, cheio e clássico.
Barba sempre feita (bigode que nunca).

Meu pai é só não fazer a barba quando ia pescar e,
no ardente inverno sul mato-grossense, matar alguns banhos.

Esta é uma lição que aprendi com meu pai, aliás.
Que vez ou outra devemos matar alguns banhos.
Que vez ou outra devemos deixar de fazer a barba.
“Hoje atingi o limiar do “foda-se”, filho!” - dizia.
...
Meu pai é não dormir de meias nem a temperaturas baixíssimas.
(Não se sentia bem dormindo com meias. Que fizesse frio, não as punha).

Meu pai era estar sempre acompanhado de sua “capanga” de couro
(dentro de onde trazia tudo consigo).

Meu pai é usar camisa de botão com bolso
(sempre com o bolso cheio ao dobro de sua capacidade normal).

Meu pai é: “- DESLIGA ESSA MERDA, PELO AMOR DE DEUS!!!”, após escutar por umas quarenta vezes seguidas a música “Corazón Partio”, do cantor Alejandro Sanz, que havia sido esquecida no modo repeat, certa vez, num churrasco.

Tempos depois, já na Casa Verde Jurídica (e já sem meu pai) vim aprender uma frase de Rui Barbosa (modelo de urbanidade): “A tolerância só não é esgotável nos idiotas”. E, assim, aprendi que cada circunstância tem sua sabedoria interna.

Meu pai é um jogo “CORINTHIANS vs. PONTE PRETA”, em Campinas, no qual fora com um amigo (também corinthiano roxo). Ocasião em que, ao final do jogo, um grupo de ponte-pretanos os cercaram, obrigando-lhes a beijarem a camiseta do alvinegro rival.
(Consta que a evidente contragosto - mas por prudência – beijaram as camisetas).

Logo após, retornaram à casa de meu avô, apanharam os cachorros de raça fila que tínhamos na época, embarcaram as feras na caminhonete, voltaram ao local em que foram constrangidos e, surpreendentemente, aquele mesmo grupo não havia deixado o local.

Ecoa em minha mente o diálogo:
“- SE CORREREM SOLTAMOS OS CACHORROS! TODO MUNDO PARADO!!!...... VÃO BEIJAR AGORA, UM POR UM, A CAMISA DO CORINTHIANS!”
(Há testemunhas do fato!)

Aliás, o Corinthians também me é herança paterna.
Muito mais o Corinthians de Ronaldo (o Giovanelli), Neto, Viola e Tupãzinho, que o Corinthians holding dos dias atuais. Aprendi com isso também que o tempo passa e, feliz ou infelizmente, tudo muda.
...
..
.
Meu pai é vira-lata, é fox paulistinha, é fila, é dog alemão dinamarquês. Aliás, meu pai é já ter tido simultaneamente mais de quinze cachorros. E quanto a isso, é de meu pai a frase:
“Os cães são melhores que os homens porque, uma vez amigos, serão sempre amigos”.
...
Meu pai é Maverick(V8): dourado, marrom, verde-água e preto.
Meu pai é caminhonete prata cabine dupla indo nos buscar no Liceu.
Meu pai é um Mustang Mach One antigo.
E principalmente, meu pai é uma belina vermelha.
Sim, uma belina vermelha.
...
Meu pai é barco com motor de popa.
É sua lancha “Don Galuppo”.
E é “barco e lancha” porque é pesca, muita pesca.
Meu pai, aliás, é Pantanal como um todo!
É a cidade de Porto Murtinho; é a paraguaia Isla Margarita; é o Nabileque.
Quem aqui conhece isso, meu Deus?
Quem, aqui, conhece o Nabileque?
(Pequenino agrupamento humano próximo à Bolívia.
Exclusivo acesso hidroviário.)

Meu pai também é peixe:
Pacu, Piaus, Tucunaré, Pintado, Pirarucu, Piraputangas.
Sim, meu pai é peixe. Muito peixe!
“Peixe grande”.

Meu pai é isca! Isca de caranguejo. Isca de tuvira. “Isca de colher” (daquelas de inox espelhado, que refletem o sol dentro d´água fazendo os peixes pensarem se tratar de peixinhos menores).

Meu pai é farol silibin batendo em águas noturnas, e fazendo saltar pequenos lambaris suicidas que se lançam imprudentemente para dentro do barco.

Meu pai é vara de muitas nacionalidades: vara japonesa, vara americana, vara alemã.
E além de vara, meu pai é também: linhas, anzóis, chumbadas, e molinetes de amplo estoque!

Meu pai é: “BOA NOITE E VAI TOMAR NO CU, FILHO DA PUTA!”, em resposta ao “Boa Noite!” do Cid Moreira, ao final do Jornal Nacional!

Meu pai é canivete suíço vermelho, que sempre pedíamos para brincar. “Na frente dele”, na medida em que ainda éramos “muito novos”.

Meu pai é “fogos de artifício”! É “bomba mil”! É rojão! É vulcãozinho!
Meu pai é uma daquelas bolas azuis que estouram quando as jogamos ao chão.
Aquelas, cuja película de pólvora azul se gasta até não se poder usar mais (como o corpo, como o tempo, como a vida).
...
..
.
De meu pai veio a frase:
“Há somente dois tipos de italianos: o sacerdote, e o mafioso. Eu, definitivamente, não sou o sacerdote!”

Meu pai é receber uma advertência arrogante de um fiscal de trânsito:
“- Criança é no banco de trás, viu!!!”.
“- Ele já tem treze anos! Pela lei, não é mais criança.”
“- Ham! Sei!!!”
“- Amigo, faça sua função, aí! Multe!!”

Consta que o “amarelinho” de pronto retirou a caneta do bolso e abriu o talão de multas.
O sinal se abriu e meu pai se foi (na ocasião o carro estava sem placa).
...
..
.
Meu pai é: “Fernando, Raquel e Wagner, finjam que vocês têm educação!”

Meu pai é “Chiusa!”, quando almoçávamos!
(E outras frases e mensagens subliminares.)

Meu pai é muitas caretas!
(Sobretudo aquela, inexpressível por palavras.)

Meu pai é o vício-virtude do desapego material extremado (dava muitas coisas suas; até quando as precisava mais que seus presenteados).

Meu pai é roupa branca. É ouvir música clássica enquanto atendia seus clientes. (Meu pai era dentista, aliás.)

Meu pai é a frase: “Filho, passe toda semana num mesmo local da cidade e dê cinco reais a um mendigo. Depois de um tempo, passe no mesmo lugar e não dê nada, e sem falar nada; simplesmente passe. ...Ele virá atrás de você, agarrará seu braço, e falará:
“- Ei!!! Cadê os meus cinco reais?”"

Meu pai é a frase: “Minha mãe falava: "- Filho tenha pena do pobre, do fraco."”

Meu pai é a frase: “Meu pai, meu paizinho!” – quando viu seu próprio pai ir desta para melhor. Única vez que lhe vi chorar (registrei a cena).

Meu pai é cupim; é macarrão e lasanha feitos em casa! É leitoa assada (com limão); é pacu grelhado na folha de bananeira. Meu pai é “mais e mais” churrasco; é dobradinha; é sopa de músculo (com pedaços de couve rasgados à mão); é limonada; é suco de tamarindo; é melancia como sobremesa. É mocotó; é miolo bovino; é cabeça suína (hábito que, em toda minha vida, só encontrei em alguns descendentes de europeus, afinal, as guerras nos ensinam novos hábitos).

Meu pai é carne do açougue do Onofre. É compras no Makro, ou no pequeno minimercado do Makita. É avião. É pilotagem. É tomar guaraná de canudo no Aeroclube de Campinas.
(Meu pai também era piloto, aliás.)

Meu pai é a sabedoria de um índio que lhe ensinou a sabedoria das tartarugas. As tartarugas, pelo que lhe ensinou o índio, botam seus ovos longe da margem dos rios no começo de anos em que virá muita chuva. E botam próximos à margem em tempos de seca.

Meu pai é armamento.
É o “trezoitão” (revolver calibre .38mm).
É a pequenina pistola .22mm de bolso traseiro.

Meu pai é a frase:
“Enquanto não comer tudo o que colocou no prato, não sai da mesa!”.

Quando criança, vi meu pai, no sítio do tio Mané (ao ver um jovem rapaz que tremia de frio lhe responder que não tinha agasalho) retirar sua própria blusa e dá-la ao rapaz.
Fazia frio (registrei a cena).

Meu pai era amizade com todos os garçons das churrascarias que não cansava de, semanalmente, freqüentar. Um destes garçons, Barney (apelido criado por ele), chegou ao enterro de meu pai exatamente no horário da missa. A missa era realizada sem a menor conta do jovem garçom, que simplesmente chegou ao local e caminhou à frente do padre até o deitado protagonista. Parou e ficou fitando-o. Fitou-lhe por um tempo, depois saiu, e se foi.
(Registrei a cena).

E meu pai.... por fim, além de ...dormir tarde, ...encaminhar e-mails a todos, ...curtir uma boa piada, ...uma boa cerveja, ...uma boa viagem, ...dentre inúmeras outras coisas, é, também, todas essas pequenas coisas que vemos todos os dias como numa espécie de “déjà vu”. Como numa espécie de memória apagada de momentos sem fim. De momentos sempre novos, mas jamais renascentes.

Pequenas coisas que nos mostram que na vida não há estátuas ou esquecimentos. Não há triunfos ou derrotas. Mas um misto de fábulas, e risos, e circunstâncias, das mais diversas.
Na vida não há nada senão o tempo.

Há o que se viveu e o que não se viveu. E o que se fez com este tempo que nos foi dado.
Nisto resgatamos e perpetuamos a sacralidade de absolutamente todas as pescarias.
Tanto daquelas das quais trouxemos muitos peixes, como daquelas das quais não trouxemos peixe algum, senão lembranças.

Meu pai é:
“E você, não vai comer, pai?”
“O pai já comeu muitas vezes na vida,
agora é a sua vez filho! Come aí!”


Meu pai!
Misto de Coronel Frank Slade, do Perfume de Mulher...
Sonny Corleone...
E alguns palhaços categóricos de Sir Spencer Chaplin...

Simplesmente meu pai.
Hoje sem nome,
Mas de muitas histórias.
(Como muitos pais.)

Meu pai é um lugar.
Uma lembrança.
A queda do Cinema Paradiso.
A canela do Tempero da Vida.

É “Picanha mal passada”.
“Boi berrando”, como ele dizia.

Meu pai, meu paizinho.
Que vejo, absolutamente todos os dias,
Em muitas piadas, em muitos filmes,
Em cães, pescas, carros antigos,
E nos “matambres das costelas”.

Segunda-feira, Abril 02, 2007

"CONTRAPONTO"

"CONTRAPONTO"
F.F.G., 02/04/2007


Imagine o leitor que fomos apresentados agora, nesta leitura, neste instante. E imagine, pois, que fomos apresentados por um desconhecido em comum, que nos fez as vezes de impedir nos quedarmos individualmente a sós, como se deslocados estivéssemos em uma festa de poucos conhecidos.

Isto é, imaginemos que não haja, necessariamente, qualquer pressuposição de identidade entre o leitor e este que vos escreve, posto que apresentados não por um amigo ou conhecido em comum, mas - como dito - por um estranho, um estrangeiro recíproco.

Estamos (ainda com a imaginação do leitor) ambos sentados na areia de uma praia límpida, quase imaculada, por onde caminham muitas pessoas, que molham seus pés na água.

Praia curta, mas de areia muito branca; de onde nasce um mar bravo (mas de águas cristalinas). Um ou outro coral rasgando, em ritmo, a superfície do espelho d´água esverdeado. Alguns rochedos sobressalentes ao longe ainda descobertos à vista. E, por fim, nos extremos desta nossa praia não muito extensa, imaginemos também alguma distinta e modesta vegetação.

Se estivéssemos no mundo real, por certo que, em havendo muitas pessoas caminhando pelo local, “Impossível” – diria o leitor – “que a praia fosse límpida e desprovida de detritos”. “Impossível” – insistiria – “que o mar trouxesse águas verdes cristalinas e não óleo ou processamento humano”. Mas como o mundo em questão não é, propriamente, o real, cabe ao leitor-compreensivo, fagocitar-se ao cenário inexplicavelmente “límpido” (e, sim, “com pessoas”) dentro do qual deveras se encontra; sem se deixar sucumbir à tentação de qualquer pudor lúdico ou euclidiana racionalidade.

Assim, estamos os dois sentados na areia à visão de um mar de tão distinta paisagem, e de tal sorte, que se faz impossível, a este irriquieto autor, sobre a cena não estabelecer mera tagarelice cotidiana (ou ao menos prosa módica) acerca daquelas belas cenas que se vê e de que logo se compartilha.

Imagine mais. Imagine o leitor que é fim de tarde. A claridade caída ao pôr do sol e a maresia - trazida do oceano - dando-nos a sensação de que neste instante áureo o dia devolve o que a noite tirou, ou, mais precisamente, de que a tarde compensa o que se fez da natureza pela manhã.

Apresentados, portanto, por este oceano simultaneamente estranho e comum a ambos, pergunto ao leitor sua graça; o que, apesar de minha pretendida gentileza, muito ao leitor soa estranhar.

É que às vezes a ausência de vínculos mínimos com outrem somada à dureza de valores e práxis dos tempos modernos nos geram esta natural defensiva quando um estranho nos dirige a palavra.

Evidente que por certo compreendo, sem quase hesitar, a hesitação imediata do leitor sereno quando, em sua paz de espírito e degustação natural da maresia aprazível, é tão violentamente abordado, sem licenças, por um desconhecido que lhe dirige a palavra. Mas apesar do susto do leitor - cordial que é - imagino que aceita, também com gentileza, o nosso já iniciado bate-papo.

Adentrando aos poucos um pouco mais nas trincheiras desta nossa prosa sem destinos, já se perceberia a um terceiro leitor caber a mim todas as perguntas e ao leitor originário as lacônicas e monossilábicas respostas (não abraçadas a alguma vontade real de aprofundamento).

É ainda mais certo que este tal isolamento cauto que o leitor nos proporciona em nossa praia imaginária existiria de um modo ou de outro; existiria ainda que eu o tivesse convidado, em nosso mundo fantástico, a imaginar que não fôssemos os desconhecidos há pouco desenhados, mas que fôssemos - ao contrário - "velhos amigos de décadas", e que, com isso, já existisse sólida intimidade para que, de qualquer lado, se pudesse começar a escalar mais um degrau.

E o degrau que a mim cabe convidar a subir o leitor-velho-amigo é, no caso, prosearmos um pouco sobre suas recônditas memórias e sobre seus mais guardados segredos, quer sejam: se já cometera algum crime (como Raskolnikov, de Dostoiewski); se já tivera algum amor proibido (como Werther, de Goethe); ou mesmo se já faltara à verdade ou ocultara algo de mim, seu velho amigo (e que, evidentemente, decidisse me revelar agora, com este meu ousado e curioso pedido alpinista).

Assim, por certo, mesmo em sendo agora imaginariamente dois "velhos amigos", sinto que se assim eu procedesse, conseguiria, sem grandes progressos, levar o velho-leitor-amigo a semelhante constrangimento ou isolamento.

De uma forma ou de outra, mesmo que sob inspiração de belíssima paisagem, seria muito custoso extrair elementos que não fossem meras conjecturas daquilo que o leitor decidiria "que os outros devessem saber sobre si"; não necessariamente correspondendo, a resposta escolhida pelo leitor, à verdade real ora buscada: trágica ou cômica; lúdica ou euclidiana.

"Como poderá, então" - indagar-se-á em alto e bom tom aquele terceiro leitor (mais sociável, menos defensivo, e quase que "ofendido" por sua "coadjuvância") – "que este intrometido que ora escreve adentre o sacrário da mente daquele leitor originário?". "Como poderá", em suma, "ler corações e mentes um ser humano a outrem acerca de fatos que transcendam à mera intimidade do indivíduo?"

E indagar-se-á tais questões precisamente porque, em algumas circunstâncias da vida (que não todas), a verdade de um coração ou mente de fato pode evitar um mal ou gerar um bem melhor que seu segredo o faria. Tratando-se, em outras palavras, e como diria o Direito, de interesse público prevalente sobre interesse particular.

A respeito, todo um Fórum, certa feita - isto é, todos os servidores do prédio, inclusive o Juiz e o Promotor - falhando na psicologia de se tentar colher um depoimento de uma criança acerca de um cativeiro onde ainda se encontraria vítima viva, rendeu-se humildemente a uma velha professora primária de educação artística de uma escola pública local (a respeito de quem se dizia ter jeito com crianças). E se rendeu para que tentasse, ela, em última instância, mergulhar na intimidade daquela pequena e muda alma humana a fim de que outra pudesse ser salva.

Em síntese, o que se disse do fato foi que em dezesseis minutos a professora extraíra informações suficientes para que a polícia resgatasse a vítima aprisionada.

Como pode, portanto, uma alma deter a arte de se introjetar em outra, devorando - com ou sem escrúpulos – todos os seus sistemas, valores, biografias, matrizes e sabores anímicos?

A resposta, em verdade, é mais curta que qualquer leitor (originário ou coadjuvante) possa imaginar: aquela professora de educação artística teria posteriormente revelado a todos (sem qualquer defensiva) o que de fato fizera com a criança. E nada mais fizera que criar protagonista fictício com peças fornecidas pela própria criança antes de fazer com que este herói fantástico contasse a todos onde esteve e o que viu.

“É que o ser humano nunca é sincero quando fala sobre si mesmo”
- explicou a professora a todos – “mas basta lhe darmos uma máscara, e ele dirá a verdade”.

Assim como no Emílio, de Rousseau, ou na imagem de Jacobina projetada n´O Espelho, de Machado, é que nenhum ser humano consegue ser sincero ao escrever sua própria auto-biografia, ao contar sua própria história; sendo precisamente no outro que verdadeiramente somos; no outro que verdadeiramente sentimos; no outro que verdadeiramente estamos. É na arte, portanto, que conseguimos nos tornar livres ao expressarmos nossa alma interior; sendo na escolha do conduzir de nossas pinceladas artísticas que encontramos nosso próprio eu.

Difícil, muitas vezes, a convicção de se encontrar o protagonismo das circunstâncias da vida. O protagonismo dúbio do homem e da morte no São Gerônimo, de Caravaggio; ou, ainda mais próximo a mim e ao leitor: o próprio protagonismo dúbio do presente conto.

Quem, afinal, é "o leitor", no presente conto? "O leitor" seria o leitor-originário ou o leitor-coadjuvante-ofendido (que se negará como tal)? O leitor seria o oceano cortês (que apresenta os solitários), ou o próprio autor (maestro surdo da presente obra)?

A dúvida (ou certeza) do prezado leitor sui generis, de uma forma ou de outra, envaidecer-lhe-á pela razão que tinha ao imaginar haver detritos em nossa tão límpida praia, pois atrás de nós, desde o início de nossa “prosa módica” (ou já – quem sabe – “cotidiana tagarelice”), de fato havia algum lixo deixado na areia.

Ali, atrás de nós, dormiam serenas quatro máscaras de carnaval; abandonadas por alguém provavelmente após longa noite de folia de um último dia de carnaval.

E como a bagatela achádega possivelmente se foge ao Direito, em gratidão ao leitor ouvinte tão compreensivo, o mínimo que ora me cabe é legar primeiramente ao leitor a escolha da máscara que melhor lhe couber; afinal, pouco importará ao nosso padrinho oceano o que qualquer de nós terá a dizer sobre si próprio, mas quem sabe a escolha que ofereço (e que porventura o leitor decida aceitar) já não venha nos dizer o início de alguma verdade!?


Sexta-feira, Março 23, 2007

"O PACTO DO SEU JOSÉ, LÁ DA RUA COSTA RICA".

"O PACTO DO SEU JOSÉ,
LÁ DA RUA COSTA RICA".
F.F.G., 23/03/2007.

Andava um traquinas duns oito ou nove anos de idade, já pelo terceiro dia consecutivo, a correr atrás de um porco recém chegado ao morro. Era um landrace branco como neve em tenra idade, trazido do interior por feira livre. Pequenino, mas rápido e astuto; corria feito lebre.
Quem vencia a corrida era questão incerta, mas o que se podia ao menos constatar, era que a pequenez do animal de forma alguma sugeria qualquer empecilho ou desvantagem à sua fuga, potencializada, talvez, não só pelo vigor de qualquer juventude, como pela força natural de qualquer desespero.
Não se podia dizer ao certo se o morro onde as carreiras se passavam era o de Santa Teresa ou outro contíguo qualquer, pois a primeira caça do garoto ao leitãozinho, dentre tantas outras futuras, se travara na conhecida “Rua Costa Rica”: extensa alameda de terra batida e chovida a paralelepípedos esparsos; verdadeira “linha divisória de favelas”; “bandeira implícita de jurisdições costumeiras locais”; viela menos econômica, que social; menos social, que política.
Além da hibridez funcional daquela via, “Costa Rica” também se usava para designar o pequeno vilarejo ao redor de si. Aliás, vila das mais justas dentre tantas outras dos arredores, donde inclusive no poste de número seis se havia afixado uma placa com os seguintes dizeres:
“Na Costa Rica ninguém poderá ser
submetido a escravidão ou servidão”.

Algo mítico, no mínimo poético.
De certo palavras “lidas em alguma revista” ou “ouvidas em algum filme” por algum raro estudante local, e posteriormente levadas a conhecimento de algum “gestor de interesses” dos arredores, autorizador do emplacamento.
Velha era a questão, a propósito, de se poder, ou não, considerar a linha que transcendia à Costa Rica “morro diverso”, posto que a formação rochosa, embora oferecesse “formosa paisagem”, podia dividir até mesmo a hermenêutica estética de alguns geólogos, dependendo de onde, ao longe, se postasse a vista.
Apesar de jamais lá ter se enveredado qualquer profissional estudioso das terras, fosse nosso hipotético geólogo mais engenheiro que filósofo, dir-se-ia se tratar de “um morro só”. Fosse o inverso, haveríamos dois pomos de um fruto qualquer; ou dois seios bem unidos de uma bela mulher (como enxergariam os olhos de alguns boêmios locais).
Fato era, portanto - além do que, por ora, não mais digressões quaisquer se façam oportunas - não se saber se a região era mesmo “morro único”, ou nítida protuberância terrena que constituísse soberania diversa, vez que era costume se usar as “unidades de morros”, como “critério de divisão regional” por motivos inúmeros; sejam os notórios, ou sejam os difíceis de se ver comentar.

Assim, não menos importante que este breve intróito donde o leitor-geólogo poderá ver o copo ou a água (o que melhor lhe aprouver), cumpre agora falar daquele animal - objeto de um sem número de boas novas locais, e que por certo surpreenderá o mesmo leitor saber ser ele, o porco, o verdadeiro protagonista desta história.

Recém chegada a miudeza suína, de pronto se espalhou a notícia de que era fruto de modesta espórtula que recebera a mãe do garoto de um seu tio padeiro. Ao que se dizia, o bem-aventurado doador do animal pretendia instalar panificadora popular próxima ao morro, e, por isso, e “só por isso” – conforme com rapidez grunhiram algumas más línguas - decidira o futuro padeiro presentear com o porco a própria irmã, com quem não falava há anos, dado que, agora, a mesma se encontrava desposada com um sócio-chegado do “Seu José” - o tão assim falado "gestor-maior de interesses" da comunidade local.
Questão de dias se deu para que o animal caísse na boca dos cidadãos da vila. Desta vez, não no sentido de em seus “comes e bebes”, mas em sua incomum e ora exordial simpatia por animais daquela espécie.

“Garantia”
- deram de lhe chamar, pois os espíritos de muitos, sem perderem o bom e pardo humor brasileiro, logo se aperceberam que o animal se tornara mais que um mero “animal de estimação” do garoto; que se tornara praticamente um “amigo de todos”, e que, assim, provavelmente não iria para o forno tão cedo.

Muitas corridas se passaram nas quais Garantia fugia incansavelmente de seu atencioso jovem dono (seja com vigor, ou, como se disse, com mero desespero). O pai do garoto gargalhava como nunca quando via seu querido pivete a amarrar fogos de artifício no animal, divertindo todas as crianças da favela.
Aconteceu que meses e anos se passaram quando, num dado dia, e sabe-se lá por quais oscilações do humor animal, Garantia resolveu contra-atacar: correr desta vez ele, atrás do garoto.
Em repentina surpresa, como acontece com aquelas crianças absolutamente destemidas que caem em si e se intimidam (pela primeira vez) com a ira real e absoluta de um animal enfurecido, começou, desta vez ele, o garoto, a fugir do animal.
Todas as crianças observavam, também surpresas, a inversão do ônus da "prova" (e não com menor deleite do que assistiram nos últimos anos).

O que ocorreu de diferente, porém, e que ora nos leva ao cerne da importância desta particular relação homem-animal (se comparada a tantas outras por aí) foi que, na “fuga-invertida”, o garoto simplesmente tropeçou sozinho pelo infortúnio de um buraco, vindo a abrir a testa na ponta de uma das pedras que ornavam a velha Costa Rica.

Morto na hora! Foi aquele rebuliço. Gritos. Mulheres largando panelas e baldes. Transeuntes largando pertenças para socorrer “filho de gestor de interesses”. Todos se avizinhando ao local do acidente em volta do corpo (senão por “socorro”, “interesse” ou “sacerdócio”, ao menos por mera curiosidade).

O pai do garoto, tão logo informado do fato e da causa, só teve tempo de ir carregar o revólver que desferiu os dois tiros que colheram as nádegas do animal (nada letal), antes que este, com genuína astúcia, conseguisse mergulhar mato adentro.
Depois, foi o pai socorrer o filho.

A importante questão da presente história, leitor, era que Garantia não era um animal qualquer. Fosse um “qualquer”, que se lhe churrasqueasse (por correr atrás de filho de gestor), e pronto! Mas, ao contrário, durante anos Garantia entretera as crianças da favela e, com isso, tornara-se um verdadeiro amigo querido das massas.

Tantas e quantas não são as histórias!
Seguia quermesses com os vira-latas da região; não ligava se lhe tirassem o milho à boca; comparecia religiosamente às missas, cultos, e terreiros locais (diferentemente do Napoleão de Orwell, Garantia não tinha ambição, nem fazia discriminação a ninguém por razão de credo, raça ou origem). Assistia ao truco dos boêmios; fazia companhia às meretrizes; e até mesmo virara tema de pagode local (tal qual o velho boi “Soberano”, das violas de raízes). Havia, enfim, se tornado “um mito”, antes de selar sua sentença de morte.

O que jamais imaginara Garantia, entretanto, era que em sua defesa atuaria a geologia local daquele intróito. A velha geologia do vidro ou da água do copo. A velha geologia do filósofo, do engenheiro ou dos boêmios. Jamais imaginara que, por circunstâncias genuinamente convencionais da “juridicidade do humano”, poder-se-ia ver inocentado ou condenado em chances absolutamente iguais, tão somente em função da hermenêutica de argumentos antagônicos; dependendo, é claro, de qual deles suplantasse o outro.

A questão era que o incidente ocorrera, como se disse, em “linha divisória de favelas”, ainda incerta de jurisdições e suas “medidas competenciais”, carecendo, por isso, de intervenções “internacionais” de “instâncias superiores”.

Sim! Garantia, depois de sua fuga mato adentro, fora, em poucos dias, apanhado em flagrante não muito distante dali, e, ironicamente, por moradores do próprio local (que até lhe queriam bem), dado o óbvio interesse em serem vistos com bons olhos por qualquer gestor de interesses (afinal, nunca se sabe do dia de amanhã).
Para regozijo daquele pai que recém velara seu traquinas, e por seu óbvio maquiavelismo sádico, em um poste de madeira, de ponta cabeça, amarrado com inúmeras voltas de arame, jazia o Garantia, com uma bela placa sobre si que convidava todo e qualquer leitor a um bom chute no tronco ou cabeça (e golpes que pudessem, necessariamente, tirar-lhe bons gritos).

Dada a autoria daquela escultura surreal em arte viva, ai daquele leitor que se alegasse analfabeto. Assim, deram-lhe uns setenta e tantos chutes naquela tarde (tirando-lhe cerca do dobro de gritos). Chutavam-lhe todos que liam a placa e viam, ao longe, o pai do garoto, aos risos, contemplando a cena. Alguns lhe chutavam com força e prazer; outros, tendo de repetir os golpes para que houvesse "gritos" do animal (dada a generosidade inimiga da força no espírito bom de alguns).

Ora, o que gerou, contudo, a grande celeuma que deu origem a esta história, foi o fato de uma das esposas de outro gestor de interesses local trabalhar em associação de proteção dos animais, surtando, aos berros histéricos, ao se deparar com a narrada via crucis do Garantia – um amigo tão querido.

Conflito de jurisdições?
De fato! Logo o morro se apercebeu que algo quente estaria por acontecer: dois gestores de interesses gerindo interesses distintos! Logo o barraco estava armado! Em minutos, duas tribos armadas contra-apontavam-se canos por dentre um landrace de ponta cabeça ao centro (que, por sua vez, enxergava tudo invertidamente, sem saber ao certo por que apanhara, tampouco o que se passava com aquela confusão).

Conflito de jurisdições?
Por óbvio que em qualquer conflito de jurisdição nada se faz mais oportuno que invocar instância superior; donde resolveram chamar o tão falado e já mencionado “Seu José”: pessoa serena, firme, respeitada, e que sobrevivera por ali até alta idade - dizem alguns - tão só pela generosidade de querer gerir seu povo sem auferir quaisquer lucros.
Seu José, por sua vez, ouvindo com serenidade as razões de ambas as partes (que eram precisamente dois braços direitos dos mais leais de sua macro-gestão), não podia atender em plenitude nem a um, nem a outro (mera precaução - "melhor não alimentar para o futuro abelhas que venham nos picar as costas").
Decidiu, pois, elaborar um “pacto” equilibrado de solução do conflito. “Pacto” este que ficou posteriormente conhecido por todo o subúrbio (até chegar à Gazeta Municipal, de onde a história veio a ser sabida), como o famoso “Pacto do Seu José, lá da Rua Costa Rica”.
Sem tardar, como que quase vaidoso pela freqüente publicidade de seu incólume equilíbrio e justiça nas decisões, Seu José, auto-consciente da carência de sua técnica jurídica, mandou chamar um causídico de sua confiança. No caso, não para lhe legar tal incumbência de decidir o impasse, mas tão somente para lhe ajudar a pensar.
Concluiu-se, em consenso, tratar-se de acidente fatídico; explicando, o causídico, não ter havido aí qualquer "dolo" por parte do Garantia, quando muito "culpa" - isso se lhe considerassem "gente", e não res ("coisa"), como não lhe faria o Direito.

No morro, entretanto, Seu José é quem fazia e aplicava as leis; tendo decidido, por bem, que se trataria o Garantia como "gente", posto que havia se tornado um mito carismático local (que inclusive contava com torcida silenciosa, mas numerosa, no ato).
Assim sendo, atribuiu-se-lhe "culpa", e não "dolo", o que permitiu concluir que o animal não devesse ser sentenciado à morte, tampouco à tortura (dado que eram penas muito graves ao delito, sobretudo para um acusado de ótimos antecedentes como aquele).
Decidiu, de outro lado, Seu José, à sugestão do acusador (e também por bem), condenar Garantia à “escravidão”, devendo-lhe, sem tortura, “prestar trabalhos forçados”.

Mas isto, leitor, por ironia do destino, afrontava uma das mais antigas normas da vila: “Na Costa Rica ninguém poderá ser submetido a escravidão ou servidão” - conforme a inscrição do velho poste de número seis.

E o que tornava tudo sobremaneira mais difícil, era o fato de que o porco fora há pouco tido como "gente" e não como "coisa", o que garantia à Garantia o beneplácito de sentença ainda mais branda.

Sentindo os ânimos acusatórios se acalorarem na insatisfação do deslinde da lide, Seu José, num súbito olhar de canto de olho, intimou seu causídico de confiança a oferecer, rapidamente, alguma sugestão legislativa que resolvesse o impasse.

Conversando, pois, em reservado, por alguns minutos: enfim pronta, a solução! Como seqüência textual da placa do poste de número seis, sugerido foi lhe acrescentar um "parágrafo único", que foi imediatamente pichado, por um gari, a mando de Seu José.

Finalmente, novas palavras que nada mais fariam que trazer “melhora interpretativa” ao texto. Assim, foram acrescentadas na velha placa, nos ditames seguintes:
Parágrafo único: não constituem trabalhos forçados ou obrigatórios para os efeitos desta placa: os trabalhos ou serviços normalmente exigidos de pessoa (ou animal) reclusos em cumprimento de sentença ou resolução formal expedida pela autoridade competente. Tais trabalhos ou serviços devem ser executados sob a vigilância e controle das autoridades (ou seus gestores).

Independentemente do mérito de uma norma que se legisla - melhor ou pior tão só em função da maturidade moral de um determinado povo - como é simples, leitor, mesmo nas tribos mais primitivas, a versatilidade solar de se criar subterfúgios instrumentais conciliatórios para se construir sempre na piscina um ralo, e deixar a tampa ao bel prazer de quem lha faz a manutenção. Mas, como foi dito acima, a geologia das coisas por vezes nos abre ralos a nos sugarem para o teatro das improvisações inevitáveis.
Ora as piscinas e os copos estão vazios; ora, em círculos, são os poços artesianos é que nos permitem enchê-las novamente de um modo ou de outro, com filosofia ou ciência, com engenharia ou política.

Resolvida a celeuma da sublevação das alcatéias armadas até os dentes, por sugestão do causídico, entregou-se o animal a terceiro “depositário”, a quem se determinou administrá-lo à perpétua tração circular ao redor de um poço artesiano (de onde o porco tiraria água até o fim de seus dias).

Dois anos depois, o animal que aprendera a correr e divertir a tantos, falecera por razões desconhecidas, donde, não pelo mito (já mitigado), não se privou a vila de fazer consigo um belo banquete circundado a rodelas de limão, e esculpido, desta vez, não com arame, mas com a poesia fálica de uma bela maçã.

Ofertado ao público em almoço dominical comunitário ecumênico (posto que Garantia não tinha discriminação com quaisquer religiões), muitos se refestelaram de sua suculenta carne.

Mas apesar do deliciosíssimo aroma e da geologia da formosa paisagem, prezado leitor-geólogo, algumas crianças, porém, naquele dia, só almoçaram salada de alface.


Terça-feira, Fevereiro 20, 2007

"SANATORIUM"

"SANATORIUM"
F.F.G., Abril/2001.

Um velho professor pára a observar, através de janelas, o comportamento de diversas pessoas num pequeno e belo jardim de hospital.

Sopros etílicos que purificam paredes translúcidas.
Ilustre barreira entre os homens.
Sábios portais da autocompreensão.

- No jardim, pessoas cantavam calorosamente em rodas musicais.

- Alguns, simplesmente quietos, sentavam-se em bancos de mármore, sem muitas reações a demonstrar. Tentavam encaixar peças de plástico umas sobre as outras; para construir objetos.

- Uma menina portadora da síndrome de Adams Stokes sorria ao pentear, com os dedos, uma pequena boneca de pano branca de longos e rubros cabelos de náilon.

- Um magro senhor de cabelos grisalhos cortados à máquina tentava escalar o muro para alcançar o cartaz de uma modelo seminua, que podia ser visto do pátio da psiquiatria.

- Duas senhoras gargalhavam juntas - sem parar - de forma até muito divertida, para o professor que as observava do outro lado da espessa janela de vidro.

- Um jovem procurava desesperadamente pelo irmão, que nunca existiu.

- Um menino tentava ler um pequeno livro vermelho. Porém, nunca virava a página (talvez fosse uma figura que estivesse admirando).

- Por fim, um elegante homem de cavanhaque; finos óculos retangulares discretamente caídos sobre o nariz, e com um olhar que expressava certa intelectualidade. Ele estava mal-humorado a contemplar toda aquela cena, em desaprovação ao que estava “sendo obrigado” a presenciar.


Mas via-se que, naquele momento, ele sequer podia ler os livros que talvez estivesse acostumado no passado. Porque este último homem - diferentemente dos demais - usava camisa de força.

Sábado, Fevereiro 03, 2007

"O PRINCÍPIO DA SOCIALIDADE"

"O princípio da socialidade"
F.F.G., FEV2007.


- Estás com sono?

- Não senhor.

- Nem eu; proseemos um pouco aqui na varanda. Que horas são?

- Duas e meia.

- A festa estava uma delícia! Somos gratos de nos esperarem acordados, além da hospedagem por dias.

- Que é isto, tio! É sempre prazer nosso!

- Enfim, chegaste aos teus quarenta e cinco anos! Há quarenta e cinco anos, do primeiro dia, do quarto mês, do ano de mil novecentos e sessenta e dois, vinhas à luz, ligeiramente prematuro, um pirralho de nada, e estás aí: longos bigodes, pai de três filhos, vários namoros, um bom casamento, duas Câmaras, uma Prefeitura.

- Titio...

- Não te ponhas com denguices e falemos como dois amigos adultos. Desliga este computador a fim de dares maior atenção a teu tio, pois vou te dizer coisas importantes, dentre elas meu testamento. Senta-te e conversemos.

- Claro! Gelo, tio?

- Dois! Agradecido.

- Prossiga, por favor...

- Falava de ti... de teus louros... Formaste família, adquiriste um belo diploma, consequentemente, uma carreira a que se possa chamar “próspera”, etc. Parabéns! “Quarenta e cinco anos” bem vividos, meu rapaz, bela idade!

- Obrigado, tio!

- Mas idade esta que forma apenas a segunda sílaba do nosso destino. Muitos famosos ainda não eram ninguém aos quarenta e cinco anos, lembra-te sempre disto! Afora o número, quaisquer que sejam as próximas sílabas das tuas escolhas, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável. Meu desejo é que te levantes acima da obscuridade comum, só isso, nada além. A vida, Tavinho, é um grande cassino, e os prêmios são poucos, ...ou para poucos. Isto é a vida, pura e simplesmente! “[...]Não há planger, nem imprecar...”, como diria alguém, em algum lugar, mas, tão somente “...aceitar as cousas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.”

- Sim, senhor.

- Entretanto, assim como é de boa economia guardar poupanças e aliados para teus próximos anos, também é de boa prática social acautelar teus desafetos para o ocaso de outras estações futuras incertas. É este o meu testamento para ti: os mais preciosos aconselhamentos para os dias - muito próximos - de tua derradeira prosperidade.

- Creia que lhe agradeço, tio; mas como fazê-lo na prática, me dirá?

- Claro que sim! E é justamente o que aqui ora vos faço; para ti e para os teus! Já que teu pai nem tua mãe cá se encontrem para fazê-lo em seus próprios nomes, assim, vos faço eu mesmo: teu tio, padrinho e amigo querido.

- Pois diga, meu tio...

- De todos os conselhos que estes cinqüenta e dois anos de vida pública me ensinaram, nenhum me parece mais útil e cabido que o “princípio da socialidade”, tal como assim lhe deu rótulo teu avô - meu querido pai, que Deus o tenha – quando meu ensinou lições diversas em meu debute na vida pública, aos meus dezoito anos.

- Tomo ar da escada, mas daqui te escuto, meu tio, prossiga...

- O “princípio da socialidade”, Tavinho, foi a bússola de minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de teu avô, somente nas poucas - mas cruéis - exceções deste tão caro princípio!

- Entendo...

- Nada obsta, porém, a preciosidade da regra geral desta máxima, que é o verdadeiro presente desta conversa, e que é onde estão as esperanças que ora te deposito pela estima que tenho em ti. Ouve-me bem, meu querido afilhado, ouve-me e entende. O “princípio da socialidade” não se encontra nos tomos jurídicos que degustaste nos tempos de juventude; tampouco se explica, senão por entrelinhas, nos clássicos da Ciência Política moderna ou antiga. É, antes, fenômeno psíquico e moral, intrínseco à relação dos homens em si mesmados. Não faças caras! Explico-me! Já reparaste, meu jovem, que todos pertencemos a inúmeros “círculos sociais”, como as inúmeras e pequeninas bolhas de sabão de uma banheira? “Círculos sociais” seriam: a academia, o trabalho, o curso de línguas, as igrejas “ou templos de qualquer culto”, as várias seções familiares ou afins, ou mesmo a habitualidade de determinados restaurantes, ou casas diversas que se freqüenta. Já reparaste a respeito, que, dentro destes círculos, invariavelmente, elegemos três tipos de convivas: 1) os comuns; 2) os alheios; e 3) os mornos? Ocorre, meu caro, que dentro de cada um destes três tipos, inevitavelmente encontramos outros três, de mesmo rótulo e mesma função: seja semântica ou pragmática.

- Curioso...

- Já reparaste, entretanto, meu filho - e é precisamente aí onde se encontra a primeira premissa deste nosso consagrado princípio - que externamente a estes “círculos sociais” as pessoas, inexplicável e caridosamente, promovem-se, umas às outras, em um ou dois graus, daqueles nove níveis?

- Estou confuso, meu tio. Explique-se um pouco mais...

- Claro! É minha intenção... Pensemos! Dentro de cada “círculo social”, as pessoas aos poucos se mostram comuns, mornas, ou alheias à nós.

- Sim!

- Dentro dos “comuns” temos: os “comuns propriamente ditos”; os “comuns-mornos”, e os “comuns-alheios”. Assim, consequentemente, dentro dos “mornos”: os “mornos-comuns”, os “mornos stricto sensu”, e os “mornos alheios”. Por fim, obviamente, dos “alheios”: os “alheios-comuns”, os “alheios-mornos”, e os “reais alheios”. Tudo matematicamente simples. Três espécies dentro de três gêneros, como num arco íris, mas de nove cores.

- Com certeza! Muito interessante!

- Assim é que eu te dizia que quando estamos fora destes “círculos sociais”, as pessoas - sabe-se lá por qual razão - condecoram-se em um ou dois destes graus, aproximando-se reciprocamente no afeto, do alheio ao comum.

- Continue.

- É simples, meu caro. O “princípio da socialidade” empiricamente faz se cumprimentarem as pessoas que habitualmente não se cumprimentam! Sim, este fenômeno existe e em verdade ora me cumpre, por oportuna, a devida elucidação: pessoas que nunca trocam “bons dias”, irão, sim, inevitavelmente, trocar cumprimentos ...desde que ...se esbarrem fora de seu círculo social!

- Como assim, tio?

- Já reparaste o comportamento eufórico daquele colega de classe que jamais te diz um “Oi!”; que jamais te estende as mãos ou sequer te presenteia com um gesto de cabeça (se bobear sequer sabe teu nome), ao esbarrar contigo numa fila de cinema? Tal euforia, fenômeno curiosíssimo, é explicada pelo “princípio da socialidade”! E será porventura, de algum modo, difícil, perceber o incomum arregalar de olhos e despertar de sorrisos deste colega ao, pela primeira vez (ou depois de há muito), resolver te cumprimentar? Faz mais que isso, aliás: apresenta-te a noiva, o irmão, um colega cinéfilo, e até mesmo troca contigo, ainda que brevemente, alguns comentários simpáticos antes de se despedir!?

- Este meu tio! Que figura...

- Ris, meu sobrinho! Mas vejo que ris consultando a memória! Como fiz, com teu avô, certa feita! A vida, aliás, é um saco de risadas, ...uma verdadeira comédia! E não concordas agora, consultando a memória, que, quando alheias a seus respectivos círculos sociais habituais, as pessoas adquirem esfera mais amiga, mais dócil, mais cordial, mais “social”?

- De fato... Numa multidão de estranhos, qualquer “alheio” passa a ser minimamente mais “comum”!

- Exato! Já compreendes bem! Não me negas os genes, maroto! Também de modo análogo, Tavinho, numa multidão de “comuns”, qualquer “comum” possui sob sua cabeça uma espada de Dâmocles, que a qualquer momento lhe pode levar a um nível menos “comum” e mais “alheio”. É o que ocorre quando as pessoas chegam perto demais, umas das outras. Já reparaste que em algumas viagens em turma comuns comumente se tornam alheios?

- O senhor continua a me surpreender!

- Na realidade, meu caro, dizia teu avô que o homem não pode fugir à sua socialidade! “Socialidade”: esta coisa misteriosa que se bifurca na ferocidade e no afeto; que nos traz ou leva; que nos dá ou tira; que nos chama ou expulsa “do outro”; ...assim, tão facilmente. Sim, é claro que as exceções a este princípio se dão, por exemplo, no caso de inimigos capitais, ou comuns íntimos! Quanto a estes antagonistas extremos (declarados ou secretos) não será por estarem na solidão de uma multidão de “mornos” que terão mais ou menos carisma recíprocos, evidentemente.

- Mais conhaque, tio?

- Obrigado! Repara melhor, então, daqui para frente, neste “vai e vêm” de cumplicidades. Repara como é instável o grau do afeto, pela latitude e longitude das personagens! A grande verdade é que a teatralidade das relações sociais tem um certo “fôlego”, meu jovem; tem um certo “respiro” além do qual nossa “socialidade” carece buscar mais oxigênio para o porvir. Isto mostra o porquê de numa festa sermos todos máscaras, e o porquê de numa viagem em turma o ar se acabar. Precisamente porque, aí, “perto” umas das outras, as pessoas vão aos poucos peidando o caviar ou o arroz do dia anterior, e arrotando – agora para fora – a champagne ou refrigerante que tomaram. Não que isto seja bom ou mau, Luis Otávio, mas é assim, e pronto! O que é “bom” ou “mau” não são as coisas, por si próprias, mas o uso que se faz disso.

- Entendo. E como estou eu no “princípio da socialidade”, meu tio? Aproveito-o de forma eficaz em minhas relações sociais?

- O “princípio da socialidade”, Tavinho, não escolhe quem beijar. Beija todos! Beija uns mais, outros menos (e assim por óbvio – como tudo na vida). Fato é que beija todos, indiscriminadamente. É praticamente a Afrodite da “conexão humana”. Veja! Tu és o atual Prefeito da pequenina Chapuaçu do Norte! Sim, Prefeito deste fim de mundo! Desta Dogville dos tempos modernos! Mas se não lograsse algum êxito em tua socialidade não teria chegado onde chegaste, meu filho. Tu és o escolhido dentre alguns, e isto já é algum êxito. No entanto, volto a dizer: não atenta contra tal máxima sacra, e cuida por desenvolvê-la! Bata tuas asas! Conquista o mundo! Leva teus meninos embora desta longitude de tudo e de todos, pois aqui não terão futuro; e o cassino da vida é para poucos, como sabes!

- Tenho pensado nisto, meu tio!

- De pensar sem agir jamais se fez algo! Veja que já te avanças na idade, e tua prosperidade nasce agora. Daqui: à capital! Da capital: à capital! Portanto, meu caro, esquece a briga de teu pai com o Nóbrega; aceita o apoio; sobe o degrau; e caminha para a Câmara. Deixa de lado tua ferocidade, teus princípios, e não te perca dos ventos da sorte, como fiz eu em meu passado, com minha eterna melancolia.

- Mas tio... justamente aí tenho uma curiosidade: se levaste o belo princípio como tua bússola, como então não decolaste?

- Eis aí a segunda premissa do “Princípio da Socialidade”, meu peralta: ganhar fôlego; abraçar a tumba com o sorriso; a piada com o sorriso; a infâmia com o sorriso; pintar o alheio com as cores comuns (sem perder noção da forma). Mas o meu erro, meu caro, apesar de gozar da sabedoria de tal sabedoria, foi abusar da ironia - o que me colocou em alguns holofotes circenses, e desagradou a vários.

- Conta-me!

- De lado com os detalhes! Tudo o que tens a saber é sobre a “ironia” por si só: esse movimento de canto de boca, cheio de segredos e mistérios, “...inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire...”, e entregue a Machado (não era ele, “o irônico”?) - que aliás me dizem ser ele “dos bons”, mas não posso afirmar, pois não passei da página dez do Alienista.

- Não te preocupa, tio! Nem eu!

- Portanto, este é meu último conselho: cuida por não abusar da ironia. Usa, antes, a chalaça! “...A nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mete pela cara dos outros, estala como uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os suspensórios. Usa a chalaça.”

- Que é isto?

- É o sol. Seis da manhã. Entras no começo do fim de teus dias, Dr. Luiz Otávio; estás definitivamente graduado na arte política. Vamos dormir que já é cedo! Rumina com zelo sobre este princípio, meu querido afilhado. Guardadas as proporções, a conversa desta noite vale o Príncipe de Machiavelli. Vamos dormir.[1]



[1] Este conto foi inspirado na “Teoria do Medalhão”, do escritor brasileiro Machado de Assis, em sua memória (http://www.usc.br/edusc/bienalsp/pdfs/t-medalhao.pdf).

Sábado, Janeiro 27, 2007

"CONSTRUÇÃO"

"CONSTRUÇÃO"
F.F.G., Jan2007.


Tem certos dias em que eu penso em minha gente
Mas minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão
Está aprendendo humildemente um batuque diferente
Que vem lá da televisão

Tem certos dias em que eu penso em minha gente
De muito gorda, a porca já não anda
De muito usada, a faca já não corta
Pela varanda flores tristes e baldias
...pode ser a gota d´água

Tem certos dias em que eu penso em minha gente
Que inventou esse estado
E inventou de inventar toda a escuridão
Que inventou o pecado
E esqueceu-se de inventar o perdão

Tem certos dias em que eu penso em minha gente
Que aqui sambaram nossos ancestrais
Vão viver sob o mesmo teto até que a morte os una,
até que a morte os una...
...pode ser a gota d´água

Tem certos dias em que eu penso em minha gente
Levou os meus planos, meus pobres enganos
Os meus vinte anos, o meu coração
E além de tudo me deixou mudo um violão

Devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu
Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade, uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde
...pode ser a gota d´água

Tem certos dias em que eu penso em minha gente
Mas na manhã seguinte não conta até vinte te afasta de mim
Pois já não vales nada, és página virada
Descartada do meu folhetim

Eu sou apenas um pobre amador apaixonado
O que será que me dá?
Que me perturba o sono?
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

Não me leve a mal, me leve apenas para andar por aí...
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza de desinventar
Como vai proibir quando o galo insistir em cantar?

A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu

E a sombra de tudo que fomos nós
Como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
...e o dia amanheceu em paz



Sexta-feira, Janeiro 12, 2007

"SENHORITA NATIVIDADE"

“Senhorita Natividade”

F.F.G., 2007

Já não se sabe se eram dous, três, ou quatro, contos de reis - apenas que alguns: o valor de um bolero; de um ano de bonde na linda São Paulo; do instrumento do artista de rua que declama alguns versos buarques, bem como, no presente caso, do pires de Senhorita Natividade, que não se sabe como lhe escorregou às mãos a abraçar a quina de uma mesa da sala, espicaçando-se em pedaços, dos quais se perde a conta.

Primeiramente: não, caro leitor! Quando aqui se fala em "Natividade", não pretende incorrer em plágio machadiano este nada insigne e ora criativamente "nati-morto" narrador.

Tampouco pedantismo ou pretensa altivez, a grafia pretérita e desatualizada de alguns numerais, que ora nos servem paradoxalmente para a construção do retrato “do humano” não em tempos d´outros séculos, mas em sua reprografia do agora, destes tempos vindouros, futuros.

Porém, é preciso compreender, cara leitora - tu que poderás ver aqui se te assemelhas ou não à Senhorita Natividade deste texto - que, por vezes, substancial diferença se vê nas conseqüências da escolha do formato de um pincel, quando se pretenda na tela não exprimir o espaço, mas o tempo; quando na tela não se pretenda dar tons à forma, mas à sensação; quando pouco importe o substantivo, mas sim os advérbios subliminares.

Portanto, antes da breve narrativa propriamente dita, carecem estes breves esclarecimentos para que não se arremesse o datiluscrito ao cesto virtual, como faria este narrador com sua própria obra se já de início lhe adviesse, sem escusas ou humildes licenças, o pedantismo pérfido de se plagiar, sem motivos justificáveis, o grande mestre da escrita brasileira.

Não! "Senhorita Natividade" no presente conto não coincide com "Dona Natividade" machadiana, lá da "gente Santos", mãe dedicada de Pedro e Paulo, de “Esaú e Jacó”.

Ora, é claro que não se pode negar que, em muito, ambas as "Natividades" sejam a mesma pessoa, pois, mesmo que corram os séculos as mangueiras continuam a gerar mais mangueiras e as pedras mais pedras.

Esta Natividade-bisneta traz consigo, de fato, algumas características novas, como é próprio de toda a aritmética da genética de populações, mas o que cumpre ao momento não são as diferenças, e sim as semelhanças.

Similarmente casta, pelo que sempre se pôde dizer “de família”, e orientada nos ditames dos bons valores da Santa Igreja, Natividade-bisneta, tal como a ascendente, goza posição de destaque na sociedade em relação às colegas de mesma idade (e assim também incorpora o seu “papel social”).

Destaca-se pela beleza, pela ternura (talentos ao piano, como Flora, lá da gente Batista) ou pela sagacidade da beleza de alguns olhares ingenuamente dissimulados de Capitu. E se destaca mormente por ser, tanto para a sociedade quanto para a consciência de si própria, aquela boa moça que virá compor família a dar bons frutos à terra.

Claro que aqui não cumpre a reflexão do fato de a bisavó machadiana ter gerado, ou não, "bons frutos" naquela obra. Isto é objeto de outra reflexão.

Por ora se sabe que tanto a bisavó quanto a bisneta tiveram, ambas, demasiada responsabilidade social com os papéis que lhes foram impingidos em face ao instinto humano intrínseco às suas almas. E aqui me refiro àquelas potencialidades internas que a natureza lhas possa, ou não, "permitir controlar", independentemente da prudência e da razão.

"- Ora, qual será o propósito da alegoria romântica das histórias de todos nós?" – argüiu-se, num súbito instante, não "Natividade-bisneta", mas uma coruja.

Sim, guarda por não te espantar, leitor, quando de uma obra inicialmente "não-ficcional", acabares rindo discretamente, "de canto de boca", pensando que "uma coruja não pensa", pois muitas vezes alguns objetos animados – e mesmo alguns inanimados – chegam a pensar mais que as pessoas.

E sobremaneira pensava esta coruja, in casu, que através de uma janela, do galho de uma aroeira, contemplava serena o desespero humano diante de pedaços de um pires ao chão. Mas logo de pronto, ela, a coruja, com pouco esforço, obteve a si mesma, resposta da própria pergunta!

Qual o propósito da alegoria romântica das histórias de todos nós senão o auto-retrato de nosso papel?

E a precisa questão, que muito além dos pedaços de porcelana francesa enxergava a coruja, era a quebra e o desvio desta nossa protagonista Natividade-bisneta de seu “papel social”. Desvio que jamais a faria a mesma pessoa. Algo que viria transformar sua vida por completo. Desvio que ela própria outrora juraria não acreditar possível (que juraria, por deuses, se preciso).

Mas para se continuar a empreitada de se tentar entender o coração desta nossa Natividade, será preciso, no entanto, antes entendermos brevemente "Alessandro".

"Alessandro", em seu “papel social”, seria aquele “virtuoso” a quem outrora as grandes famílias apresentariam às raras "Natividades" (naqueles tempos, menos vezes por "virtude" que por "genealogia").

Alessandro, em comparação à Natividade, era quase que... digamos... seu "verso no anverso", isto é, assim como nossa citada personagem, Alessandro nada mais era do que filho de seu próprio tempo e de suas próprias potencialidades (sejam suas potencialidades intrínsecas, ou sejam as socialmente interpretadas como tais) .

Hoje, culturas mudam. Varões de cabelos longos. Senhoritas de cabelos curtos. E, por certo que as culturas mudem, mas - como se verá - os modos não, pois as pedras continuam a gerar mais pedras.

Hoje, entretanto, diferentemente de outrora, Alessandros e Natividades, pelas convenções liberais de nossos tempos, não mais se entregam aos caprichos das verdejantes decisões estratégicas de famílias. Pelo menos assim o dizem as leis, a jurisprudência, a doutrina, e os princípios gerais do Direito (bem como os modos e costumes, bons ou maus).

Hoje Alessandros e Natividades se escolhem quase que livremente.

Antes de se escolherem, no entanto, primeiramente se conhecem; identificam-se; gostam-se; amam-se. Conseguintemente, contraem namoro.

Muitas vezes "trocam namoros". Tantas quanto preciso para, por volta dos trinta, por convenção social remanescente - ou instinto, quem sabe - escolherem amar “de vez” seus concupiscentes imediatos para, aí, por fim, se casarem.

Tudo, leitor, como se viu e como se vê, em culto à tradição dos vindouros frutos da terra.

E foi precisamente assim que "Senhorita Natividade e Alessandro-de-hoje" se enamoraram: acreditando no futuro de ambos e nos bons frutos de nossa terra fértil e sacra.

Ia ainda dizer a coruja, letrada em Leis que também era (além de em Filosofia, Artes, História e Literatura) que o casamento nada mais é que “um contrato de monogamia entre seres poligâmicos”.

A velha suindara freou-se, entretanto, antes da auto-censura pela insensibilidade e realismos demasiados de tal definição céptica e em nada romântica, mas não conseguiu saber se acertada seria: a censura, ou a definição.

Não que a complexidade do instinto humano só se visse agora, em tempos atuais. É que "agora" as cousas simplesmente se passam de modo diverso: mais livre, leve, e solto.

"Natividade-boa-dama" e seu marido Santos (machadianos), e "Natividade-boa-moça" e "Alessandro-de-hoje" (deste nati-morto) em nada diferem enquanto espírito. Regem-se por bons valores, princípios e sentimentos até que porventura lhes ocorra o trovão das potencialidades internas, que podem vir a levar novamente ao pó o fruto outrora vistoso.

E assim é que o presente conto é levado a cabo.

Só o que se passara dos fatos (fatos estes, aliás, que para o leitor atento acertadamente sequer ocorreram, podendo, este conto, por suas descrições e narrados, ser reproduzido numa foto), e que levou Natividade a destruir ad eternum a porcelana francesa herdada daquela estimada bisavó (também num átimo levando a coruja às suas reflexões habituais), fora, tão somente, a circunstância de a boa moça se auto-flagrar em desvirtude de pensamento (cousas de sua solidão interna, inexorável aos homens, genuinamente insatisfeitos, tal como o somos desde Pandora) – ao admirar os contornos e a elegância de um lindo rapaz de cabelos curtos, que vinha, à distância, pela Alameda Santos.

Mas na piracema dos romances a ironia de qualquer conto, caro leitor, parece sempre ser a mesma: a inexistência dos fatos tais quais são, por si próprios, mas sim de como são vistos daqui ou d´alhures.

Soubesse a alma de Natividade que o rapaz que se despedia de uma bela moça e descia a alameda era o seu próprio futuro esposo Alessandro (agora de cabelos cortados - d´antes longos) não teria ruborizado, diminuído sua louça, descoberto um pouco mais sobre os labirintos da complexidade humana, nem feito a coruja pensar.

Quarta-feira, Janeiro 03, 2007

"POR QUE ESCOLHI O OSMARZINHO?"

"POR QUE ESCOLHI O OSMARZINHO?"
F.F.G., 20/11/2004.


Como outrora me haviam perguntado o porquê de minha predileção por Osmarzinho, é que decidi responder-lhes o que faz um jovem varão, a certa altura da vida, preferir o mendigo ao fidalgo; o bruto ao cortês; e, deixar de preferir o palácio ao cortiço.

Em verdade vos digo, a vós que ainda conservastes vossos gargalos desnudos de echarpes de seda, e que ainda não optaram por Osmarzinho em detrimento a Clésio, Dalmo, ou Rubens, que o escolhi não por critérios dos mais freqüentes que se encontra na escolha de um amigo, mas que o fiz pela forma com que corta o pão.

Sim, de certo não é costume dos nossos escolher alguém para amigo pela forma com que corta o pão. Confesso, porém, que não pude deixar de reparar na beatífica maneira com que o vi lidar com o alimento; sem agredi-lo, sem desperdiçá-lo, e sem deixá-lo aos ventos quando restante.

É de se notar quando alguém, nos dias de hoje, cobre o pão com aqueles panos bordados feitos pelas avós para proteção do alimento logo após o consumo.

E de certo pude reparar que isto ele faz: lidar com o pão na hora da ceia de maneira ímpar e sacramental.

O procedimento em si é simples: partilha-o em partes iguais, serve-o aos amigos; come por último.

Escassa memória, a minha, que não me permite lembrar a última vez em que vi alguém servir aos outros antes de si. Tamanhas as pilhérias que ocupam nossos colegas a ponto de se embriagarem nos próprios risos e esquecerem gentilezas de se servir o vinho primeiro ao copo alheio; das damas aos homens, dos velhos aos jovens.

Osmarzinho não é daquelas pessoas a quem importam disputas para que lhe apadrinhem seus filhos, porque Osmarzinho não tem pecúlio. Pelo contrário, é pessoa modesta, de posses de pouca monta. Graduado, mas trabalhador. Igual à média.

Ademais, com seu ímpeto peculiarmente imprudente, por vezes desperta alguns risos – tocando - com poucos modos (apesar de espontâneos), suas paródias desconhecidas, à viola que sempre traz consigo.

Digo-vos, que é Osmarzinho sem pecúlio, que quero a parodiar em minha janela, sem que precise me preocupar com o fisco que abraçarei se aceitar apadrinhar os filhos destes fidalgos que nos riem dia e noite, se formos ter com Osmarzinhos.

Digo-vos, sem hesitar, que é Osmarzinho sem pecúlio (e que cobre o pão) com quem quero tagarelar numa varanda, em minha velhice; porque às vezes, sim, diz tolices, mas que está limpo destes estratagemas políticos dos relacionamentos sociais. Porque de certo deve cometer alguns dos pecados capitais, afinal, Osmar é humano e de carne docemente fraca, mas que está limpo da inanis gloria que corrói os homens ao verem que um amigo triunfou num emprego, ou que triunfou com uma garota.

Osmarzinho é quem escolho porque, apesar de ser motivo de risos por parte dos fidalgos, por cobrir o pão (e ter sotaque, aliás) é ele pessoa que valoriza a amizade. É pessoa que valoriza a amizade mesmo com recíproca desproporcional (porque, para ele, isto é amizade).

Escolho Osmarzinho porque é ele humano, e erra, e vê que todos também o são, e erram, mas que procura perdoar; procura perdoar porque, como um dia disse um mestre: in praeteritum non vivitur.

Ocorre que, no dia de hoje, Osmarzinho fora preso. Aliás, fato este que me fez escrever esta crônica substancialmente inútil. Preso, “apanhado em flagrante”.

Uma jovem viúva, mais jovem que ele, na fila do teatro, tirou-lhe a vez. Tentou fazer justiça de modo elegante: orientando-a ao início.

Não obstante os bons modos - na visão da viúva - ofendeu-lha.

Em seguida, com ambos veio ter um oficial, conhecido da viúva. Na visão do oficial? Ofendeu-lhes.

Furtara um lugar, numa fila, de uma jovem senhora, e desacatara uma autoridade. “Canalha!” Preso em flagrante.

Digo-vos, gargalos desnudos, que o escolho, ainda assim, porque sei que está ele ingenuamente imerso nesta nossa vã condição de cegos da ignomínia que nos cerca.

Escolho-o porque, para Osmarzinho, não há nada melhor do que uma mulher íntegra de quadris largos e seios fartos; nada melhor do que um bom vinho, um cordeiro girando ao fogo, uma roda de violão. Aprecia ele a boa música; pão italiano feito em casa; falar o que se pensa; e a palavra cumprida que um homem dá ao outro em compromisso.

De certo deva saber (ou talvez não) que quando voltar à liberdade, ainda haverá risos; sonoros risos (ora honestos, ora hipócritas - porque o homem continuará a existir e a ser como é), mas Osmarzinho é pessoa daquelas que ainda não aprenderam as regras dos homens.

Ignorante nas regras dos homens, sim, mas é pessoa, simples pessoa, que, preso ou solto, insiste, beatificamente, em partilhar o alimento, cantar suas paródias, e a cobrir o pão.


Quarta-feira, Dezembro 27, 2006

"E ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE..."

"E ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE..."
F.F.G. (publicada na 2a Edição do Jornal O Leão, 2004).

Os ratos, aqueles pequenos mamíferos roedores de dentes talhados em cinzel pertencem, na verdade, à família dos camundongos, Muridae.

Distribuídos em cento e vinte espécies, os mais conhecidos: o rato preto e o rato pardo, pertencem ao gênero Rattus. Comparado ao preto, mais manso, o rato pardo é bravo e agressivo. No entanto, tanto os pretos quanto os pardos vivem em grandes grupos (constata-se que sempre alguns ratos dominam os demais).

Costumam viver sob os soalhos, dentro das paredes, em montes de lixo ou no solo. Se acontecer de duas espécies habitarem o mesmo prédio, elas irão acabar, inevitavelmente, segregando-se em regiões ou pisos específicos (geralmente os ratos pretos habitando os pisos superiores, e os pardos, o térreo).

E a natureza em moderato os contempla; lívida, dinamicamente inerte, dançando em sua esplêndida ironia.

Todos têm caudas finas e escamosas, e garras compridas e afiadas. Os pretos chegam a pesar cerca de trezentos gramas e medem de dezoito a vinte centímetros. Orelhas grandes, focinho pontudo e pêlo macio são algumas características gerais; porém, somente os pardos - conhecidos por “ratazanas” - podem medir de vinte a vinte e cinco centímetros, e pesar meio quilo.

Portadores de germes e doenças, dentre as quais a peste bubônica, intoxicação alimentar e tifo, os roedores da família Muridae também prejudicam plantações de cereais e rebanhos. Por outro lado, há de se lembrar serem extremamente úteis ao homem, por servirem de cobaias em valiosíssimas pesquisas científicas.

Apesar do pêlo macio (e aspecto meigo e doméstico de alguns) os ratos se alimentam de toda espécie de animais ou plantas (até mesmo da carne de ratos da mesma espécie). Para a alimentação, têm hábitos noctívagos; e algumas vezes se organizam em bandos para atacarem pequenos animais.

Além de transmitirem doenças, às vezes os ratos também podem atacar o homem (inclusive crianças de berço). No combate aos roedores, os homens – por sua vez - utilizam veneno, ratoeiras, ou alimentos anticoncepcionais. Porém, cautelosos que são, e com seu olfato apuradíssimo, muitas vezes os roedores acabam por fugir rapidamente do perigo.

A maioria deles vive em áreas que não podem ultrapassar quarenta e cinco metros de diâmetro, mas na escassez de alimento, podem percorrer longas distâncias.

A maioria acasala-se durante o ano todo; e as fêmeas têm de três a seis ninhadas anuais (a genitora cuida dos sete a nove filhotes até a terceira semana do puerpério). A maioria não ultrapassa o primeiro ano de vida em seu habitat natural. Têm muitos inimigos, como: gatos, cães, gaviões, corujas, cobras e doninhas; em cativeiro, entretanto, podem viver mais de três anos.

A maioria caminha sobre quatro patas, mas tem habilidade para caminhar com duas, lidando com os alimentos com as mãos.

Todos comem, bebem e acasalam-se.

Auto-preservam-se, atacam-se e auxiliam-se.

Selecionam-se, lideram-se.

E convivem, convivem no esplendor e na sacralidade desta sua natureza impudica. Como se levíticos em pentateucos naturais nos pudessem representar a grandeza da razão das coisas.

Dez ratos! Muridae. R.Rattus. Quarenta e cinco metros de diâmetro num décimo andar!

Rachmaninoff, piano concerto Nº 2 in C min, Opus 18, moderato.

"You´ll see the sun come shining through for you"

Eis a imagem! Eis a sinfonia. Eis a canção.


Terça-feira, Dezembro 19, 2006

"PENAS FLUTUANTES"

"PENAS FLUTUANTES"
F.F.G. (publicado na 1a edição do Jornal O Leão, 2004).

Sabe, eu nunca entendi direito algumas coisas. Nunca entendi por que algumas coisas simplesmente acontecem.

Acontecem assim, de repente, sem explicação.

Nunca entendi por que é que algumas perguntas ficam sem resposta. Simplesmente sem resposta. Assim, no ar, em suspenso: como uma pena branca, que dança incerta pelos ares. Sem razão, sem destino.

Lembram dos alunos subindo com os pés nas carteiras, naquele filme “Sociedade dos Poetas Mortos”? Então, por que não fizeram isso juntos, ao invés de um por vez? Aliás, nunca entendi também o como podiam estar mortos, os tais poetas. “Capitão, meu Capitão!”

Também não entendi aquela história em que o Alfredo, depois de cego, contou ao Salvatore. Aquela em que estavam sentados na escada de uma porta! Do guerreiro, que no nonagésimo nono dia de espera levantou-se e abdicou ao amor da princesa que o esperava. Só restava um dia de sacrifício (bom, até o próprio Alfredo não entendeu, isso me conforta).

É, realmente, são muitas as coisas que não entendo! Por exemplo:

Qual o significado do campo de golfe em “Um dia de fúria”? Por que o hotel estava “vazio” em “O Iluminado”? Por que o nazista era gay, o gay era homem, a pervertida, virgem, e o tímido, seguro, em “Beleza Americana”?

O que levou o personagem de Richard Gere investir sentimentos na prostituta de “Uma linda mulher”? O que levou a outra meretriz a sacrificar-se por Bill, em “De olhos Bem Fechados”? (Fucking swordfish! Grande Stanley!)

Qual é a semelhança entre “Matrix” e “Uma Mente Brilhante”? Quem foi - e por que optou pela mendicância - aquele velho que escreveu o melhor dos romances, cujos méritos ficaram com o personagem Onoff, interpretado por Gérard Depardieu, no filme “Uma simples formalidade”?

Por que não existem adultos com a amizade de Gordie, Chris, Teddy e Vern, de “Conta Comigo”? (E por que morrem cedo justamente aqueles que tentam separar brigas?)

Valeu à pena Papillon comer baratas pelas tentativas de fuga? Valeu à pena Rudy Rottinger ser erguido em campo depois de ter participado tão somente dos segundos finais de uma partida de futebol americano? Valeu à pena a renúncia ao orgulho num despedaçado mês de abril? Vale à pena trocar uma criança por uma televisão e depois se arrepender?

Realmente, todas estas perguntas me parecem sem resposta. Realmente, é difícil.

A vida, é difícil.

“A vida é bela” - diriam alguns.

E de fato ela é, mas não só isso.

“Quem está certo: o tenente Dan, ou a mamãe”? - você ainda acredita que sejam ambos, Forrest?

Todas estas perguntas me fizeram calar durante esses anos. São perguntas que se sabe as respostas, mas não se responde.

Não sei. Não sei colocar no papel a fórmula do KWAN de Jerry Maguire. Ou como fazer uma pessoa compreender, fora de uma situação extrema, o valor de uma amizade ou da gratidão; tal como o padrinho tentou fazer Bonasera compreender, no casamento de sua filha Constanza Corleone.

É difícil explicar. Difícil falar sobre tudo isso. Difícil explicar o significado da pedra de vidro vulcânico que o personagem de Morgan Freeman foi procurar no final de “Um Sonho de Liberdade”.

E é por isso que eu, em minha condição de expectador deste mundo esplêndido, fico aqui, a perguntar, e perguntar, e perguntar...

A querer saber por que a vida é como uma caixa de chocolates. A querer saber como um cego pode dançar “Por una cabeza” de forma tão magnífica. A querer saber “o que vamos levar”, da música “Wise Up” do filme “Magnólia”. A querer saber como o personagem lúcido de Nickolson fez o Chefe falar em “Um estranho no ninho”. A querer saber por que Spielberg fez o garoto abaixar pra pegar o aviãozinho no “Império do Sol”. Por Deus! Desde minha infância quero saber o porquê aquele garoto quis pegar o avião.

Hoje começo a compreender parte do todo. E começo a querer definir a vaidade, a luxúria, a honra, o orgulho, a glória, o esplendor, a vida, a vingança, a tragédia, a comédia, a guerra, o ódio, a amizade, o amor...

o coração de um voluntário.

Mas continuo, aqui, a viver os meus dias. Sem respostas pras perguntas. Sem definições, nem fórmulas.

Sentindo o devir. Sem razão, sem destino.

Como Alfredo e suas perguntas.

Como Gordie e suas histórias.

Como uma pena branca, que dança incerta nos ares.

Domingo, Novembro 12, 2006

"TOLAS PAIXÕES"

"TOLAS PAIXÕES"
F.F.G., 27/06/2002.

Por que as pessoas morrem numa floresta?
Morrem de vergonha!
Vergonha de não saberem onde estão.
E morrem porque lutam,
não variando o lutar.

Por que as pessoas morrem?
Morrem a cada dia que levantam para fazer o mesmo.
“Mais do mesmo”, sempre o mesmo.
O fútil, o tênue, o medíocre, o cíclico.

Por que as pessoas morrem?
Porque se cansam; se cansam da rotina,
do torpor, da ausência do novo.
Cansam-se do belo, que, sempre belo, belo deixa de ser.
Cansam-se do caminho único, das mesmas coisas,
das mesmas histórias.

Histórias tão contadas...
que expressam sempre o caminho, a luta, o êxtase.
Nas mais diversas formas, e cores, e sons.

Tolos, os homens.
Ébrios dos próprios vícios.
Morrem na busca, no esforço,
na nobre ausência poética da arte.
Ausência?

Tolos os homens,
Que se cansam de tanto cansar.
Morrem quando o corpo sucumbe, e se esgota, e se esvai;
Corpos lascivos, estes, os seus, os nossos;
que morrem de tanto beber da mesma água
e comer do mesmo pão morno e sem gosto.

De que vale a vida, então, se o ciclo é eterno?
E as pessoas tolas?
Tolas do orgulho, da falsa dádiva,
da vaidade que as assombra!?
Tolas em suas próprias prisões culturais!?
Tolas porque leitoras dos próprios poemas!?
Tolas do próprio escárnio!?
Tolas das próprias paixões?

De que valem as pessoas pelo seu corpo?
De que valem as vidas?
Se é que, impanteísticamente, no plural existem?
Qual a resposta? Ou a direção e o sentido?
Talvez a própria luta?
E lutamos, nós, pelo novo?
Ou pelo falso novo?
Por que é que as pessoas morrem numa floresta?

E há razão mais exata que a ignomínia?

Porque têm tudo, e nada.
Porque estão, e não estão.
Porque sabem, e não sabem.
Porque lutam, sentem e buscam...

Lutam, sentem e buscam, mas não mudam.
E se cansam de tanto lutar.

Sábado, Outubro 07, 2006

"LÍVIA"

"LÍVIA"
F.F.G.., 06/10/2001.


Caminho entre as alamedas estreitas,
um pouco sozinho no momento.
Sento um pouco, ainda tenho tempo.
Certa inquietude faz com que me levante
e sinta a necessidade de ir a algum lugar,
Um lugar que não sei ao certo onde, como,
Nem por quê, e nem o que lá fazer quando chegar.
Pessoas, cafés, bares, cantinas, vozes...
Tenho a sensação de que
Ao sentar numa das pequenas mesinhas redondas
Novas faces me observam...
Observam-me de forma:, ora singular, ora indiferentes...
Talvez estejam perguntando:
‘- Quem será este? É novo por aqui!!’
Ou na verdade estejam apenas dizendo:
‘ – Sai da frente, cara!!’
O mundo é estranho!!
Estranho, não obstante belo!
Belíssimo, eu diria!
Os sentimentos, a razão. Às vezes penso o quanto somos,
E o quanto simultaneamente não-somos
Sozinhos dentro de nós mesmos.
Pensamos sozinhos, sentimos juntos.
Ou seria o contrário?
O tempo passa, assim como as folhas caem no outono,
Deixam a primavera, e simplesmente se vão.
Cada um toma seu destino, as vidas continuam.
Acerto a gola do meu sobretudo preto,
Para que assim possa me proteger da fria brisa,
Que furtivamente me congela a pele desprotegida.
Não vejo mais o que fazer.
Compro um cappuccino?
Sim, compro um cappuccino!!
“Aqueço este nosso corpo,
Apreço a esta nossa alma.”
Talvez seja, mesmo que simples,
Um dos mais freqüentes refúgios humanos:
Saciar nossa sede!
A sede em sua forma mais simples, mais física.
Talvez seja o princípio da tentativa
De se saciar uma sede ainda maior,
E muito mais importante:
A sede de vida que minha alma tanto procura.

Na mesa ao lado,
uma menina d’uns três anos de idade pára, olha,
E começa a me observar.
Fita-me sem qualquer pudor ou vaidade.
Vejo que está ingenuamente desprovida
de quaisquer jogos, atos ou tomadas.
Nossos extraordinários teatros sociais.
Excepcionais teatros da vida.
Por até mais quantos anos?
Observa-me pouco discretamente,
enquanto o vento sutilmente despenteia
seus lisos e distintos cabelos claros.
Despenteia-os, repenteia-os; ao acaso, ao destino.
Brisa escassa, divinamente aprazível.
Posso vê-la me encarar com um olhar terno, doce;
por vezes até com certa ingênua-malandragem.
Incrível é o como aquele olhar consegue me passar
toda a força de espírito que todos gostaríamos de ter.
Penetra-me a alma, e me faz percorrer
- em poucos segundos -
a dimensional e quase invisível
linha da universalidade de Tolstoi.
“Quereis ser universais?
Cantais a vossa aldeia.”
Nenhuma palavra, ou quaisquer formalidades.
Nenhuma canção!
Implícito e ousado convite indiscreto (de fitá-la também).
Convite simples, sincero.
Sem quaisquer julgamentos.
Sem qualquer vaidade, malícia, orgulho ou interesse.
Quero algum dia poder viver
nos famosos jardins de mármore branco.
Naqueles onde as folhas e flores curvam nos ares.
Quero viver, mesmo que por apenas um minuto,
nestes brancos jardins, cheio de pessoas,
mas longe dos homens.
Onde as crianças cantam em rodas musicais,
e brincam de serem grandes com seus jogos mais puros.
Se nos falamos?
Nenhuma palavra!
Somente sorrisos.
Não sei seu nome, jamais saberei.
Mas que nome poderia receber criatura
Em tão nobre grau de paixão pela vida?
Nomes.... Significados...
“Palavras, Palavras, Palavras”, diria o anglo poeta.
Chamarei-a “Lívia”.
Mesmo que seja este, o seu meu nome.
Pouco me importa seu verdadeiro nome!
Mesmo porque, de que valem os rótulos?
Tomo um gole do delicioso chocolate líquido.
Coloco minhas coisas ao lado,
De modo que possa descansar meus braços fatigados.
Mesmo que somente por um breve instante.
E até que me sinta forte novamente
para continuar esta “pequena” jornada!
Vejo o sol, o céu.
Os raios parecem desenhar nas nuvens
exatamente o que penso.
Uma imagem.
Ou uma lembrança?
Onde estão todos agora?
O que será que faz o mundo exatamente neste instante?
Meus amigos, onde estão?
O que será que pensa ela, neste momento?
Será que também tenha parado o que estava fazendo,
Justamente para pensar ou observar algo assim,
Como uma lembrança?
De repente, vejo-a retirar um lírio do arranjo floral
Que tínhamos ao centro de cada mesa.
Corre então em direção à minha.
Seus pais? Observam.
Estáticos, mas atentos,
Ao presenciar tão inusitada situação.
Vejo-a, ao meu lado, tranqüilamente a colocar o lírio
Próximo à minha xícara.
E tomando um certo cuidado para
não amassá-lo demais.
Em seguida volta ao abraço dos pais.
Ambos tomam a filha no colo, e me observam surpresos,
Sorrindo em cumprimento.
Eu?
Atônito. Imóvel!
Retribuo o cumprimento também com um sorriso
E com um daqueles tradicionais gestos assertivos
Que fazemos com a cabeça.
Será que ela teria, de fato, parado o que fazia;
para observar, justamente em mim,
algo assim como uma lembrança?
Que lembrança, então, seria esta?
E por que fui, exatamente eu, o escolhido?
Atuo por alguém especificamente?
Ou por todos nós?
O mundo é realmente estranho;
belos mistérios.
Instável, diga-se de passagem!
Digamos que sua monotonia agitada seja a principal razão
desta agitação monótona em que vivemos.
Não espero compreendê-lo ao todo, tolice!
Não há tempo para tanto!!
Gostaria apenas de sentir, ao meu tempo,
o que ele tem de melhor...


Quinta-feira, Setembro 07, 2006

ENSAIO: "IRMANDADE ANÔNIMA"


ENSAIO:
"IRMANDADE ANÔNIMA"
F.F.G., JULHO/2001.

SINOPSE:
Em Irmandade Anônima, o "leitor-internauta-curioso", ávido pelo conhecimento da estranheza da psique alheia, deparar-se-á com um profundo mergulho na intimidade - não do autor da presente obra - mas sim da personagem José Pedro, cujos inquietantes pensamentos digressivo-filosóficos que se verá, tiveram início durante uma festa à fantasia para a qual fora convenientemente convidado.
Tudo em uma analítica, crítica - e muitas vezes poética - conversa consigo mesmo.

O enredo se dá quase que completamente durante a festa: local em que o narrador-onisciente-em-primeira-pessoa acaba por conhecer e se integrar a uma ordem secreta que busca atingir a perfeição humana.

A profundidade em que o personagem entra nos objetos, nas pessoas, e nos valores da vida, nos mostra o evidente monólogo interior do presente texto, desnudando desde o lado “hipócrita, fétido, e podre” da sociedade, às mais “nobres e pueris essencialidades” da vida entre os homens.

Irmandade Anônima é para ser lido e "apreciado" por aquele indivíduo que já esgotou todos os romances de sua velha estante; pois não é obra indicada por grandes nomes ou "magos" da mídia; não traz consigo citações elogiosas de grandes jornais ou revistas; e já fora recusado por duas editoras, que, "...apesar de acharem a obra muito interessante, já estavam com suas pautas de pretensões editoriais preenchidas".

Aos fieis admiradores de desconhecidas entrelinhas críticas e irônicas que insistirem em avançar à esta sinopse, adverte-se-lhes, de plano, que, na presente leitura, nada mais encontrarão que a secreta e ininteligível poesia existente dentro do silencioso pensamento humano.

“Sim, eu! O louco!
O tolo!
A cobaia!
Hoje eu sou herói!
Mesmo que morto, mesmo que louco,
mesmo que na mais plena, áurea,
e inabalável doce licantropia do meu ser”.

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SUMÁRIO:
Capítulo 1 - Cobaias Científicas
Capítulo 2 - O Jantar
Capítulo 3 -
As Essencialidades Humanas (Primeira parte)
Capítulo 4 - Baile de Máscaras
Capítulo 5 - Julgamento
Capítulo 6 - Hiperalgia
Capítulo 7 - Homens honestos
Capítulo 8 - A Festa
Capítulo 9 - A Porta e a Infância
Capítulo 10 - A Ordem
Capítulo 11 - A Saga de Astrid
Capítulo 12 - Egocêntricos
Capítulo 13 – A Noite
Capítulo 14 – Médicos de Egos e de Corpos
Capítulo 15 –
As Essencialidades Humanas (Segunda parte)
Capítulo 16 – Lobos da Eternidade




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Capítulo 1 –
COBAIAS CIENTÍFICAS

Ilustre taça de vidro esverdeado. Champagne. Pequenas folhas de louro saboreadas à luz da sorte. Uma estima por futuros prósperos. Ternos finos. Alvos vestidos com cortes ditados à regra da constante mudança: à regra do consumo (da transferência do negociável poder em suas contas bancárias).
Eu? Quieto, franzino! Penso por um instante: nas garrafas de champangne, nas pessoas que dançam (algumas belas, outras não). Penso no blazer que a mim foi emprestado ao entrar nesta festa alegre. Alegre e, no entanto, hipócrita, ao menos em parte:

- Aceita carpaccio, senhor?
- Mais tarde, obrigado!

É claro! As línguas sempre se misturaram. Constróem nada mais que neologismos, umas para as outras, de modo a servirem de alicerce à constante mudança.
É notório como o novo sacia nossa sede! O "falso novo", ou mesmo o "novo verdadeiramente novo"! Até mesmo o "arcáico" quando, por isso, faz-se diferente do tradicional.
Não aceito o que me oferecem, jantarei mais tarde! Posso ver que o futuro nada mais é do que um simples referencial! Alguns, no mesmo lugar, mesmo dia e hora, vivem séculos de diferença. Povos medievais numa clara coexistência temporal com o presente. Outros tempos, idéias, valores, paixões...
Vejo um grupo conversando. Um homem de cabelos grisalhos lidera o assunto. Tem poder. Vê-se que é alguém importante, vários lhe escutam atentamente. Pede ao garçom que a seus amigos traga de beber e comer. Quer que estejam à vontade:

- Um drink, senhor?
- Obrigado, mas não quero beber hoje!

Não aceito o que me oferecem (de forma alguma que por causa do remédio que tenho tomado ultimamente, pois estou pouco me importando para estes inúteis medicinais), mas não aceito porque vejo que, desta forma, posso pensar por uns instantes.
Tecnologias futuras, satélites, ondas que nos cruzam o cérebro “sem” nos afetarem de fato. Vírus e bactérias produzidas em laboratório para controlarem massas. Meios de comunicação para nos controlarem as idéias. Cantamos juntos as mesmas canções: as que falam de amor, de tristeza, de alegria, de esperança (...desde que não nos despertem o senso crítico!) Esquecem-se de que esperança não é "aguardar", e sim a capacidade de não cessar à luta por algo desejado.
Satélites, ondas sonoras, gravações.
Quem nos garante a liberdade de expressão?
Quem nos garante um suposto sigilo telefônico?
Quem nos garante que o refrigerante que bebemos também não serve para nos controlar de alguma forma?
Quem garante que nossas digitações não são todas monitoradas na grande rede?
Paranóia?
Não, delírio momentâneo!
Também sou como eles, penso mais do que vivo!
E é por isso que estas pessoas que hoje vejo em minha frente como uma massa controlável; como elementos de uma grande matriz natural; como elementos de um referencial temporal atrasado; como trabalhadores-incondicionais condicionados a uma nobreza temporalmente evoluída; e, por fim, como verdadeiras cobaias científicas, são o espelho no qual vejo a mim mesmo.
Sou parte dessa gente! Queira a minha simples e fútil vontade, ou não.
Máquinas; controle das massas através do então censo-liberal cinema, através do culto ao “mesmismo” e ao falso novo.
Propagandas, incentivos, cores e sons!
Não aceito o champagne, definitivamente!
Vejo que não bebi nada até agora e que nesta noite posso pensar.
Usar meu senso crítico!

Grito em meu pensamento:
- Nesta noite não lhes deixarei conter minha crítica!! Pois a faço apenas em minha mente!

Deve ter havido algum problema no monitoramento de seus satélites, pois consigo criticar-lhes! Não é estranho? Não posso evitar as ondas sonoras que desenvolveram para nos tranqüilizarem! Mas nego-lhes, pelo menos por hoje, a coca-cola que nos servem!
Porque quero pensar!

Mal ouço a voz daquele homem de linho listrado, sentado ali adiante. É quieto, não conversa muito. Por incrível que pareça era um dos mais festivos! Conversamos no começo da noite quando fomos apresentados! Noutra roda, resolvi perguntar à sua irmã sobre seu passado, pois tive a impressão de já conhecê-lo de longa data. Era inteligente! Falava outras línguas, tocava violão, jogava futebol, lia, e ajudava muitas pessoas a serem desta forma. Chegou a participar de movimentos estudantis, mas nunca fora pego! Era esperto:

- Ele teve sorte! - dizia a irmã!

Talvez os métodos hoje sejam outros!
Talvez seja por isso que vivemos numa aparente sociedade sem censura e repressão.
Clonagem, bebês de proveta, o ser humano perfeito!
Curas de doenças. Novas doenças!
Imagens momentâneas, retinas lentas!
Persuasão!
Controle das massas!

A sociedade se segmenta, e muito!
Divide-se pelo critério “poder” nesta festa, da mesma forma que o faz no mundo, como um todo.
E esta nobreza líder (sua maioria encontrada numa única potência mundial da América) se mantém com seus antídotos, proteções e privilégios.
Sobrevivendo “antropofagicamente” às nossas custas.
Volto a lhes falar.
Logo terei de comer e beber, senão passo fome! Conseguirão me controlar! Sim, devo admitir! Mas sei que por um pequeno instante, não foram perfeitos! Alguma parede ou coluna protegeu meus ouvidos de suas silenciosas ondas que me mandam calar.
Vou aproveitar a festa, continuarei a trabalhar, consumir seus produtos, idéias e entretenimentos que em minha face são esfregados. Mas saibam que minha tranqüilidade reside no fato de que não sois perfeitos! A seleção natural ou alguma mutação genética - das quais sois grandes especialistas - ainda farão nascer uma nova ordem. Uma ordem que terá em suas mãos as ofertas de substituição de seus cargos, e que simplesmente as negará. Negará pela própria força do novo que sempre se mostrou no ser humano, e que nele sempre se mostrará. Negará pela própria força de espírito que há de fazer nossa glória!



Capítulo 2 –
O JANTAR

- Pedro, vem sentar com a gente! O jantar já vai ser servido. De entrada vamos ter salmão com champignons, e raízes terapêuticas orientais. Uma delícia!

É! Acho que já está na hora de abdicar aos meus delírios momentâneos, senão, como disse, passo fome. E a fome é, instintivamente, a mais física e intransponível ânsia humana pela constante evolução (neste caso, através da evolução física corporal). Uma evolução referencial que, na primavera de nossas vidas se faz através do crescimento; e no inverno, através da luta contra o decrescimento.
Sentamos todos à mesa. Nada me parece tão anormal. Vejo que estão todos muito elegantemente vestidos. Não estão "bem vestidos", estão elegantemente vestidos (o que é demasiado diferente). Porque julgo que estivessem bem vestidos se estivessem confortáveis (mas não sinto por seus olhares que estejam necessariamente "confortáveis").
"Psicologicamente confortáveis", isto sim! E psicologicamente confortáveis sob os aspectos que decidiram julgar como tal.
"Belíssimos brasões" que, trançados sobre suas vestes, tornam tão mais valiosos, os tecidos de linho, e seda, e camurça, e couro, que cobrem os corpos fracos e frágeis, e de pouca cor.
"Casulos paradoxais" que talvez, mesmo que externamente acinzentados, estejam realmente guardando belas e coloridas borboletas.
Mas a recíproca é verdadeira.
"Borboletas"!
Isto me fez lembrar que os machos são mais belos que as fêmeas em todas as espécies!
Pense na juba do leão; na força dos búfalos; nas cores das aves de rapina; na cauda do pavão; na robustez e mistério do lobo em relação à loba; na cor da cauda de alguns alevinos. Pense também na plumagem e na crista do galo (e na incontestável superioridade da beleza de suas canções).
"Borboletas"!
Há, porém, duas exceções que contrariam a regra da guerra da beleza entre os sexos: as fêmeas são mais belas que os machos no caso das borboletas, e no caso do ser humano.
Sim, mais uma vez encontramos uma regra com suas incontestáveis exceções.
Regras! É impressionante o como as mais perfeitas regras são as principais detentoras das mais ocultas exceções. E "por que"? Esta é a pergunta! Por que Vênus é o único planeta com rotação em sentido horário, contrariando a regra de todos os demais?
Mas basta com roupas, beleza entre os animais, regras e exceções!
Tenho essa mania, às vezes, a mania de entrar a fundo nas coisas, nos objetos, nas pessoas.
Nas imagens, cores e sons!
Tenho um belíssimo prato em minha frente com várias pessoas por perto - até que um tanto quanto simpáticas – a conversarem cordialmente comigo, e fico eu, aqui, divagando no oculto das coisas ao meu redor.
Mas que fazer se eu sou assim?
Faz parte de minha natureza.
Divago mesmo, e já encontrei ao longo de minha vida aqueles que não se identificaram comigo por este motivo, e também os que viam beleza e semelhança nesta característica de buscar sempre o novo, mesmo que em pensamento.
Lembro-me de uma vez, quando criança, que estava a brincar sob um ipê.
Estávamos prestes a construir uma base infanto-militar em baixo de uma bela árvore que, por si só, já nos serviria de abrigo.
Havíamos trabalhado durante toda a tarde na coleta de materiais para a construção.
Ao por do sol, simplesmente trocamos nosso sonho de construção pela fugaz vontade de jogar o velho vídeo-game caseiro, e nem tanto cansativo.
Nunca terminamos aquela base (somente outras, tempos depois) mas aquela – especificamente - fora simplesmente esquecida.
Mas... e daí?
Jogo-lhes esta pergunta.
"E daí"?
Creio que construímos o que precisava ser construído ao seu tempo.
Hoje vejo que esta base não podia, e nem jamais poderá, ser terminada. Pura e simplesmente prque esta foi a função de sua existência, seu papel na ciência plena de si (e dentro de nós, que a realizamos em sonho).

O jantar começa!
As pessoas todas começam a comer delicadamente, e numa tal formalidade, que expressa a regra de que matemos nossa fome, sem necessariamente mostrarmos que estamos com tanta fome.
Hipocrisia desta vez? Quem sabe, talvez sim, talvez não.
Não podemos sair julgando as pessoas só porque comem fingindo querer não comer; talvez seja algo que as afaste de sua plenitude de espírito, mas não cabe a nós querer ditar as regras alheias. Cada um é o único tutor de suas regras pessoais.
Mas devo admitir que a comida é realmente saborosa. Só não vejo tanta cor ou gosto nestes nobres alimentícios que as pessoas fazem questão de lembrar seus tão difundidos e caríssimos valores. Creio que meu prato até se assemelhe à carne bovina cotidiana; ao pão francês caseiro; e ao feijão com arroz que como todos os dias:
- Salmão? Vocês têm certeza de que estamos comendo salmão, e não um almoço normal?

Pergunto em voz baixa, de modo que tão somente eu próprio possa ter me escutado.

Sim, salmão! Por que não? Se eu quiser, posso fazer com que essa comida seja carne, soja, scargots, minha deliciosa sopa de talharim, ou mesmo o delicioso pescado alaranjado.
Por que não salmão, no dia de hoje?
Sim, é salmão, definitivamente!
Eu quero que seja! E a mim isto basta!
Márcia come tão deliciosamente e com tanta apreciação ao prato de cor forte que até sinto como se cometesse uma agressão à sua felicidade se ousasse não querer que seja salmão:
- Pedro, temos que fazer essas receitas mais vezes, hein?
- Sim, Márcia! Vamos fazer sim. Lembre-me depois que peço à Dona Adelina que nos faça sempre! Você gosta muito, não é?
- Gosto!!

Coitada da Márcia, nunca vi alguém apreciar tanto um prato oriental como minha irmã. Vou mandar fazer sempre para que ela aprecie e para que, desta forma, possa sentir este prazer gustativo que quase me leva a apreciar junto.
Comer faz parte da natureza dela!
Feliz da Márcia que abdica à vaidade da robustez tão fortemente enraizada nas outras moças de vinte anos, em troca do que - para ela - seja a própria razão do existir.
E novamente digo, isto faz parte de sua natureza.
Márcia sempre gostou de comer: apreciar um bom prato; degustar a taça de um bom vinho italiano; provar um suave champanhe francês; uma torta doce alemã; sorvetes e porções em geral. Tal como o Beto, nosso irmão mais velho, que sempre apreciava usar roupas escuras; jaquetas de couro; jeans claro rasgado nas bordas; vez ou outra um lenço branco à cabeça; ouvindo seu Oscar Peterson, Ray Vaughan, Clapton ou Matthew’s Band.
De pensar que muitos olhavam-no como bravo e perigoso, vez que, embora rebelde, de perigoso não tinha nada. Sempre fora alegre e brincalhão; em casa ou fora dela.
Mistérios do subconsciente.
Verdades ausentes.
Onipresença do todo, da vida!
E do infinito improvado.


Capítulo 3 –

AS ESSENCIALIDADES HUMANAS
(Primeira Parte)

Eu, José Pedro, particularmente, já vivi alguns anos. Pouco mais de vinte, para ser mais preciso. Já posso dizer que diversas coisas pude presenciar no decorrer de minha vida. Grandes sentimentos, sofrimentos, alegrias, decepções, medo, coragem, surpresa, tédio, raiva, luz, calma, tranqüilidade, inquietude, angústia, proteção, solidão, e a melhor de todas as vivências: a visão do novo!
Devo dizer que são relativos, obviamente, todos esses fatores na vida de qualquer homem. Acredito que uma das mais importantes máximas humanas seja o heroísmo que, por força de nosso instinto, somos impelidos a ter de apresentar aos nossos semelhantes.
Está genético-moralmente estabelecida em nosso ego, a necessidade de provar aos nossos semelhantes, que muito nos destacamos da mediocridade.
E é exatamente por aqui que pretendo começar minha análise do que seja a vida; do que seja o homem; de quem somos; e, por quê, somos. Pretendo começar pela raiz de nossa existência, mesmo que para isso tenhamos que descer ao fundo do poço; descer ao podre; ao fétido; e ao escárnio da humanidade.
Minha intenção não é dividir o ser humano em diferentes camadas geológicas, ou colocá-lo em túneis subterrâneos distintos (como o fez de forma esplêndida o nobre poeta italiano). Também não pretendo sequer imaginar como deva ser o Paraíso, justamente por me contradizer, se ousar especular tal lugar nos ser visível aos olhos.
Começarei, portanto, pelo primeiro de nossos pecados, e nossa primeira dor: o nascimento!

Por razão que desconhecemos, em um determinado dia somos convocados a chorar e a sentir um mundo novo, repleto de fenômenos desconhecidos. Daí deriva nosso medo inicial: o medo do desconhecido. Nada conhecemos ou compreendemos. Todo o possível àquele momento é o “sentir” das coisas, nada além.
Nesse desabrochar das almas é simplesmente o perceber das coisas ao nosso redor que nos rege toda a razão do nascimento. Daí a grande diferença entre as principais essencialidades humanas do nascimento para a fase adulta: quando crianças, não compreendemos exatamente as coisas, mas podemos sentí-las ao nosso redor. Aí nos é possível a percepção das sensações físicas externas, internas e sensoriais.
Alguns de nós, já nos primeiros suspiros de vida, têm a “má-sorte” de experimentar a dor corpórea de forma avassaladora. Não questionarei aqui por que alguns são escolhidos para determinadas situações do acaso, e outros não; isso geraria anos – em vão - das mais coerentes filosofias humanas. E a idéia desta minha reflexão é justamente mostrar que eu não pretendo mostrar nada. Isso mesmo! Qualquer que seja a mensagem de uma obra ou pensamento alheios, efeito algum terão sobre seus receptores se tal mensagem já não residir, mesmo que de forma oculta e subconsciente, no interior de quem os recebe.
Que tirem, entretanto, desta história, a conclusão que lhes for mais plausível em sua respectiva realidade, seu específico contexto de vida e morte, porque a intenção aqui não é mostrar que algum de nós esteja, ou não, ideologicamente correto.
Queiramos nós ou não, jamais poderemos nos definir como detentores de uma determinada verdade, pois a auto-definição é uma ciência divina e se pertencêssemos ao topo da divindade, estejam certos de que saberíamos disso (...mas não sabemos!).
Não pretendo também criticar idéias sociais, religiosas, políticas ou filosóficas.
A filosofia é falha!
E é falha justamente por ser padronizada como a “ciência conjunta”, a “ciência das ciências”, e pelo fato de sermos seres distintos por natureza.
Portanto lhes digo, mesmo que de forma ousada e pretensiosa, que a "ciência das ciências” simplesmente não existe (não em nosso grau de compreensão).
E sinceramente não sei se algum dia ela nos vai existir.
Um menino de cinco anos tem sua filosofia; o general sanguinário a sua; o monge budista a sua; tal como um suicida; um benfeitor; um assassino; ou um nômade guerreiro em busca de uma glória inexorável.
A beleza jamais poderá ser vista por aqueles que não sentem dor, e que dela não saibam extrair seu sopro de divindade. Um sopro sábio e mudo, que canta em nossos ouvidos numa língua estranha, embora coesa, da qual pouco conhecemos.
Irônico? Sem dúvida!
Mas saibam que a própria ironia tem se mostrado uma ciência de sabedoria divina!
E é por isso tudo que penso em meus irmãos, Beto e Márcia, sem procurar julgá-los; sem criticar-lhes ou repudiar-lhes por qualquer característica psicológica ou cultural que tenham decidido assumir (ou mesmo com as quais já tenham vivido desde a data de seus nascimentos).
Beto é o que é pela sua essência, e não pelo que usa, ou pelo que ouve.
Beto é o que é, pelo que busca em sua vida. Por como enxerga e vive a mesma.
Beto é o que é, pelo que é!
Asfaltos multi-direcionais, caminhos longínquos.
Singulares decisões.
Pseudos-maniqueísmos que atravancam as visões daqueles que os vêem.



Capítulo 4 –
BAILE DE MÁSCARAS


É por este e tantos outros motivos que eu, dentro deste baile de máscaras que resolvi entrar hoje, tenho dançado tão pouco e observado em demasia. Justamente por encontrar muitos Betos; e Márcias; e Pedros; e até mesmo Joãos e Marias, que, com suas singulares distorções, mostram-se como as tantas personalidades deste mundo podre e, ao mesmo tempo, belíssimo. Personalidades implícitas ou explícitas que jazem sobre as camas de nossos egos, no grande aposento de nosso ser. Algumas delas acordadas e efusivamente ativas; outras em sono profundo.
Márcia está vestida de princesa.
Beto, como sempre, de motoqueiro (um heterônimo um tanto quanto conveniente, que mais funciona autonimamente, para a situação).
De que eu estou vestido?
Não aluguei fantasia!
Nunca fui muito criativo para escolher personagens que se encaixassem aos meus dotes físicos ou psicológicos. Mais ou menos como aquelas pessoas de etnias "não-caucasianas", lato sensu, que acham "estranho" irem vestidas de Batman em festas à fantasia, "por não existirem Batman´s não-caucasianos". De igual modo, não admitindo determinados brinquedos, aos seus filhos, com critérios similares.
Estupidez? Quem sabe?
Ainda bem que grande parte não se incomoda com tanta prescindibilidade.
O mais brilhante de toda esta história sangrenta da falta de alteridade mundial é que os verdadeiros heróis sempre foram aqueles que nunca fizeram questão de ser notados. E não as estúpidas figuras alegóricas e “heróicas” do cinema hollywoodiano.

“Entretenimentos que em nossas faces são esfregados”

Nota: Hoje entendo aquela idéia que me ficou incerta quando a recebi no princípio de minha adolescência: de que o maior poderio bélico norte-americano (“estadunidense”, como corrigiriam os detalhistas) localiza-se não na capital ou nas cidades militares, econômicas ou tecnológicas, mas sim em Hollywood.
Exato: Hollywood.


Os verdadeiros heróis são aqueles que buscam aprender com heróis, e que, por mais que se esforcem, não conseguem se sentir como tais. Heróis verdadeiros, como estes, conheço brancos e negros; índios e orientais.
Basta analisarmos que Batman, por si só, é o próprio heroísmo branco em vestes negras. É o claro se tornando herói no escuro. Tal como em outras situações admiramos Bruce Lee, Machado de Assis, Einstein e algum real Macunaíma.
É aí que compreendemos que é justamente no oposto, seja ele físico, sexual, intelectual ou emocional, que tendemos a destinar nossa admiração e nossa paixão - na sua forma mais sincera, bruta e pueril.

Águas mornas
pouco efeito causam sobre a psique e ego humanos, mas o homem tende, involuntariamente, a se transformar em tudo aquilo que ama, e em tudo aquilo odeia; seja de forma direta ou indireta. Mas esta magia, ironicamente, ninguém vê. Ela simplesmente nos é imperceptível aos olhos.

Talvez seja justamente por isso que admiro Beto. Por ser ele basicamente o outro lado de minha personalidade: aquele que estou pouco acostumado a expressar.

Meu irmão Beto: negro; forte; alto; fugaz; seguro; esplendidamente hilário; e notadamente apaixonado pela vida.
Minha irmã Márcia: branca; cabelos castanhos; olhos redondos e arregalados; bochechas grandes e rosadas; e um simpático e permanente sorriso estampado em seu rosto.
Ela de princesa; ele de motoqueiro “rebelde”!
E eu, apenas com uma máscara de lantejoulas pretas e brilhantes; juntamente com aquele blazer (preto), que a mim foi emprestado ao entrar nesta festa alegre (e, como disse, "no entanto hipócrita" - ao menos em parte).
Sim, em parte.


Capítulo 5 –

JULGAMENTO

Muitas vezes não observamos o quão próximo está, semanticamente, a morte do nascimento; e padronizamos o segundo como uma benção, e a primeira como um feito abominável. Julgamos!
Damos-nos ao luxo da criação de regras inflexíveis, entrando num estado de torpor moral e intelectual intensos (até o momento em que nos fique clara a idéia de que nada obedece regra alguma).
Regras são padrões cíclicos observáveis por aqueles que assim denominam tais padrões.
Exemplificarei:
Se cronometramos o sol por doze horas em um dia qualquer, e, se por uma semana, assim repetirmos o experimento diariamente (calculando então a média de todos esses dias), teremos resultados “suficientes” para postularmos a regra de que "o dia dura doze horas ...e a noite, outras doze". Certo?
Com o tempo vemos que nossa "regra" (errônea) nos manteve numa paralisia intelectual envergonhável - ao descobrimos que, para determinadas épocas do ano, as durações do dia e da noite não são as mesmas.
Criamos, então, uma "nova regra" para cálculos diferentes em períodos diferentes. E? Envergonhamo-nos novamente ao vermos que, de forma estúpida, nos esquecemos dos importantíssimos fatores latitude e longitude.
A vida é assim. Cheia de regras!
Cheia de regras que nos atravancam; que nos engolem como areia movediça!
Evoluímos quando as quebramos!
Quando as destruímos, nossa visão, conhecimento e poder, aumentam de forma assustadora! Portanto, não utilizemos a ferro e fogo a inflexível regra do "julgamento humano".
Desenrosquemo-nos deste instinto do pré-julgamento que tanto nos cresce ao corpo, como a hera ao muro.
Não classifiquemos distintamente: o menino de cinco anos; o general sanguinário; o monge budista; o suicida; o benfeitor; o assassino; ou o nômade guerreiro.
Quando por questões cíveis ou sociais formos obrigados a "julgar" um homem, que não o façamos pelos seus atos, mas por suas razões. E que, assim sendo, tentemos adentrar à sua realidade, para chegarmos "mais perto" dos sentimentos que teve, ao realizar a julgada ação.
Nenhum homem é inteiramente bom e nenhum homem é inteiramente mau.
Já vos disseram isto, não é mesmo? Pois aqui vos repito.
A bondade e a maldade são conceitos vinculados às realidades daqueles que precisam destes conceitos para transmitir suas ideologias.
Como diria o filósofo hindu, Kautilya, no século 3 a.C.:
“Não se deve ser direto demais.
Veja a floresta.
As árvores retas são cortadas,
as retorcidas permanecem de pé”.

Todos temos imperfeições; todos temos alguns galhos retorcidos.
“Singulares Torções”.
Isto molda nossa singularidade.
Aqueles que disserem que não têm imperfeições, eis, agora mesmo, duas delas:
A cegueira, e a falsa auto-definição!
E quem aqui pode nos dizer quem é bom ou mau?
Santo Agostinho diria que a maldade nada mais é que a ausência da bondade.
E o que concluímos quanto a isto?
Não sei. Cada um conclua o que julgar melhor concluir.
Acredito que talvez esta regra desenvolva lógica similar à teoria da relatividade do físico alemão. Mas isso dependerá muito de quem a interpreta.



Capítulo 6 –
HIPERALGIA

Sinto uma pequena indisposição. Já deve estar na hora de eu tomar o meu calmante. Tomo-o!
Tomo obrigado, mas tomo-o, porque sei que alivia a dor que sinto em minha carne.
Sim, é hilário, mas eles fazem questão de me dizer que estou doente. Estou perfeitamente saudável! Faço atividades físicas, leio, minha vista está ótima, meu coração forte como o de um búfalo, e minha disposição renovada como nunca.
Pois que falem! Percam seus tempos!
Médicos estúpidos! Acham que sabem mais que o próprio paciente. Poucos são aqueles médicos que nos ouvem mais do que a si próprios; e se me ouvissem saberiam que minha doença é apenas não conseguir transformar o mundo pela utopia de meus sonhos.
Devo admitir que esta festa não é tão hipócrita como outrora eu a tivesse criticado.
As pessoas sim - talvez até sejam hipócritas - mas a festa como um todo se mostra como o laboratório adulto das essencialidades gerais humanas.
Estamos nesta festa justamente para cumprirmos a missão que se inicia com a percepção de que alguma missão existe. E o que seria esta falsa devoção nas pessoas senão a vista pelos meus próprios olhos?
Hipócrita?
Sim! Inclusive eu!
Talvez eu seja até o mais hipócrita de todos (porque os julgo, jantando em suas mesas e usando suas fantasias).
Hipócrita sou eu, que me escondo atrás desta estúpida e sacra máscara de lantejoulas misteriosas, mas que dia e noite divago invadindo, com minha mente, cada objeto, situação, pessoa ou sentimento.
Hipócrita sou eu, que venho com máximas e prudências e teóricas lições de vida, mas que deixei meus pensamentos escaparem para a mente estúpida de algum falso escritor que me rouba as idéias e suga meu íntimo (somente por passar algumas noites em claro e não ter encontrado mais nada o que fazer).
Muito conveniente este escape!
Falo de heróis e de que os verdadeiros nunca são notados, mas estou aqui, nesta festa estúpida, tentando de alguma forma ser notado. Mesmo que na loucura de conversar comigo mesmo. Mesmo que na loucura de ser notado pelo silêncio sábio e mudo que julgo - erroneamente - serem estas, características um tanto quanto nobres:
"- Louco!"
Foi o que Marcelo, meu colega de quarto, falou quando tentei me expressar quebrando a vidraça com os pés de uma cadeira de inox, daquelas dobráveis.
Sim, desequilibrado no momento, mas louco?
Creio que não.
As pessoas não sabem admirar ou compreender uma expressão humana se esta não lhes proporcionar algum tipo de prazer. E assistir a uma vidraça sendo quebrada não trazia prazer a Marcelo, que era pacífico.
O Caveira sim, este caiu na gargalhada, e tiveram que segurá-lo para que não gostasse da idéia a ponto de me ajudar a quebrar outras janelas.
Pudera que eu tivesse quebrado aquele vidro, e quebraria-o novamente se estivesse outra vez naquela situação.
Como querer que um homem seja pacífico ao ver seu cão sendo propositalmente atropelado?
(Atropelado - diga-se - em cima da calçada...)
Querer ditar como devem fluir os sentimentos alheios em condições adversas é simplesmente querer se compreender mais que o impossível.
E é justamente nessas horas que temos que deixar fluir em nosso sangue o sopro do instinto humano que sempre nos vai pertencer: o instinto humano de sermos animais!
Portanto, não me julguem por assassinato se eu tivesse matado aquele motorista.
Vingança?
Auto-defesa?
Orgulho?
Paixão?
Instinto?
Chamem do que quiserem!
Mas era o que teria acontecido se eu tivesse colocado as mãos naquele canalha, porque tenho o lobo em meu coração; que acorda facilmente quando assim me encontro em situações deste tipo.
Porém, devemos buscar o equilíbrio e não deixar que o desequilíbrio afete nossa razão.
Pense com a cabeça e com o coração ao mesmo tempo, porque a morte evolutiva se encontra justamente na superioridade de um destes itens em relação ao outro.
E jamais se esqueçam que, embora detentores da razão, seremos eternamente animais.
Não és, e nem serás, somente humano; e não és e nem serás somente animal. Mas os dois, numa existência mútua e magnífica em busca da imortalidade.
A diferença do animal para o homem está justamente no fato de que o último tem a indestrutível necessidade de se expressar como ser único e individual, e o animal - embora viva - não é artístico.

Capítulo 7 –
HOMENS HONESTOS

Certa vez disse o Conde Victor Lustig (1890-1947):
“Tudo perde a graça se não tenho um otário em perspectiva. A vida parece vazia e deprimente. Não consigo compreender os homens honestos. Vivem sem esperanças, cheios de tédio.”

Interessante, não? E não é que o Conde tinha certa razão em alguns pontos do que dizia?
Homens honestos são como as folhas que caem com o vento na transição do outono para o inverno. Manter a integridade é uma das mais difíceis lições que um homem pode ousar assumir. Poucos chegam ao final.
A neve é branca, porém árdua; e queima impiedosamente as nervuras das folhas finas e frágeis.
As folhas morrem! E os galhos ficam vazios; e ao fundo se vê as belas montanhas cobertas de neve. Porém, mais frágeis que as folhas finas, e que o vento também levou para longe, são as flores, que ainda em fase embrionária, hospedam-se numa camada segura do solo; aguardando que os astros se alinhem novamente a um momento propício do florescer.


Capítulo 8 – A FESTA

Levanto-me. Findo o jantar, todos se colocam a dançar alegremente. Música, festa, e muita fartura. Creio que mais de cem garçons tenham sido contratados para a prestação de serviços nesta festa de hoje (sem considerar os empregados regulares da mansão).
Todos sempre servindo, aos convidados: champanhe; vinho; whiskies doze anos artesanais; coquetéis azuis; verdes; carpaccio; o sashimi da Márcia; salgados de massas refinadas; doces exóticos; tortas geladas cobertas com calda de chocolate; fios de ovos; queijos finos; Camembert; Cotê de Nuits; Porto; Tokaji; presunto cru tipo parma; manjares; dentre centenas de outras pequenas regalias do assim chamado primeiro mundo.
Os mais de dez salões do térreo: perfeitamente decorados com cortinas de veludo vermelho.
Muito cristal e muita prata!
Em todos os salões, dançavam estáticas muitas obras de arte.
No salão em que eu me encontrava acabaram chamando minha atenção: um Monet pregado à meia altura na parede, e duas estátuas de Dali (uma em cada lado da tela, simetricamente).
A primeira estátua era uma figura bípede com algumas pequenas gavetas que lhe saiam do corpo; a outra feita de material metálico (lembrava muito Don Quixote parado em seu cavalo).
Um velho grisalho se aproxima e intencionalmente se esbarra, bem de leve, em meu ombro, de modo a chamar minha atenção para o comentário que iria fazer quanto às obras que eu estava admirando:
- Não vai me dizer que você vê beleza nisso aí, rapaz?
- Sim, estou tentando...
- Tentando coisa alguma. Você tenta é buscar significados aonde eles não existem.
- Sim, mas isso não se chama “arte”?
- Nas situações medíocres, sim, de fato.
- E quais são as situações medíocres?
- Fazer o que você está fazendo.
- Estou sendo medíocre? Tentando entender arte? Isso é uma situação medíocre?
- Mais do que você imagina.
- E por que?
- Por que você acha que buscar genialidade em tolos é algo acima do medíocre?
- E o senhor acha que Dali, e Monet, e, por exemplo, Da Vinci, são todos tolos?
- Não tenho a menor dúvida quanto a isto!
- Não entendo o senhor.
- Eu sei.
- Se sabe, por que ainda busca a obscuridade?
- Boa pergunta. Talvez eu não enxergue o quanto você não enxerga das coisas que penso, e acabo não moldando minha linguagem para se adequar à sua.
- Certo, e por que o senhor acha os gênios tolos?
- Porque são iguais a nós, e somos todos tolos. O problema é que eles não sabem que são iguais a nós, não acreditam nisso. Em seus mundos, apenas desenvolveram, na intelectualidade, o que muitos de nós desenvolvemos no orgulho, na vaidade, bondade, sensibilidade, frieza, talento, força, agilidade, amor, paranormalidade, devoção, fé, perseverança,... só que o quantum de poder, entretanto, é o mesmo para todas as almas, que somente se expressam e evoluem de formas distintas.
- É, parece coerente. Mas isso tudo é ...“tolice”?
- Sim!
- E o que não é tolice?
- Nossas verdades. As que construímos para nós mesmos.
- E por que?
- Porque por mais que elas sejam falhas, sempre aprendemos com elas. Veja você, meu rapaz, eu sou um velho de noventa e nove anos de idade, fumo um cigarro todas as manhãs quando acordo; como três fatias de bacon no café da manhã. Às dez da manhã volto a comer, sabe o que? Bacon! No almoço? Como bacon com a comida que minha mulher me prepara. E à noite ainda tomo vinho. E simplesmente não dou a mínima pro que os especialistas dizem.
- O senhor é saudável.
- Pois é! Sou mesmo. E a cada ano vejo os especialistas morrerem levando consigo suas idéias.
- Certo, mas qual é a moral desta história?
- Moral? Como assim?
- Qual a razão de o senhor estar me contando esta história?
- Nenhuma, oras. Estou contando simplesmente porque eu gosto dela. Oras...
- Só porque gosta?
- É. Conto as histórias quando gosto de lembrá-las; só.

Parecia-me um senhor realmente saudável, que inclusive aparentava não mais que setenta anos de idade. Tinha sempre todas as respostas - quaisquer que fossem - durante os vinte e tantos minutos que ficamos conversando. De fato, tinha todas as respostas; fossem suas respostas diretas ou subjetivas; fossem elas coerentes ou estúpidas, ao meu julgamento.
Ao menos eu podia ver que aquele velho me vencia em segurança e certeza.
Por mais que fosse incerto e subjetivo nas proposições da vida, ele tinha certeza das coisas de que falava. Diferentemente de mim, ele tinha certeza absoluta quanto às suas verdades e convicções. E isto lhe garantia tamanho poder interior que me fazia, de alguma forma, admirar-lhe. Cheguei a pensar que com toda aquela cultura e inteligência ele até teria todo o direito de ser intransigente e egoísta (ao menos pelos princípios mundanos). Mas como que por um delgado liame emocional, cheguei também a pensar que talvez ele não chegasse a ser egoísta, tampouco intransigente. Tive a impressão de que também sabia ouvir minhas idéias, e de que vez ou outra até chegava a concordar comigo:

- Pai, quem é o homem com quem o senhor está conversando, não vai nos apresentar?

Interrompia-nos, elegantemente, uma belíssima mulher, segurando uma máscara de lantejoulas azuis, similar à minha (tinha aproximadamente uns vinte anos de idade).
Ruiva, cabelos escuros, fortes e curtos.
Olhos levemente puxados e extremamente azuis; olhar penetrante como se precisasse olhar pouco para ver muito (olhos notadamente herdados do pai).
Corpo magro e pele branca como as nuvens. Lábios tímidos, apesar de carnudos e docemente avermelhados (confesso que extremamente sedutores...)

- Seu nome é Pedro, Astrid! E é extremamente simpático e prudente. Pode levá-lo!

A moça me concedeu um sorriso notável que demonstrou grande simpatia através das pequenas curvas do cantos dos olhos. Parecia-me interessante como o pai.
"Astrid"?
Um nome alemão!?
Inacreditável! O Conde de Braunau!
Estou há meia hora conversando com o ilustre Conde de Braunau (o dono desta mansão), e agora que me dera conta disso. Discutira esportivamente com o homem, argumentara sobre as essencialidades da vida com o inteligentíssimo diplomata, e havia tratado-o como um idoso respeitável, porém comum! Astrid tomou-me em seus braços, como uma dama a conduzir formalmente um convidado num baile de gala.
“Pode levá-lo”?
Como assim?
O que ele quis dizer com “pode levá-lo”?
Para onde estaria sendo levado por aquela bela moça?
Para fora? No mínimo! Depois de ter argumentado contra a inteligência daquele homem era só a porta da rua que me podia estar esperando mesmo:

- Relaxe, Pedro. Meu pai gostou de você.
- Gostou? Que bom, ...Astrid. Também gostei de seu pai. Pareceu-me muito inteligente e seguro.
- Pedro, o que vou te mostrar agora só você pode saber. Não conte nem mesmo à família, esposa, ou futuros filhos. Vem...

Astrid e eu seguimos em direção às gigantescas escadarias centrais, por onde começamos a subir sem sermos incomodados pelos seguranças que vigiavam o local.
Sobre cada degrau da escadaria, descansava um enorme tapete vermelho, bordado por duas linhas de minúsculos hexágonos dourados; linhas paralelas, e cuidadosamente bordadas nas extremidades.
Quando Astrid me flagrava fitando-a, devolvia-me um doce e tímido sorriso, como que em resposta imprudente à minha gentileza involuntária.
Já no segundo e último andar dobramos a esquerda e passamos por dezesseis portas antes de entrarmos num mini-escritório rústico e antigo.
Tratava-se de um lugar sombrio: uma lareira próxima à janela; uma pequena escrivaninha de mogno, e uma toalha preta pendurada por um gancho de aço na parede de pedra.
Astrid entrou; me puxou pela mão; trancou a porta; e me surpreendeu com o melhor e mais longo beijo que já recebi em toda minha vida. Atônito e extasiado, evidentemente que beijei-a também. Vagarosamente fomos nos abraçando; depois de uns cinco minutos de intimidade, senti um leve e superficial corte feito por ela em meu tríceps, com um finíssimo punhal que saía de uma caneta.
Assustei-me e, por um instante, pensei em me defender; mas, ao perceber minha surpresa, ela me tomou em seus braços e disse:

- Não se preocupe, Pedro. Sei exatamente o que estou fazendo. Você é privilegiado de estar aqui, e agradeça isso a meu pai.

Astrid coletou em um tubo metálico uma porção do sangue que fluía quente e úmido através do corte feito em meu braço. Eu, inconscientemente, senti-me seguro como se confiasse no conhecimento de um médico antes de uma cirurgia. Nada fiz; deixei-a fazer seu trabalho.
Enquanto o sangue doce e triste saía de meu braço, ela me fitava com um olhar que jamais conseguirei descrever. Não conseguirei jamais retratar aquele olhar! Mesmo que com palavras, fotos, ou qualquer outro tipo de linguagem humana. Parecia estar me sugando mais com os olhos que com o suave corte que havia feito em minha carne.
Astrid era simplesmente o modelo de mulher que qualquer homem sempre sonhou. Encantadora com a voz e com as poucas, delicadas, e prudentes palavras que pronunciava por seus lábios invisíveis.
Ao encher o tubo, Astrid suavemente conteve o sangramento com seus lábios doces, de onde tirou mais uma pequena parte de minha rubra essência corporal para si.
Achei estranho mas novamente não disse nada, pois me sentia seguro com alguém que parecia conhecer mais meu corpo do que eu mesmo o conhecia.
Astrid fez um fino curativo com a toalha que estava pendurada na parede. Vestiu de volta meu braço com a manga da camisa, e, novamente com seu sorriso indescritível, disse mais com os olhos que com a palavra:
- "Vamos!"

Eu, então, imediatamente a interrompi:

- Astrid!
- O que foi?
- Seu pai pede que você faça isso com todos aqueles que julga serem interessantes?
- Sim, devo fazer a coleta do sangue para meu pai.
- Refiro-me a tudo.
Astrid sorriu, e puxou-me pela mão em direção a uma enorme porta preta que dormia ereta e estática no fim do longo corredor.


Capítulo 9 –
A PORTA E A INFÂNCIA

Conforme nos aproximávamos, aquela porta preta me fazia lembrar da indústria de processamento de azeite na qual trabalhava meu pai (a porta era parecida com a porta de seu chefe). Enorme porta escura que eu, quando pequeno, tinha medo de chegar perto, por ouvir rumores de que o chefe era bravo.
Meu pai era gerente de produção, e tinha uma saleta particular na qual eu ficava quieto brincando de desenhar, e de digitar textos em sua velha máquina de escrever.
Em determinada ocasião, perguntei-lhe quantas estrelas havia no céu.
Ele me disse que era um número tão grande, que não podíamos - com a nossa matemática - colocar no papel. Mas disse que, a olho nu - ou seja - aquelas que podíamos enxergar daqui da terra, estavam aproximadamente na faixa de seis a sete mil estrelas.
Fiquei intrigado!
Como podia ele saber esse número?
Havia tirado uma noite para, “a olho nu”, contá-las pessoalmente?
Como podia ter tanta certeza daquele número estimado?
Meu pai era um homem extremamente culto. Lembro-me que todas as vezes que eu não conseguia dormir, e ia ao seu quarto buscar histórias, lá estava ele lendo algum livro e trocando idéias do mesmo com minha mãe. Ele lia umas duas horas por noite, e sempre me contava dos livros que tinha gostado.

- Filho, papai terminou de ler um livro muito bom ontem, que você vai ler quando crescer. Falava um pouco dos mistérios do coração do ser humano. Foi escrito por uma escritora brasileira, quando tinha apenas dezessete anos.

E pronto! Eu ficava extasiado com o que poderia conter aquele livro a ponto de ter feito meu pai comentá-lo. Meu pai lia muitos livros, mas poucos eram aqueles que faziam-no vir e comentar comigo algo sobre.
Lembro-me também que outra vez perguntei à mamãe por que Jesus Cristo havia sido morto, uma vez que era bom! E ela me respondeu que havia morrido por nós.
Eu de forma alguma compreendi esta razão. Perguntei a ela de que adiantava sermos bons se, com isso, acabávamos morrendo no final!? Ela me disse que cada um poderia com certeza se responder esta pergunta em algum momento de nossas vidas; seja em seu começo, meio ou fim.
Recordo-me que em seguida, por uns três dias, tive a brilhante idéia de ser mau.
Claro! Haveria idéia melhor?
Eu poderia ser mau e, desta forma, ser aquele que mata e não o que morre. Aquele que fere, sem ser ferido. Aquele que enxerga as lágrimas nos olhos alheios, sentindo a dor lhes fazer sucumbir lentamente. Desta forma, eu, sendo mau em aparência, apunhalaria os maus pelas costas, e salvaria Jesus e todos os bons.
Sim, a idéia era brilhante! Mas não muito promissora. Era difícil "ser mau", "não sendo mau". E logo abandonei a idéia, falhando desde a fase de seu planejamento.
Achei que era difícil ser tão mau o quanto eu precisaria ser, para assumir tão pretensiosa missão entre os maus. E eu não era tão mau assim. Só um pouco.
Entendem?

Meu pai também me disse uma vez:

- Filhão, sabia que na Índia as pessoas consideram as vacas tão importantes quanto um ser humano?
- Nossa pai, tanto assim?
- Isso mesmo! Lá, a vaca é religiosamente respeitada como nós humanos.
- Mas e se eu matar uma vaca na Índia?
- Nem pense nisso. Porque neste caso você seria abominado em todos os lugares por lá.
- O que é “abominado”, pai?
- É quando não somos queridos. Quando as pessoas não suportam nossa presença.
- E como é que eles fazem churrasco por lá, pai? Carne é tão bom.
- Fazem com outros animais, menos com a vaca!
- E por que tudo isso, o que é que a vaca tem de especial?
- Na Índia, a vaca é considerada uma encarnação do espírito do homem. Portanto, judiar de uma vaca por lá, é como judiar de um ser humano.
- Nossa pai, que estranho!
- Pois é, filho. Estranho para nós que não vivemos naquela região. Mas comum para eles e para a sua cultura. Tal como os judeus não comem carne de porco, lembra?
- Lembro sim.



Capítulo 10 –

A ORDEM

Balancei a cabeça para fugir de minhas recordações e retornar à realidade. Conforme eu e Astrid chegávamos à grande porta preta, voltei a ansiar pela misteriosa situação, que se aproximava tensa e vagarosamente.
Entramos num salão enorme! Ligeiramente escuro.
Era iluminado por velas brancas e muitas lamparinas velhas e fracas. Também lá, muitos tecidos de veludo vermelho nas paredes largas e escuras. Alguns brasões e flâmulas de pano trançado pendurados em colunas cilíndricas por cordões dourados. Vários símbolos em dialetos, que a mim eram irreconhecíveis.
Também este salão estava cheio de gente. Obviamente que bem menos cheio, se comparado à festa que acontecia simultaneamente no térreo.
Lá, as pessoas não pareciam estar exatamente festejando; mais pareciam estar numa plena quarta-feira de trabalho. Cerca de metade deste pessoal estranho estava sentada em várias mesas redondas; a outra metade em pé (conversando ou trabalhando). Algumas trabalhavam em bancadas com muitos livros e computadores ligados em rede; outras andavam e levavam caixas metálicas de um lado para outro.
Em verdade, aquele salão me parecia uma grande biblioteca inglesa: com muita madeira escura envernizada, muitas persianas fechadas; e várias fileiras de estantes repletas de livros grandes (novos ou velhos).
No ar? Um certo odor de mofo e um perfume de madeira velha e molhada. Também um cheiro sinistro (e bom, por que não?) de eucalipto envelhecido.
Algumas moças (lindas; diga-se) andavam nuas por dentre as pessoas que lá trabalhavam, e com tamanha naturalidade. Os homens, entretanto, todos vestidos.
O salão era repleto de sub-salas, que mais pareciam mini-laboratórios. Todas trancadas com portas similares àquelas portas grossas e pesadas de frigoríficos.
Astrid me havia mandado tirar a máscara assim que chegamos à porta pelo lado de fora - quando também tirara a sua.
Naquele local, as pessoas davam a impressão de serem impiedosamente inteligentes; organizadamente responsáveis; e disciplinadamente viciadas naquele trabalho estranho.
Era como que um grupo extremamente organizado. Como que um grande escritório-empresa. Uma empresa que, entretanto, tinha alguns símbolos de devoção e idolatria destoantes.
Entretanto, algumas várias estátuas distribuídas ao longo do salão, descaracterizavam um pouco o fator - a princípio - exclusivamente profissional.
Seria uma seita?
Uma sociedade secreta?
Uma religião?
Uma ordem?
Impossível saber! Eu havia acabado de chegar ao local e tudo ainda me parecia vago, estranho e misterioso. A “ordem” toda parecia usar terno preto e gravata. Algumas pessoas, entretanto, usavam roupas brancas.
Beldades masculinas e femininas, com corpos esculturais (talvez até de inteligências variáveis), submetendo-se a múltiplos testes físicos, intelectuais e emocionais. Pareciam extremamente entusiasmados com suas avaliações e resultados; avaliações estas que estavam sendo realizadas diretamente nas mesas e bancadas de madeira escura. Astrid parara para conversar com um homem baixo e gordo, que, conforme a regra, usava terno preto.
Enquanto isso, caminhando pelo salão (que - fui percebendo aos poucos - tinha o formato de uma letra “H”), pude ver algumas divisórias de pano vermelho; como aqueles provadores de roupas, fecháveis com cortinas. Pelos sons humanos que ouvia, tive a ligeira impressão de que lá estariam se entretendo diversos casais em momentos íntimos.
Parei impressionado com o que estava vendo e ouvindo.
Não podia acreditar naquilo tudo!
Festa hipócrita?
Agora com certeza eu poderia dizer que sim! Desde o princípio eu havia percebido que algo não me garantira sinceridade por parte da maioria das pessoas que cantavam e dançavam “tão alegremente”.
Bando de abutres antropófagos!
Escória da humanidade!

Droga! Estou julgando novamente!!

Quem sou eu?

Mas será que realmente sou igual a todos estes vermes? Não sei se chego a ser desta forma!
Às vezes sequer sei se é tão errado, assim, julgar os outros. Afinal, por que abdicar ao pecado do julgamento se, por si só, o ser humano é a própria encarnação do pecado?
Ainda não sei realmente o que acontece, e estou proferindo tudo o que se passa em minha mente. Talvez a visão do novo, sob a forma do medo do desconhecido, também nos faça julgar tão cegamente, como estou fazendo agora.
Mas eu sabia perfeitamente disfarçar que não estava impressionado. Fingia ser forte “o bastante”, e já ter visto coisas muito piores (e, ao fingir tão completamente este “fingimento da dor que deveras sinto”, também é parte de minha natureza).
Repentinamente, o pé descalçado de uma moça de cabelos curtos e loiros, puxou a cortina que fechava seu aposento, o que me permitiu flagrá-la junto ao homem que a acompanhava.
Estavam nus, imagine-se o que a fazer.
Pude claramente ver que havia dois cortes nos bíceps daquele homem, e que a moça se alimentava de seu sangue quente e forte. Alimentava-se daquele ser humano meio que em voluntário torpor de prazer e sabedoria. Aquele homem tinha seus olhos vendados. Era forte, e parecia ser um sangue grosso e nutritivo (que por certo não lhe faria falta alguma; devido à sua força e robustez).
No fundo do mini-dormitório pude ver roupas brancas penduradas em amarras, também de pano.
Interessantíssimo!
Eles não eram da ordem.
Pertenciam ao grupo que usava branco!
Repentinamente, um dos homens de terno preto entrou em minha frente e perguntou secamente como eu havia chegado até lá.
Astrid veio correndo em nossa direção e lhe avisou que estava comigo, tal como a aprovação do conde para com minha pessoa.
O homem se desculpou com Astrid, cumprimentou-me e voltou à mesa na qual estava sentado sozinho a ler um gigantesco livro azul escuro.
Tudo me parecia incerto.
Primeiramente um beijo inesquecível! Em seguida, um corte em meu braço, feito por uma mulher simplesmente irresistível. Depois, a coleta de meu sangue num tubo metálico. Eu? No andar de cima de uma mansão em plena festa cujas escadas eram acirradamente vigiadas por seguranças.
Símbolos e brasões ilegíveis!
Pessoas vestidas de preto, vestidas de branco.
Divisórias, casais nus. Momentos íntimos.
Fêmeas hematófagas.
Um integrante da ordem, ao me ver, incomodado, sentindo seu ambiente aparentemente invadido por desconhecidos (eu, no caso).
Tudo muito obscuro, sem respostas.
Astrid me pediu que ficasse calmo, que tudo aquilo me poderia ser novo e estranho, mas que seria tudo para o bem de nossa história, e para o bem da humanidade.
Pegou em minha mão, chamou-me para sentar num sofá de couro, cor vinho, para que conversássemos seriamente sobre o que se passava.
Não conseguindo contestá-la, fui. E assim que sentamos, antes dela, educadamente exigi – eu mesmo - explicações praquilo tudo.
O que significava aquele salão?
Aquelas pessoas?
Por que tantos livros, e mesas, e “portas de frigoríficos”?
Por que dois uniformes: um preto e um branco?
Por que tantos brasões, e o que significavam?
Por que o coito semi-público?
E ainda por cima regado a sangue?
Seria aquilo nada mais que a podridão em sua plenitude de promiscuidade e luxúria, ou teria algum fundo - de fato – justificadamente nobre?

Outrora meu colega Marcelo ainda dizia que eu é que era o louco por quebrar uma vidraça!
“Louco!”
A ironia é realmente uma ciência divina!
E quem não é louco neste mundo?
Digam-me!

- Pedro, a vida nos parece complexa demais quando temos de enfrentar situações novas e inesperadas. – disse Astrid, interrompendo meus pensamentos.
- “Espera aí!”- pensei – “esta idéia era minha”!

A “visão do novo”!
E Astrid tinha realmente razão. Eu estava pessoalmente comprovando minha própria teoria ao ver que era realmente difícil encarar toda aquela situação com naturalidade.

- Pedro, você tem vinte e cinco anos de idade. Está longe de ser um gênio cerebral (embora tenha sua ilustre genialidade). Está longe de ser um deus grego, mas tem o sorriso mais lindo que eu já vi em toda minha vida. Mas tem uma coisa que buscamos desesperadamente em nossos candidatos aqui!

- O que? Meus pensamentos tolos que divagam incoerentes de um lado para outro?

- Não, bobinho! Não dá mesmo pra ficar séria com você, Pedro. Esqueci também de citar seu senso de humor dentre seus atributos! Mas o que me refiro que você tenha, e que é dificílimo de encontrarmos na maioria das pessoas, é o seu instinto. Todas as pessoas têm, mas poucas sabem usá-lo com prudência. E meu pai detectou uma probabilidade enorme de você desenvolver seu instinto, que, no caso, não chega a estar em seu auge, mas que não está adormecido como nas outras pessoas.

- Eu tenho instinto para quê, para me incorporar a esta seita secreta de vocês? E como uma moça de vinte anos como você sabe tanto de mim, de minha idade e do genérico instinto inerente ao ser humano, nos sendo tal conceito tão obscuro e instável?

- Bom, Pedro, respondendo à sua pergunta, realmente não somos públicos, mas estamos longe de sermos uma seita. Outra coisa: não é nos livros que você vai aprender sobre instinto; sobre a vida; e sobre o comportamento humano. Certa vez em minha infância aprendi com um índio do Xingu, amigo de meu pai, que todas as respostas para as nossas perguntas podiam ser encontradas na natureza. E que, muitas vezes, o homem não encontra suas repostas, porque acredita que elas estejam dentro de si. As respostas estão, de fato, dentro de nós mesmos; mas é quase impossível auto-enxergar-se; é quase impossível a auto-análise bem sucedida. Podemos aprender muito, sobre nós mesmos, ao observarmos nosso amor, nosso ódio, e nossas indiferenças, dentro das outras pessoas; dentro da natureza como um todo. Procure se ver nos outros, e verás toda a verdade!

- Gostei do que disse. Sinto-me até um tanto tolo por parte de minhas convicções.

- Todos somos tolos, não é mesmo? E para sua informação, sou mais velha que você; já passei dos vinte faz tempo.

Esta mulher é mesmo incrível! O pai também aparentava muito menos idade do que tinha. Que família diferente! Que festa em que eu fui me meter! Astrid segurava meus braços com suas mãos brancas e leves. Passava levemente seus dedos como se conversassem com minha pele bruta e cansada. Tudo me parecia mais tranqüilo. Só que as dúvidas ainda me intrigavam. Perguntei:

- Astrid, quem são essas pessoas?

- São especialistas.

- Especialistas? Como assim? Especialistas em quê?

- Buscam as características perfeitas nos seres humanos, e meu pai - além de patrocinar a filial brasileira aqui na cidade de São Paulo - participa da comissão de seleção dos prováveis candidatos. Foi por isso que ele te escolheu, Pedro.

- Então eu sou um “provável candidato”?

- Você está praticamente aprovado, acredite. Meu pai não erra há mais de dez anos.

- Eu tenho o que vocês chamam de “instinto”, é isso?

- Sim, e como!

- E que outras pessoas vocês já encontraram?

- Este projeto já tem dois anos de idade. Nossas duas últimas descobertas foram: em Santiago, o maior talento musical vivo da face da terra (sabe o que fazia o cidadão? Era frentista; quanto desperdício, não é mesmo?); e encontramos, também, na Rússia, uma mulher com as menores probabilidades de desenvolvimento de câncer que jamais encontraram em toda a história da medicina mundial. Seu gene é raríssimo. Nestes últimos doze candidatos, dentre eles este chileno e esta russa que te contei, estamos experimentando uma nova droga que promete um avanço espetacular em nosso projeto!

- Interessante!

- Veja. O “bom humor em pessoa” está logo ali no box número 7; muito bem acompanhado por uma belíssima mulher que descobrimos na Áustria. Uma garota milhares de vezes mais bela e formosa que estas atuais modelos de passarelas.

- E por que ela está com vocês, e não nas passarelas?

- Isso você vai compreender mais pra frente.

- E você, Astrid?

- Eu, o quê?

- É alguma das “perfeições do mundo”?

- Ahahaha, para o meu pai? Várias! Mas qual pai não idolatra seus filhos? Não, Pedro, definitivamente não! Nem cientificamente, nem psicologicamente. Sou uma mulher comum; diferentemente de você, está vendo só? Sou comum, e você não!

- Eu não te acho comum! Jamais encontrei uma mulher que me tivesse tratado da forma com que você me tratou. Sua simpatia é radiante. Você sabe lidar com o ser humano Está longe de ser comum para mim, Astrid.

- É gentileza sua, Pedro, mas obrigada! Agora venha cá que quero te apresentar ao Felix.

Astrid me apresentaria ao diretor do local, Felix Roriz, que me pareceu um tanto entusiasmado com minha presença. Pude notar, contudo, uma discreta preocupação em seu rosto. Felix chamou Astrid, e foram conversar num canto. Pareciam trocar informações consideravelmente importantes. E notei um olhar preocupado em Astrid ao se virar para mim e me fitar cuidadosamente do canto onde estavam.

Próxima a mim, percebi uma jaula pequena com um lobo grande e bravo de pêlo acinzentado. Alguns homens lhe encostavam bastões que davam choque por suas pontas. O lobo sangrava pelos dentes de tanto tentar abocanhar os bastões de aço que lhe tocavam a pele. Nunca vi uma cena tão deplorável como aquela! Subiu-me uma fúria gigantesca que quase me levou a esmurrar o queixo daqueles canalhas. Cada vez mais o lobo sangrava e se debatia de dentro da jaula apertada. Creio que se o soltassem naquele momento, sua fúria seria suficiente para matar todos os homens da sala. Inclusive eu, que nada tinha com a situação. Bom, ainda assim eu não o culparia. Os homens regulavam a voltagem de seus bastões; e cada vez mais as pontas soltavam raios azuis, mais e mais cintilantes. O lobo parecia não agüentar mais tamanha tortura. Não me contive, e dirigi-me ao local:

- Por que vocês não tentam fazer isso comigo, seus covardes?

Um silêncio adentrou o salão por cerca de dez segundos. As pessoas pararam suas leituras e o que mais estivessem fazendo para assistir ao que aconteceria. Felix e Astrid pararam a conversa e ficaram me olhando, impressionados, como se esperassem por alguma reação deste tipo (e de minha parte). Um dos homens que feria o lobo era bem maior do que eu, e muito mais forte. Os outros, do meu tamanho. Isto me colocava notavelmente em desvantagem. Mas... o que fazer?
Nesta situação eu era o lobo; e ele era a mim! Tenho certeza de que se nossas almas estivessem em situações inversas, aquele lobo não hesitaria em me defender. Instintivamente, ele seria a mim. Um dos homens de minha altura quebrou o silêncio com voz agressivamente alta:

- Com quem você pensa que está falando?

Sem hesitar, respondi como que num tiro:
- Com certeza, com alguém não merecedor de estar num grupo onde as pessoas tentam trabalhar com a perfeição!

O homem se surpreendeu; e, atônito, retrucou:
- E o que você sabe de perfeição, ou do que fazemos?

- Sei muito pouco! Mas acredito em minhas regras, e em minhas verdades. E elas dizem que o justo seria soltar o cão e colocá-lo numa arena, juntamente com cada um de vocês. E sem bastões!

É claro, teria argumento melhor do que citar as próprias máximas do Conde de Braunau? Minhas regras! Se optasse por defender a verdade genérica, argumentaríamos por anos. Mas as minhas regras são minhas, e ninguém – senão eu mesmo – poderia contestá-las. O homem parecia saber dos princípios do Conde, e não ousou tornar a me desafiar (claro, muito mais pelas máximas do Conde, do que por minha pessoa fútil, em sua frente):

- E o que você sugere que façamos?

- Quero que não façam mais isso com o animal, se possível. Não mando, apenas peço. Pode ser?

Eu também haveria de ser um pouco cordial, afinal estava me metendo no espaço alheio, e já havia incomodado demais. Astrid me olhava imóvel e angustiada. Como se estivesse torcendo para que eu me saísse bem daquela situação em que me metera:

- Rapaz, chegue perto do cão, por favor!

- Por que?

- Apenas chegue. Não o toque em hipótese alguma, mas chegue perto da grade.

Cheguei perto da jaula e o cão vociferou para mim com tanto ódio, que me fez sentir como um verdadeiro verme humano. Senti-me enojado de pertencer à mesma espécie daqueles homens. O cão chorava e molhava o chão de saliva e sangue, de tanto morder a jaula, na tentativa de me alcançar para me rasgar o corpo com toda sua força. Tudo o que ele queria, era me matar! Tive pena do animal, e nojo de mim. Nojo de nós, humanos. Nojo de existir. Senti vertigem e senti meu sangue doce, apodrecido.

Cheguei ao fétido!

Somos nosso próprio escárnio em determinadas situações! Fiz sons suaves como aqueles que fazemos em forma de assobio para despertar alguma simpatia nos cães, e então ele parou de latir. Cheguei ainda mais perto da grade, e o cão não tentou mais me morder. Fitei-o e senti que ele fazia o mesmo, com seu olhar cansado de tanta dor. O cão não tentou mais me morder (mas não ousei colocar a mão para dentro da jaula e lhe agradar a cabeça). Dirigi-me ao homem com o qual estava discutindo e acusei-os todos de doentes mentais, mostrando como haviam transtornado irremediavelmente aquele cão. Aquele primeiro homem do livro azul - que me cumprimentou no começo - respondeu-me, lá de sua mesa, e com voz branda, que o cão sempre fora assim, desde filhote. Era um cão paranóico (que inclusive matara seis dos oito filhotes referentes à única cria de sua mãe). Desta vez fui eu é que fiquei surpreso e mudo, por falta de palavras e argumentos. Astrid intercedeu em meu lugar. Segurou-me pelo braço e aliviou minha situação me apresentando a todos, falando de minha iniciação na ordem (feita por seu pai). Aproveitou e colocou em minhas mãos um saco plástico que embalava uma calça e camiseta brancas. Não me surpreendi tanto. Um especialista eu sabia que não era. Que mais então eu poderia ser, naquele lugar?

- Não critiques o que não conheces, rapaz. Mas não vou te culpar. Infelizmente as pessoas não gostam do que não entendem. E isto é verdade filosófica incontestável, ainda que tendo em vista sua iniciação feita diretamente pelo Conde. Tudo o que este cão quer é fugir e viver livremente em sua liberdade homicida. E tudo o que nossos experimentos tentam, é compreendê-lo. Mas, no sentido genérico das situações, fica claro que basta alguém se sentir preso para querer fugir. Basta alguém se sentir aleijado para querer andar, basta alguém se sentir morto, para querer viver. Porque isto pertence não só ao animal, como, principalmente, ao homem, ao gênero humano!

- E por que me ensina tantas coisas assim?

- Por que não tenho nada a esconder de ninguém! E tenho muito a ensinar! Li mais de seis destas estantes de livros atrás de você, e conheço as entrelinhas da história mundial mais do que você conhece seu próprio nome!

- É mesmo? Parabéns por sua cultura. Disse-me que não tem nada a me esconder e muito a ensinar? Então me diga, por exemplo, o porquê de os mortos serem idolatrados. E qual a razão de não serem reconhecidos quando ainda estão vivos? Sempre quis me responder esta pergunta.

- São idolatrados porque as pessoas precisam se sentir, de alguma forma, superiores àqueles que estão elogiando. E com a morte, está fixa esta superioridade. A superioridade da vida em relação à morte.

- É! Parece-me bem coerente, o senhor tem mesmo grande lógica!

- E ...vejamos...qual é a capital da Islândia?

- Reykjavik!

- O que fazia Einstein antes de fazer sucesso?

- Trabalhava num laboratório de uma empresa de patentes em Berna, na Suíça. Era um físico de terceira categoria antes de sua primeira publicação sobre as leis que revolucionariam toda a física mundial.

- E perché adesso non mi parla qualcosa di quando Lei era solo un piccolo fanciullo?

- Quando bambino ero molto agitato e mi piaceva molto sciare nei fine-settimana!

- Incrível! Que línguas mais o senhor fala?

- Aprendi alemão, francês, inglês, espanhol e árabe, além do português e do italiano. Até que nem tantas se comparado ao Conde. Ele fala, fluentemente, quinze.

Era incrível o conhecimento daquele homem. E pelo visto o Conde deveria ser um homem de conhecimento ainda maior. Nem quero me lembrar que tão pouco aprendi com toda sua cultura; desperdiçando nosso tempo com minhas tolas argumentações:

- Tenho mais uma pergunta para o senhor!

- Pois que a faça, rapaz. Responderei com prazer.

- Será que me darás mesmo a resposta?

- Pode acreditar!

- Tudo bem, então me diga: onde está enterrada a cabeça de Tiradentes?

Astrid nos interrompeu e me puxou pelo braço, de forma delicada, porém firme:
- Venha Pedro, vou te mostrar como está nosso projeto, você vai se impressionar com nossas conquistas!

As pessoas voltaram aos seus postos. Eu e Astrid fomos diretamente para um pequeno escritório que não estava sendo utilizado. Nele havia um daqueles divãs de psiquiatria. Deitamo-nos juntos em direção à janela e começamos a conversar.



Capítulo 11 –
A SAGA DE ASTRID

Nas névoas das tardes longínquas, e frias, e secas, e tardes.
As cascas das flores que jazem caídas, na areia molhada.
Das praias sofridas, das noites sonhadas.
Garotas correndo, agitadas.
Brincando de casa, brincando de gente, de mundo verdade.
Um dia nublado, as gotas que caem.
Garotos rebeldes, suados, corridos.
Carrinhos caídos, joelhos batidos, brinquedos quebrados.

- Que história é essa, Astrid?

- A minha.

- E por que me conta por poesia?

- Gosta?

- Sim.

- E o que seria nossa vida sem a poesia? De que valem os fatos sem a beleza das criações? De que valem as pessoas pelo seu corpo? De que vale a alma sem a tradução?

- Continue, por favor.

Parques distantes, nus de pecado.
Limpos nas flores, nas dores.
Pássaro alado.
Menina discreta, alegre.
Meninos ousados.
Pureza em essência, corpo intocado.
Convites e cartas, bilhetes em cores, amores.
Perfumes singelos, garotos tão belos, princesa da era.
Convites sinceros, recusas delgadas.
Pureza em essência; pecado distante.
Princípios paternos, maternos, constantes.
Essência na vida; vivida; contemplo este instante.
Não vejo o passado!
Tempos que mudam; nuanças.
O novo no corpo, tão torto; cabelos cortados.
Lembranças crescidas, mudanças nas tranças.
Já não mais criança; cobranças, arbítrio.
Beleza inovada, os lábios mudados, rosados, crescidos.
Um belo garoto, de olhos profundos.
Atroz atitude, sensível.
Discreto sorriso, bem tímido.
Ilustre carinho; princesa tocada; feitiço lançado.
Menino sozinho, cruel bel carinho. Menina sozinha.
Pureza no encontro, amor tão bem pronto; a luz esperada.
Destinos distantes; aguarde este instante, e flui o pecado. Destinos tão prontos; vá ti ao encontro.
Não deixas jamais a luz caminhar, pro céu tão nublado.
Orgulho e vaidade.
Plen’eternidade; amor machucado.
Em tempos perdidos; anos tão sofridos.
Vontades contidas e tão camufladas.
Menino perfeito, já tão rarefeito.
Por obra do acaso...
Jaz puro e molhado, no fundo do lago.
Não deixas de lado, o tão procurado
Por fútil orgulho, por mera vaidade.
E o beijo que deres que sejas naqueles que a luz há tocado.
E o beijo que deres que sejas na hora, no ato, no fogo, no novo;
e nunca na lua, e não no passado.

- Astrid, não sabia que você gostava de poesia! Como consegue? Quem te deu a poesia?

- Conseguir?

- Sim, você recitou isto de cor ou criou agora?

- Pensei nos fatos passados, e criei as formas agora. Ninguém me deu a poesia, Pedro, ela não é “transmissível”. Nem tampouco “manutenível”, se as formas não forem criadas pela vontade.

- Então tudo isso é moldado pela vontade e o esforço?

- Sim, e a vontade é eterna, é básica, é a raiz da árvore da atitude. E na árvore da atitude nascem os galhos da disciplina, perseverança, fé e conhecimento. E isto que eu te falo não é filosofia. É tudo conhecimento que aprendi com meu pai.

- E esta árvore cantada, tem frutos?

- Depende, Pedro. A menos que queiras que a sua seja estéril, e seca, e desacreditada...

- Não, eu quero que ela germine a evolução, obviamente.

- E estás disposto a correr este risco?

- Não sei, Astrid!? Sinceramente não sei! Se for para minha semente dar vida a cães transtornados como aquele que sobrevive no inferno – seja por “culpa” própria, ou não - talvez o mais interessante seja não passar para frente o legado da miséria humana.

- E será que vale à pena não correr este risco, Pedro? O risco de parir anjos ou demônios na busca do desconhecido? Ou a inerte beleza da dinâmica das coisas não lhe desperta mais vontade?

- Difícil saber. Talvez você esteja mesmo certa, talvez não.

- Exato: nada sabemos! E o risco, e a vontade e a atitude são individuais.

- Qual seria sua escolha, Astrid?

- Minha escolha?

- É! O que faria se parisse um demônio? Cortaria-lhe a garganta? Limparia o globo por seleção artificial até que do ventre lhe surgisse o anjo esperado?

- Eis a questão, Pedro. O que seria eu, Astrid, se me viesse um demônio?

- Entendo.

- E o que seria se me viesse um anjo? Deus? Mas de nós mulheres nascem, ano após ano, demônios e anjos que matam e curam; por mal necessário. Nem que eu escreva a Minha Luta às pessoas e teorize sobre as mais eficientes técnicas de evolução da espécie, ainda assim, eu não teria esta resposta, Pedro.

- Astrid, com todo o respeito - e tendo em vista a profunda admiração que já tenho por você e seu pai – mas devo lhes dizer que, vocês dois, juntamente com toda esta ordem em que trabalham, chegam a ser incoerentes no âmago da coisa.

- Por que, Pedro?

- Eu é que pergunto o porquê. Por que o maniqueísmo teológico lhes é perfeitamente aceitável, e não o corporal e o bioquímico? Por que anjos e demônios psíquicos lhes podem sair pelos ventres, e o talento musical vivo da terra é abominado por “desperdício”, pelo mero acaso de ser frentista?

- Continue, Pedro.

- Não culpo vocês, sabe. Mas fiquei intrigado com isso. Talvez a “Sua Luta” não seja, de fato, psíquica, mas é a utopia plena da ordem em que você trabalha, percebe?

- Entendo.

- E fiquei intrigado justamente com o “até onde” vai esse nosso poder. Percebe que ousamos corajosamente lidar com o manutenível, com o real, com o químico, mas tememos negar o “maniqueísmo das almas”? E isto porque, enquanto humanos, nosso cérebro se esqueceu momentaneamente de como pensam as almas.

- É, Pedro! Sua linha de raciocínio até faz sentido.

- Mas fique tranqüila, porque estou até começando a admirar o trabalho de vocês. Estou começando a lhes admirar porque vocês nada mais fazem que buscar o desconhecido com as ferramentas que lhes foram dadas. E absolutamente todos nós abriríamos a caixa de Pandora; e absolutamente todos nós comeríamos maçãs que fossem vermelhas em demasia; mesmo estando sem fome.


Capítulo 12 –
EGOCÊNTRICOS


Duas horas se passaram. Meu relógio de bolso já marca vinte para as duas da manhã. Onde será que estão Beto e Márcia? Desde o jantar que não vejo meus irmãos. Será que estão bem? Ao menos esta noite me está sendo produtiva. Não estou apenas "andando por entre as pessoas que dançam", como faço em outras festas habituais.

Festas com poucas luzes, feixes de laser vermelho, e verde, e azul;
cortando as pessoas, e as paredes; no brilho e no encanto.
Músicas eletrônicas extremamente simétricas, e de pouca letra, e de poucas idéias.
Filas para comprar cerveja, álcool.
Roupas passadas e sendo estreadas.
Uma dama a me encarar com curiosidade e ardor.
Na quebra de olhares: dispenso-na.
Cruel! Frieza impensada.
Metros adiante? Beldade! Beleza rara. Nobre e escassa!
Olhos de Astrides, corpos de estátuas.
Fito-a, penetro-a em psíquico.
Leio sua mente, seu corpo, seus gostos.
Ouço suas músicas; filmes preferidos.
Sorriso discreto, contente de ser admirada.
Minutos, momentos, tão longos, hesito.
Já não sei o que penso. Descubro seu disco!
E leio seu livro, já tenho as palavras!!

Hesito, preparo...
Já não mais sozinha.
Já tem namorado.


Não, não! Esta não era uma festa como aquelas outras que habitualmente fico a divagar sozinho tentando compreender as pessoas a fundo. Aprendi hoje essencialidades jamais obtidas em festas hipócritas como tantas outras. Nesta sim, eu via, de fato, o que muitos não enxergam, por pura vaidade. Colunas protegeram as ondas que me mandam calar? Será mesmo?
Impressão tenho, às vezes, de que fui completamente bombardeado por idéias alheias; atingido por ondas que inclusive em mim despertaram idéias adormecidas e estáticas.
Estou aqui, com Astrid, deitados os dois no divã de um mini-escritório, a contemplar sete mil estrelas pela janela. Aqui estamos, falando no podre, no nobre, em anjos-demônios, trocando lembranças, abraços, idéias, teóricas verdades.

Quem é o detentor da verdade?
Não sabemos! Mas pouco me importa. Tenho em meu lado o espelho que amo. Sim, ela me faz sentir bem (como nenhuma outra me fez). E deixo de lado o espelho que odeio, porque embora sempre vá possuí-lo, posso quebrá-lo e moldá-lo. Quem sabe com arte eu não o transforme em algo belo! Quem sabe?

- Astrid!

- O que foi, Pedro?

- Posso lhe perguntar uma coisa?

- Claro, conte-me o que lhe está afligindo.

- Sabia que toda e qualquer ação, desde as mais simplórias atitudes humanas, são todas regidas pelo egoísmo?

- "Toda"? Ah, Pedro, aí já é demais!

- E por que você acha isso?

- Quer dizer que se eu me sentar, estou sendo egoísta?

- Sim, sentando você atinge um estado físico de maior conforto. O que mostra notório ego-ísmo.

- E quer dizer que se eu der um simples pulo para cima, estarei sendo egoísta?

- Sim, você está realizando uma vontade que teve.

- E se eu quebrar aquele lápis ali da mesa, não por vontade minha, mas só pra te contrariar? Vai me dizer que fui egoísta?

- Mais egoísta ainda. Quebrando, você quis me contrariar e triunfar sua opinião nessa nossa argumentação. Está vendo só?

- Então você está sendo egoísta, igualzinho a mim!

- Exatamente, e não estou negando isto! É justamente minha teoria.

- Mas Pedro, ainda não justifica.

- Por que?

- Porque não, oras. E se eu der um prato de comida a uma criança pobre?

- Você – admitindo ou não - estará fazendo uma "boa ação" que fará, no mínimo e inevitavelmente, com que as pessoas lhe vejam como "caridosa". Você, além de estar alimentando a criança, estará alimentando sua auto-imagem e boa reputação.

- É! Isto seria hipocrisia mesmo, concordo neste ponto! Mas e se eu alimentar a criança, e sem que ninguém veja ou fique sabendo?

- A criança estará sabendo! E você alimentou sua auto-imagem com pelo menos uma pessoa.

- E se eu fizer uma doação anônima a um orfanato? Absolutamente ninguém ficará sabendo, exceto eu mesma, é lógico!! Pronto, não fui egoísta!

- Desculpe, mas...exceto quem, você disse?

- Exceto eu mesma!

- E tem alguém mais importante para saber dos seus atos, bons ou maus, do que você mesma? Você vai atingir o pleno conforto espiritual interior de ter ajudado alguém. Vai se "sentir bem" por ter "feito o bem". E quem disse que tomar medidas que resultem em se "sentir bem" também não seja uma forma de egoísmo?

- Você venceu, Pedro. Senão não acabaremos nossas filosofias hoje.

- Hehehe, eu sei, Astrid! Fizeram-me esta pergunta na adolescência, e eu resisti ainda mais do que você para atacar a onipresença do egoísmo. Cheguei até a teorizar sobre a auto-flagelação com a pessoa que me questionou. E esta pessoa me tinha uma resposta para todas as minhas indagações. Hoje eu ainda não ponho minha mão no fogo para atestar a onipresença do egoísmo, isto é, não ouso desconsiderar a hipótese de ela algum dia ser quebrada, mas aprendi a respeitar uma teoria que - a princípio - me pareceu ridícula. Flexibilizei-me. Não no mesmo dia, não na mesma semana, mas refleti, tempos depois, sobre a essência daquela conversa. Paradoxalmente, não sou, até hoje, um seguidor assíduo de tal teoria (parece-me fatalista demais, sei lá), mas aprendi a enxergar que as teorias alheias podem ter sua lógica.

- Você é demais, Pedro!

- Olha só, Astrid. Quantas estrelas cadentes!
...nossa, Astrid!
Que está acontecendo comigo?
Que sono que me deu!
Eu não bebi!
Justo hoje que não bebi estou me sentindo tonto!
Eu não bebi, Astrid, juro!
O que tá acontecendo comigo?



Capítulo 13 –
A NOITE

Quando fluem, plenas e eternas, as nuvens que pairam sobre as noites frias e ternas. Quando a brisa toca, espessa, o espelho d’água morna, e fria, e quente, que corre, tenra e lentamente, em direção às quedas doces e brutas das cascatas. E nas pedras pára, o lobo, que, com seu uivar, seduz o adorno do néctar das flores. É aí, então, que, nas noites claras, os polens voam e polinizam. O pêlo branco e cinza delgado cobre o corpo sábio do instinto que dorme nos seres dos prantos e êxtases.

“Das profundezas clamo por ti, ó Senhor!”

É o que cantam as almas tardias, que esmurram, na fúria, as lâminas frias, e que enchem de ouro as bainhas furadas e sempre vazias.

Não, não! Nem que a mim venha o pólen doce ou a brisa salgada. Nem que os “fantasmas noctívagos da cova” me clamem com suas sedutoras propostas, que eu conseguirei me afastar desta doce licantropia do meu ser.



Capítulo 14 –
MÉDICOS DE EGOS E DE CORPOS

- Mas, Astrid, o que exatamente vocês planejam fazer comigo?

- Vamos te analisar para mapear tuas características físicas e psicológicas; tudo para que – reversamente – possamos procurar por mais pessoas com tais características. Assim, encontraremos mais “instintos” como você.

- E o que é ser “instinto”, Astrid?

- Seria como ter a aptidão nata de agir conforme os princípios do subconsciente. Mas isso, em algum grau, todos os animais mais evoluídos têm. Em outras palavras, “instinto” é como um impulso biológico espontâneo e aparentemente irracional que tem por objetivo a busca pela imortalidade. Entende, Pedro?

- Sim, mais ou menos.

- Como exemplo, é o caso de certas aves que migram “inteligentemente” numa determinada época do ano para que o inverno não as atinja. Mesmo sem terem real conhecimento geográfico ou meteorológico de seu habitat, elas simplesmente se vão. Ou, como outro exemplo, o instinto de sucção dos mamíferos: algo que, embora ninguém tendo lhes ensinado, simplesmente “sabem”como fazer.

- Entendo.

- E você tem uma capacidade para adentrar a fundo em seu subconsciente milhares de vezes superior à da maioria das pessoas. Com você, buscaremos compreender melhor o instinto humano!

- E como você sabe disso?

- Temos diversos indicativos sanguíneos e psicológicos que apontam tal potencial, Pedro. E algumas experiências com seu corpo podem revolucionar a humanidade.

- Como sabe tanta coisa? Você é médica, Astrid?

- Sou.

- E por que não me disse antes?

- Oras, e você me perguntou?

- Nem precisava.

- Por que?

- Ah, não sei! Bom, mas isso não importa agora.

- Fale, Pedro. Não hesite.

- É que eu não entendo os médicos, Astrid.

- E por que, Pedro?

- Por exemplo, me diga por que é que eu tenho que tomar diariamente um remédio vermelho depois do jantar? Eu não sei para que ele serve; minha saúde é ótima.

- Oras, Pedro, para alguma coisa deve servir, não é? Senão o doutor não o teria receitado, não é mesmo?

- Aí! Está vendo? Todos sempre têm respostas que nunca me respondem o que quero realmente saber. E assim continuo na mesma dúvida e incompreensão de sempre.

- Você toma o remédio porque ele vai lhe fazer bem, Pedro. A qual dos remédios você se refere?

- Não sei, eles não me falam.

- E não tem nada impresso no comprimido?

- Você sabe que eu nunca reparei, Astrid?

- Está vendo só, Pedro? Nem deve ser tão ruim assim tomar seu remédio. Senão você com certeza já teria ao menos tentado reparar nestes detalhes.

- Bom, talvez. Mas e minha irmã, Astrid? Por que ela tem aquela compulsão desenfreada por comida? Que às vezes chega a ser bela e um tanto quanto poética?

- Porque ela gosta de comer, oras, qual o pecado nisso?

- Mas isso rege a vida dela, Astrid. Não me lembro de minha irmã falando sobre filmes, ou livros, ou namorados comigo. Só me vêm à memória comentários culinários, elogios a doces, lembranças de sopas diferentes que ela já tomou. Não me recordo, Astrid, de nenhuma música que ela tenha me dito que gosta ou gostou.

- Entendo.

- E o Beto, então? Com aquele lenço branco à cabeça, pulando e gritando? ...meu irmão é feliz, Astrid! Pode ter certeza disto! Aquele lá está rindo o tempo todo! Sempre ouvindo suas músicas altas. Chega até a ficar surdo. Às vezes até gritamos com ele, porque aos poucos ele ensurdeceu de tanto ficar feliz. E acho que inclusive meu irmão deva ser culto. Isso mesmo, “culto”! Ele me fala sempre de músicas e músicos diferentes. Só não conheço nenhuma música de um tal de Munière que ele cita freqüentemente. Mas paciência, Astrid! Ele entende de músicas mais do que eu. Também não vou querer a pretensão de abraçar o mundo da sabedoria.

- Pelo visto você adora seus irmãos, não é, Pedro?

- Claro! São tudo o que tenho. Além de você - que estou tendo agora, é claro - é com eles que converso mais. Mas também tenho meus grandes amigos Marcelo e Caveira (embora não cheguem a ser como Beto e Márcia).

- Onde você morava, Pedro?

- Eu?

- Na melhor casa do mundo! Simples, porém bela. Bela porque tinha uma vista incrível! Você já está convidada a tomar café da manhã na sacada lá de casa. Garanto que não vai esquecer.

- Obrigada, Pedro! Muita gentileza, a sua. Irei sim, com certeza!

- Adoro nosso jardim também! Assim que acordo vou sempre tomar uma brisa por lá para ler o jornal.

- Nossa, Pedro! Vejo que temos várias coisas em comum, hein? Também leio o jornal no jardim de casa.

- Pois é, Astrid! Saiba você que fazemos a melhor coisa! A natureza é plena! Tenho percebido isto!

- Com certeza!

- Astrid!

- O que?

- Está vendo aquela fonte lá fora?

- Estou, que tem?

- Sabe o que ela me lembrou agora?

- O que?

- A minha essência, a essência definitiva do homem!



Capítulo 15 –
AS ESSENCIALIDADES
HUMANAS
(Segunda Parte)

- Como assim, Pedro?

- Eu te conto! Certa vez, por volta dos meus dez anos de idade, estava eu a andar com minha família por uma praia deserta e cheia de pedras. Sozinho, resolvi cavar um buraco enorme na areia; o maior que conseguisse. A princípio, a areia branca era fina e solta como talco. Cavouquei, tirando várias mãos de areia, jogando-nas para traz de meu corpo. Em seguida, encontrei uma camada de areia mais dura e espessa que a primeira. Vi que abaixo daquela “areia-taco” se encontrava uma areia muito mais densa; com os grãos extremamente unidos entre si. Chegavam-me inclusive a ferir as pontas dos dedos se tentasse separá-los sem algum descanso. Só me foi possível prosseguir a tarefa com o auxílio de um palito de sorvetes que, com sua fina superfície de madeira, rasgava, com facilidade, o segundo lençol rijo e grosso de uma já “areia-pedra”. Cavouquei, cavouquei, e cavouquei! Depois de uns dez minutos de engenharia em minha obra, pude, outra vez, trabalhar em condições mais viáveis e tranqüilas. Novamente, a areia tendia a ser mais solta e úmida. O “pequeno abismo” invariavelmente ficava mais fundo e com a borda mais larga (conforme a fronteira entre a superfície e o penhasco ia, inevitavelmente, desmoronando). Um pouco de água brotava ao fundo. Continuei com minha obra. Quando cheguei em determinada profundidade, percebi que quanto mais eu queria que o abismo fosse fundo, mais ele se alargava e acabava por jogar areia onde, o que eu queria, era tirá-la. Novamente: cavouquei, cavouquei e cavouquei. Eu queria um abismo fundo, e não largo! (Eu queria!) Depois de certo ponto não havia mais o que fazer, porque eu simplesmente já estava dentro de meu próprio buraco.

- E você lembrou disso por causa da fonte, Pedro?

- Sim, por causa da água da fonte! É como se eu pudesse enxergar agora a água que brotava no buraco de areia; bem como toda a luta que tive pra construir um lago na horizontal, querendo um rio na vertical.



Capítulo 16 –
LOBOS DA ETERNIDADE


- Astrid! Mas me fala uma coisa: esta fonte não estava ali ontem, estava?

- Não, Pedro. Mandamos colocá-la hoje!

- Ficou bonita.

- Você achou?

- Sim, ficou bonita mesmo. Vou poder ler o jornal enquanto ouço o barulho d´água batendo nas pedras.

- Que bom, não é, Pedro?

- Astrid!

- Fala, Pedro. Sou toda ouvidos.

- Sabe o que eu penso às vezes?

- O que?

- Penso se minha experiência não teria dado errado!? “Falhado” realmente!? E sabe por que? Porque já faz mais de três meses que estamos aqui fazendo várias e várias experiências com meu corpo, e nunca vejo você me trazendo notícias boas ou promissoras. No dia da primeira festa eu via as pessoas de branco, nas bancadas de madeira envernizada, bem entusiasmadas com seus exames, lembra? E até agora você não me trouxe nenhuma “boa notícia”.

...Astrid? Por que você não diz nada?
Estou certo, não estou?

E outra coisa: quando conversamos sobre meu remédio, como você podia ter certeza de que era um “comprimido”? Fiquei pensando nisto, nestes últimos dias. Seu pai errou depois de dez anos, não é mesmo?

...não fique triste, Astrid. Eu gosto de você, e sei que vocês não tiveram culpa. Ninguém é perfeito, não é? Talvez meu corpo não tenha sido exatamente o esperado pelos especialistas...

Perdoe-me por eu ter pensado mal de sua ordem. Eu sou idêntico a vocês! Com meu voluntariado, também contribuí para tentarmos abrir a "caixa preta dos segredos do homem". Infelizmente, porém, vejo que não foi desta vez...

Sabe Astrid, desculpe se às vezes eu me confundo nas idéias e nas palavras. Desculpe se divago nos assuntos e nas coisas, mas isso faz parte de minha natureza... Às vezes eu misturo as teorias, perco-me na cronologia dos fatos, ou conto as coisas todas na ordem contrária.

Mas no fundo, tudo isso é divertido!

Você está quieta por que, Astrid? Olhe para mim, por favor...

Ainda está triste porque quebrei aquela vidraça? Eu já prometi não fazer mais, e convenci o Caveira a não ser assim também. Você pensa que eu não percebo as coisas, mas eu percebo sim! Percebi rapidinho que não foi uma boa eu ter feito aquilo! Imagine só! Quebrar uma janela pela lembrança do meu cãozinho que morreu atropelado há mais de vinte anos. Eu realmente fui infantil em fazer aquilo, me desculpe.

- Pedro, você sabe que eu te amo, não sabe?

- Eu sei Astrid, mas não chore... Eu também gosto de você! Tem coisas que eu entendo que não cabem à nossa compreensão. No fundo me sinto bem com isso, porque assim nos livramos da culpa, não é mesmo?

O mundo é tão lindo, Astrid!
Eu era feliz e não sabia!
Feliz de entrar nas coisas, nas pessoas.
Nas “imagens, cores e sons”.

“Louco!!”
Hahahahaha, o Marcelo tinha mesmo razão!
Só que louco por uma boa causa, não é mesmo, Astrid?

Eu só não sei por que demorei mais de três meses pra perceber que tenho falado desenfreadamente tudo o que se passa em meus pensamentos. Já não sinto mais vergonha, orgulho, vaidade ou preconceito. Só não compreendo por que demorei tanto tempo para perceber o quão bom é viver num hospício como este (que sequer me parece um hospício de verdade). E sabe por que me é tão “confortável” este hospício, Astrid? É tão confortável porque ele é especial!
Porque aqui eu aprendi a abdicar ao meu orgulho!
Porque neste hospício eu tenho amigos.
Porque neste hospício fiz dois irmãos.

Um irmão negro, alegre, e ótimo frentista no passado!
E uma adorável irmã gordinha de São Petersburgo!

É tão bom viver aqui porque aqui eu abandonei o pedaço podre do meu coração, e hoje respiro o nobre perfume que brota das coisas mais simples e puras.

Porque neste jardim, aprendi a ver o sol, as nuvens, a grama, e a inerte beleza da dinâmica das coisas.

Porque neste castelo eu conheci você!

Eu inclusive entendo que não possamos nos relacionar.
Pelo fato de você ser médica, e eu paciente.
Portanto, deixo nossos beijos para os pensamentos.
(Você acha que eu não percebi as câmeras?)

É evidente o fato de nossos uniformes serem de cores opostas, mas eu não me importo.
Novamente minha teoria se confirma: de que nossa admiração inconscientemente se orienta aos opostos: seja de forma direta, ou indireta.
Negros com brancos.
Médicos e pacientes.
Tolos ecléticos.
Guerreiros sacerdotes!
Doce pecado!
Loucos e sãos.
E isto é a poesia pura, e nobre, e bela, e eterna, que tenho aprendido justamente com você, nestes últimos meses.

Mas não se preocupe, Astrid, o amor vai muito além disso tudo.
Ó vaidade das vaidades!
Como é bom enxergar pela quarta dimensão, Astrid.
Você deveria experimentar!

Ah, eu quase ia me esquecendo de te contar...
Vou mudar o cardápio destas festas hipócritas que meus colegas têm dado diariamente lá no refeitório. Chega de salmão! Agora vou passar a comer carne de borboletas.
Claro que sim!
Você nunca provou?
Nem comece a me olhar desse jeito!
Deveria experimentar, antes de julgar com essa cara de nojo banhado a lágrimas.
É uma delícia!

...eu adoro este seu sorriso, Astrid!

Você deveria sorrir assim mais vezes (é desta maneira que nos aproximamos da quarta dimensão).

Ah, e antes que eu também me esqueça:
Meu coração está fraco, posso sentí-lo cansado e já na luta contra o decrescimento. E assim também posso sentí-lo por perceber que suas visitas têm sido mais constantes e mais longas.
Portanto, se algo me acontecer algum dia destes, não deixe que tirem o rádio do Beto; e me prometa que sempre servirão salmão à Márcia.

- Prometo, Pedro!

- Ela adora! Nem que seja somente umas duas vezes por semana (eu sei que vocês têm dinheiro de sobra para isto). E se ela vez ou outra não acreditar, sirvam-na qualquer coisa; e digam que é salmão das costas chilenas. Assim ela come, e gosta, para não desagradar ao Beto.

- Claro, Pedro!

- Minha Astrid, minha doce Astrid. Muitos são os versos e as histórias que eu poderia ficar por horas e horas cantando a você, e tudo através das mais belíssimas melodias do homem. Mas lembre que ninguém pode viver só das histórias alheias. É importante que você faça sua própria história; toque sua própria música; escreva seu próprio livro; viva seus verdadeiros amores; pinte seus quadros (somos homens, somos artísticos); é importante que crie seus próprios filhos; sinta suas dores com sabedoria e acima de tudo, encontre sua singular essência do existir.

Das minhas, você pode até se esquecer, mas não se esqueça jamais, Astrid, das suas próprias palavras; e das suas próprias regras! Porque elas é que são a mais clara essência do seu ser.
Seja fiel a si própria, e a mais ninguém!

“E o beijo que deres, que sejas naqueles que a luz há tocado. E o beijo que deres que sejas na hora, no ato, no fogo, no novo, e nunca na lua, e não no passado”.

Vejo as estrelas! Sete milhares de sóis vivos ou mortos (e elas também me observam estáticas, como no divã da primeira festa, lembra-te?).

- Eu nunca vou me esquecer, Pedro!!

- E sabe qual é a essência disto tudo? A visão do novo! Porque hoje eu vejo que te amo!

- Eu também te amo, Pedro... me perdoe por tudo, por favor, eu poderia ter evitado tudo isto!!!

- Astrid, minha doce menina dos olhos celestes...
Não chores desta forma.
Choras por quem?
O amor transcende a toda esta loucura!
Não vês que hoje sou eu quem ri com a divina ironia dos maniqueísmos da vida?
Não enxergas que hoje sou eu, o “Príncipe dos Poetas”, a dançar Vivaldi no teatro dos vampiros?
E a recitar Shakespeare de cor?

Você ouve?

Consegue escutar?


Ouve a música que ouço?
Bem ao longe...

São violinos!
Consegue ouví-los, Astrid?


Posso sentí-los, de longe,

a chorarem o sereno “Tango Apasionato” astoriano.

Não ouve, não é mesmo?
É, eu já esperava por isto também!
Mas não se preocupe, Astrid.

No fundo é até bom ser
o único
a enxergar o que Dali guarda em suas gavetas!

Sim, eu! O louco!
O tolo!
A cobaia!
Hoje eu sou herói!

Mesmo que morto, mesmo que louco,
mesmo que na mais plena, áurea, e inabalável
doce licantropia do meu ser.


* FIM.